de novidades musicais.

há uma semana venho escutado somente as obras de mozart. talvez na esperança de ficar mais inteligente. eu deveria comprar baunilha para cheirar enquanto escuto e leio um livro de cabeça para baixo, li numa das minhas antigas playboys que essas são algumas formas de se exercitar o cérebro, criar novas sinapses, estimular as velhas. até agora, creio ter escutado cerca de cinco ou seis sinfonias, seus trios, quartetos e quintetos para piano, seus concertos para flautas, oboé e, agora, enquanto escrevo essas palavras, escuto um duo para violino e viola. devo admitir que é mentira que escutei somente mozart durante todos esses quase sete dias, escutei um pouco de bach, algumas músicas do pop rock mundial e, ao ler bukowski, achei justo buscar qualquer coisa de mahler e brahms, visto que ele citava seus nomes em sua obra. mahler me agradou, no entanto a gravação que tenho da sonata para piano nº1 de brahms não me caiu bem aos ouvidos, soando extremamente artificial e forçado, uma música mecânica, sem alma.

não sou conhecedor ou entendedor de música erudita, nem de qualquer outro tipo de música, na verdade, mas sempre apreciei uma bela execução de instrumentos musicais e tenho muito apreço pela obra de beethoven, cuja nona sinfonia e a ode à alegria me fazem sentir arrepios cada vez que ouço, wagner, que sempre me faz pensar em seres potentes, poderosos, deuses, acima dos homens, subjugando-os, duelando entre si, e chopin, que compôs noturnos que (isso que estou para dizer é engraçado para mim) me fazem pensar em propagandas de margarina e genocídio, guerra, fome, tristeza, no frio e na escuridão se fechando sobre o homem de forma claustrofóbica.

não acredito que mozart me deixará mais inteligente, nem mesmo espero isso como resultado de minhas intercorrências por sua obra. a verdade é que não tenho a concentração necessária para apreciar verdadeiramente a música que toca. não sei seu nome, não sei o que significa e nem seu contexto. apesar de ter assistido à primeira apresentação de ópera no estado de alagoas, no ano de 2006, uma obra de mozart, a flauta mágica, hoje já não me arrisco a isso por não ter domínio da língua alemã e ser incapaz de acompanhar a ação sem esse entendimento.

o que quero, ao escutar as obras eruditas, é ter a possibilidade de novas experiências sensoriais para mim. uma melodia nunca antes ouvida às vezes nos chega aos ouvidos e é capaz de mudar aquilo que achamos de música e de nós mesmos. e descobrir mozart hoje, depois de mais de vinte anos da minha existência e duzentos e vinte anos depois de sua morte, me faz pensar no quão pouco eu sei da vida ao meu redor e na imensidão de coisas que existem, nunca contempladas por mim, nunca ouvidas por mim.

há cerca de três ou quatro anos escutei a obra completa de vivaldi, mas hoje não me recordo de suas melodias e sou incapaz de identificar algum movimento de sua sinfonia das quatro estações ou suas sonatas para violino. além do mais, acho que o italiano não me passa o sentimento que esses germânicos me passam. chego a sentir falta de escutar beethoven depois de algum tempo longe de sua obra, sinto saudade, Sehnsucht, como eles dizem, desejo de mais uma vez escutá-lo, apreciá-lo, escutar suas notas pesadas e poderosas.

apesar de todo o desconhecimento em relação ao assunto, a música clássica está incorporada ao mundo, há poucas pessoas que nunca escutaram um trecho que seja de um dos compositores por mim já citados nesse texto. podem nem mesmo saber o nome – como eu agora, ao descobrir com imensa surpresa que conheço desde que me entendo como gente Eine kleine Nachtmusik, Allegro -, mas já ouviram em alguma propaganda de margarina com uma família feliz e sorridente, ou em uma de sabonete no qual uma estrela da tv passa o sabonete sobre sua pele de forma delicada, ou mesmo em vinhetas de abertura de programas de televisão, até mesmo comerciais de refrigerante que colocam galinhas de computação gráfica destruindo a ode à alegria enquanto figurantes expressam mal o deslumbramento e interesse que deveriam fingir. tomo como fato que boa parte da população de alagoas já escutou carmina burana em algum momento da vida, afinal, trechos da obra sempre eram executados quando estavam prestes a exibir cenas fortes num programa policial dos idos de 2000. por sorte, minha geração foi privilegiada com a exibição de diversas animações que sempre lançavam mão das obras de vários compositores como trilha sonora em seus programas. lembro-me de rir muitas vezes no episódio de tom & jerry em que nosso amigo gato se apresenta em um recital tocando liszt e o rato – quando eu era mais novo eu só torcia para o rato, mas hoje em dia, o tom me parece mai legal – dorme dentro do piano que será utilizado para tocar a rapsódia húngara número 2; recordo-me ainda de um episódio de pica pau em que ele encontra a barbearia do senhor fígaro aberta, mas o dono saíra para almoçar então o pássaro resolve tomar seu lugar e atender a clientela. durante todo o episódio, a trilha sonora é o barbeiro de sevilha, que também está presente em um episódio de pernalonga, onde o coelho massageia o couro cabeludo do hortelino troca letras com suas patas e orelhas. qual animação atual utiliza dos clássicos da música para entreter? temo pelo dia em que as crianças assistirão a desenhos animados cuja trilha será composta por gangsta rap e funk.

há muito para ser conhecido por mim, especialmente, os brasileiros. minha eterna falta de conhecimento em relação à cultura do país onde nasci e fui criado. sou capaz de falar por horas sobre os maiores escritores estadunidenses e alguns da língua inglesa não norte americanos dos últimos cinquenta anos, mas não consigo falar dez minutos sobre qualquer obra contemporânea de literatura brasileira. e uso aqui a literatura porque é um assunto do qual já tenho certo conhecimento e um pouco mais de domínio que a música erudita. a esperança é que da próxima vez que eu resolva falar sobre qualquer coisa de música clássica, eu esteja mais familiarizado com ela. torcer por isso nunca é demais e não fará mal algum.

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a história.

no início do dia 30 de dezembro do ano de 2006, um sábado, estávamos, eu e amigos, reunidos para celebrar mais um ano de vida de um dos nossos. o encontro tivera início na noite do dia 29, no térreo do eugênio I, o prédio que recebeu por tantas vezes nossas reuniões alegres e serviu de palco para incontáveis eventos que moldaram a vida de um número alto de pessoas importantes do meu convívio. gostaria de dizer que relembro de cada detalhe daquela noite, mas então eu estaria mentindo, e não me agrada faltar a verdade comigo mesmo. é provável que estivéssemos com alguns instrumentos musicais, porque sei que, ao fim desse dia, saímos da casa com uma das melhores versões da música “cálice”, do chico buarque, que já existiram, incluindo entre elas a original (a música que fizemos se perdeu no tempo, e hoje tudo o que tenho dela são as lembranças de quatro ou cinco jovens assistindo ao sol nascer e formando frases absurdas que se encaixassem perfeitamente na melodia já conhecida por todos).

talvez tivéssemos conosco um filme. acho bastante provável que depois que recebemos o aviso que estava tarde demais para ficarmos aos cantos e berros na área comum do prédio, tivemos que nos retirar, mas sem a menor vontade de acabar com aquela noite, afinal, éramos jovens, estávamos de férias, era quase um novo ano e o sono poderia ser reajustado outra hora. resolvemos que o que quer que estivéssemos a fazer seria continuado no apartamento do meu amigo. 703. por volta de meia noite, demos início a uma sessão de filme que foi interrompida, lembro bem, pela mãe do anfitrião, a dona da casa, que surgiu saída de seu quarto para nos mandar tirar aquele filme da tela e ligar em qualquer canal de televisão, a história estava sendo feita: saddam hussein havia sido executado a uma hora da manhã do dia 30 de dezembro. assistimos ao vídeo de saddam pouco antes de ser enforcado, conversando com as pessoas ao seu redor, tranquilo, vimos seu corpo pendurado pelo pescoço, seu rosto inchado, sem o capuz negro tipicamente usado em enforcados.

éramos jovens, o mais velho de nós completava 19 anos naquele dia, o dia da morte de saddam hussein. a guerra do golfo foi, para nós alguma coisa que aconteceu quando tínhamos 3 anos, enquanto aprendíamos as vogais, saddam hussein cometia alguns crimes contra a humanidade para pode enriquecer através do petróleo. crescemos e vimos o homem de bigodes constantemente presente em noticiários, sempre abalando a já abalável área do oriente médio, acusado de concordar com as ações tomadas por terroristas e protegê-los, primeiro ministro de um país que supostamente teria armas químicas não declaradas escondidas das nações unidas, deposto de seu cargo através de guerra, a primeira que minha geração pôde acompanhar do início ao fim com senso crítico e um melhor entendimento do que se passa.

lembro de, poucos dias depois desse dia, escrever um poema que dizia que saddam hussein estava morto. lembro de caminhar no sol às seis da manhã em direção à parada de ônibus e do carro dos pais de um amigo ir embora com ele, que não dissera onde passaria a noite e estava prestes a receber sua punição. então, cheguei em casa, dormi, e vivi minha vida de alguma forma. o ano mudou e, no segundo dia de 2007, escrevi que saddam estava morto, que eu tinha visto tudo. o poema não tem nenhum significado, só achei que seria algo importante a ser registrado de alguma forma e não consegui deixar de achar que a notícia de que um dos homens mais caçados do mundo àquela época estava morto era um fato de certa forma poético, o fim de algum ciclo desses tantos que formam a vida.

passei o dia 1 de maio de 2011 em casa. esses quase cinco anos que espaçaram a morte de saddam e a data escrita serviram para dar vazão a inúmeros acontecimentos na minha vida e na daqueles que me rodeiam; o mais marcante para mim talvez seja a mudança de cidades. foi um domingo e, depois de dois anos com o mesmo botijão de gás, ele final e infelizmente acabou na hora do almoço. naqueles dias, minha televisão ainda transmitia imagens desfocadas, descoloridas e cheias de chuviscos – hoje ela vive desligada exatamente por nem isso conseguir fazer. por volta de meia noite do dia 2 de maio, fui informado através de outra as invenções do tempo, o twitter, que o presidente dos estados unidos, barack obama, faria um pronunciamento ao vivo informando a morte do terrorista responsável pelos atentados do dia 11 de setembro, a completar 10 anos, na tarde daquele dia primeiro. era o segundo grande vilão da história que eu vi morrer, mas esse foi o primeiro que vi surgir, afinal, por mais que ele já existisse e cometesse seus atos de terrorismos antes de 2001, foi somente naquele ano que o mundo criou a mítica figura de osama bin laden e o terror ao seu redor. o homem que feriu os estados unidos em sua própria casa, torando-se o homem mais odiado no mundo pelas mortes de cerca de 2.200 pessoas em um dia, levando o “país da liberdade”  a uma guerra contra o terror e fazendo com que tropas fossem enviadas ao afeganistão e ao iraque, para trazer a democracia e acabar com o terror que essas nações traziam ao mundo. nos três primeiros anos da guerra do afeganistão,  entre 3,100 e 3,600 civis foram mortos em bombardeios das tropas americanas, mais 1,700 morreram nos idos do quinto ano de conflito, que durou mais cinco anos e elegeu um presidente com a promessa de que retiraria suas tropas dessa guerra, que se tornou indesejada pela maioria da população estadunidense.

o presidente falou e eu ouvi. ele disse que as tropas americanas souberam há pouco da localização exata do esconderijo do homem mais procurado da terra, e invadiram sua casa, executando-o e dando um passo importante no caminho da paz. o mito morreu e eu só me disse: “é, amigo, osama está morto, o obama se deu bem.”, não fiz nenhuma elegia, não escrevi nenhum poema.

quase cinco anos se passaram desde que saddam morreu e hoje ele e osama estão mortos. ultrapassando a barreira que pensei existir entre aquilo que está aqui e o que foi escrito, a história está acontecendo ao nosso redor e, como disse roth, todos nos tornamos parte dela, querendo ou não.

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a rua.

há vários homens trabalhando na rua agora. são quase dez e meia da noite de uma terça feira e eles, não sei exatamente quantos são, se três ou quinze, sei que estão usando ferramentas pesadas, algo que me soa como uma serra elétrica, para consertar qualquer coisa que esteja errada com o asfalto da rua. se estão com os equipamentos de proteção individual adequados eu não faço a menor ideia, mas o mais provável é que não. há cerca de um mês, eles, ou seriam outros?, estavam a fazer um serviço semelhante em outro ponto da rua, a cerca de 20 metros do ponto atual, em frente a onde vivo. o som que fazem é o mesmo e, como da vez anterior, é provável que o trabalho siga até altas horas da noite e isso implique em muito barulho durante o sono. (recordo-me de levantar uma noite para ver o que diabos era aquilo que fazia tanto barulho e o motivo e me deparar com quatro homens vestidos de laranja, dois deles manuseavam uma britadeira, outro deles era responsável pela sinalização do local e outro conduzia um veículo pesado, algo para prensar o asfalto, talvez, a memória me falha e talvez esteja danificada devido às noites mal dormidas daquela época)

a rua nunca é quieta. ela jamais se cala de verdade e ter esperança que ela se silencie é tolo como esperar um nobel de literatura para o dan brown, inimaginável como o completo desenvolvimento técnico-científico da áfrica e o fim da mão de obra barata. lá fora, a vida é expressada através do som ininterrupto de carros acelerando, freando, a disparar seus alarmes anti-furto, caminhões de lixo fazendo a coleta pela madrugada, caminhões de carga passando acima do limite de velocidade permitido para sua carga a soar pela rua, além de animais latindo, miando, gritando bêbadas, gritando drogadas; tem prostitutas falando entre si sobre seus problemas, sobre seus clientes, sobre os shows que frequentam para se divertir, para trabalhar, conversam sobre suas famílias, seus cafetões, seus filhos, suas coceiras, seus corrimentos, seus problemas, suas doenças, suas vidas; há vida na rua por toda a noite e juro que já ouvi vozes chorosas implorando, dizendo que não, não, depois uma porta de carro batendo e o motor do automóvel aumentando sua contagem de giros, soltando a fumaça do combustível pelo escapamento e deixando as marcas de pneu no asfalto e minha espinha fria, um suor brotando na minha testa ao pensamento que se eu colocasse minha cabeça para fora da janela da cozinha ou do meu quarto eu terminasse por ver qualquer coisa que me comprometeria, como vi tantas vezes nos malditos filmes que terminaram por moldar meu caráter.

sempre passa ônibus na rua, não importa a hora que seja, sempre há um passando, mesmo que a partir de meia noite a passagem diminua a frequência e só passe de hora em hora, tem-se a certeza que um deles fará seus sons de chegada, ao longe, que aumenta conforme se aproxima do prédio onde moro, fazendo o chão tremer ao passar em frente e irá embora deixando atrás de si os resquícios dos ruídos de seu corpo pesado a se arrastar pelos buracos da rua, pelas elevações, as má formações, sempre fazendo o som inconfundível de um ônibus pesado com três ou sete pessoas dentro.

os carros mais leves e as motos tendem a ser mais silenciosos, mas as exceções se fazem muitas vezes com motoristas que pesam a mão em buzinas à uma da manhã, ou que resolvem explorar o potencial de seus automóveis em plena madrugada, já que a rua está livre à sua frente como nunca acontecerá durante o dia, já que os semáforos estão todos prontos para serem ignorados, já que todos eles sentem que estão com o moral elevado o suficiente para não serem atingidos pela realidade: acidentes de trânsito acontecem a toda hora, por mais improvável que a hora esteja, sempre haverá um outro automóvel cruzando a avenida sem olhar se vem alguém, sempre haverá um caminhão que queimará a luz vermelha e atingirá um carro cujo motorista estava distraído e viu que estava verde para ele e seguiu, e então fugirá do local sem prestar socorro, deixando um homem sangrando entre ferragens.

por cinco minutos a cada hora, há uma quase quietude lá fora. são os momentos em que acontece a introspecção da rua, quando ela resolve dar vazão à criação de seus pensamentos, sua autocontemplação, sua melancolia, enfim, o que quer que explique esses cinco estranhos minutos em que posso ouvir meus próprios pensamentos sem ser atrapalhado pelo som cortante de um motor.

os homens da rua se foram, quase uma hora depois do início do trabalho, no entanto os sons da vida lá fora continuam, sem serras elétricas agora, mas com martelos se chocando contra pedras, dessa vez um pouco mais distante que esses 20 metros. eu poderia colocar uma música para mascarar tudo o que vem lá de fora, mas ela acabaria por se mesclar aos sons mais fortes e eu perderia as doces melodias para o som da vida real, o som do massacre que acontece lá fora a cada segundo, a me lembrar que estou aqui dentro, ouvindo, olhando, nunca participando.

mas não me queixo de nada daqui de dentro, onde posso ouvir as histórias que a rua me conta, conversar com ela como se fala com uma velha amiga, como fazem os conhecidos de tempos. sento e ponho meus ouvidos atentos, ouço os assobios, os ruídos de passos se arrastando no asfalto, ouço as portas se fechando de maneira estrondosa em algum lugar da noite. a rua fala comigo toda noite, sempre a contar suas novidades, seus segredos. de dia sou só mais um entre tantos lá fora, mas, à noite, quando ninguém mais se dispõe a ouvir o que ela tem a dizer, sinto que sou o ouvido para quem fala a rua. às vezes ela fala mais do que eu gostaria, às vezes mais alto do que o ideal, mas ou se aceita ela do jeito que é, do jeito que vem, ou se tapa os ouvidos e dorme.

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dezessete.

faz tempo desde a última vez que encarei essa tela em branco a me desafiar a escrever qualquer coisa nela. talvez esse tempo seja bom, porque assim posso enxergar minhas qualidades e defeitos na escrita publicada no blog, mas pode ser ruim pela simples razão de que sou um procrastinador exemplar, indisciplinado desde pequeno e, por esse motivo, estou há meses com minha produção de textos resumidas a pouco mais de mil palavras por mês, um verdadeiro drama. por isso hoje recorrerei ao texto pessoal, aquela velha primeira pessoa não ficcional, algo quase opinativo, algo que não faço faz um bom tempo. talvez eu fale das minhas atuais leituras, dos meus problemas recentes, talvez reclame das pessoas, afinal, reclamar é sempre uma boa maneira de se expressar. começemos.

thomas pynchon, don delillo, paul auster, william faulkner, saul bellow, raymond chandler, f. scott fitzgerald, james woods, george r. r. martin. esses são os nomes de alguns dos estrangeiros que nunca li, mas já encontrei tantos elogios sobre suas peripécias em obras que, curioso, criei a vontade de lê-los. dos citados, faulkner e pynchon são os que ocupam lugar físico no meu mundo (e devo confessar que o segundo, particularmente, ocupa bastante espaço com as mais de 1500 páginas), mas todos os dias vejo algo novo sobre algum deles que me faz sentir mais desejo de conhecê-los. o pynchon criou em suas obras uma mitologia que se estende a si, ou seria o contrário?; don delillo só faz receber críticas positivas e é colocado ao lado de pynchon, cormac mccarthy (que estou lendo no momento) e philip roth (e qualquer um que seja comparado a ele, para mim, quer dizer que devo lê-lo); paul auster me atraiu através de críticas positivas, da capacidade de criar personagens que se perdem dentro de si e no mundo, por ser também de newark, cidade do roth, e por ser comparado com ele; william faulkner é um dos grandes nomes da literatura americana, o cara que modificou a forma escrita, tornando-a semelhante ao que era falado, retratando em seus livros a realidade de sua época – ou algo assim, li artigos de wikipédia sobre ele, não estou seguro quanto a isso); saul bellow é um dos amigos de roth e uma de suas influências, mais que motivo para que esse vencedor do nobel figure em minha lista; raymond chandler é o escritor noir que mais vi ser elogiado, minha veia de mistérios pede para lê-lo, e eu também; f. scott fitzgerald é considerado o principal representante de toda uma era histórica, expressando o glamour, a elegância e a decadência, sendo de extrema importância para a literatura estadunidense; james woods me pegou por ser um crítico de literatura que escreveu um livro que explica a ficção do jeito que ela é hoje em dia, desde que flaubert virou flaubert, e se ler um livro sobre livros clássicos não for legal, não sei o que mais é; george r. r. martin e sua fantasia com descrições realistas, um ambiente fantástico cheio de violência e sexo (o homem colocou sexo na fantasia medieval, saudemos o homem!), me parece uma forma divertida de relaxar e deixar a imaginação fluir. e esses são apenas os gringos dos estados unidos.

partindo para a europa encontramos logo ali nos nossos antigos escravizadores antónio lobo antunes, válter hugo mãe, daí pulamos pra espanha e encontramos enrique vila-matas, depois saímos desenfreados e sem ordem geográfica e temos hertha müller, thomas mann, chekóv. o português antónio lobo antunes está aqui porque há muito tempo ouvi falar de uma suposta rixa entre esse e o bom velhinho saramago, fiquei curioso para conhecer esse português que concorria ao posto de melhor escritor de portugal; valter hugo mãe esteve na flip desse ano e foi só elogios em relação a sua prosa e a sua pessoa; vila-matas me pegou por ser um escritor metalinguístico, e não há nada que me faça sentir cócegas no cérebro mais que metalinguagem (por causa disso quase tive uma ereção em “meia noite em paris”, do woody allen); a hertha müller era uma desconhecida para o mundo até que venceu o nobel de 2009, teve sua obra mais recente publicada pela cia das letras e foi elogiadíssima por sua narrativa; thomas mann é um clássico da literatura mundial, a morte em veneza parece ser um livro fácil de se ler, me disseram que era, mas eles não tentaram em alemão, por isso estou na segunda página dele desde março; daí vem o russo chekóv, mas eu diria que quero ler todos os russos só pelo que as pessoas dizem dos russos, da riqueza das descrições, dos perfis psicológicos bem estruturados e de tudo mais.

a verdade é que sou grande admirador da literatura estadunidense (e um pouco da europeia) , mas preciso aprender a valorizar a literatura do nosso país, afinal, dizem que é de qualidade. na lista estão euclides da cunha, jorge amado, joão guimarães rosa, joca reiners terron, edney silvestre,  marçal aquino, joão paulo cuenca, sérgio sant’anna, michel laub. não tenho muitos motivos específicos para justificar minhas vontades em relação a cada um desses autores como com os estrangeiros, mas posso tentar. euclides da cunha figura aqui porque seu livro “os sertões” inspirou mario vargas llosa a escrever “a guerra do fim do mundo”; jorge amado está na lista também por causa do llosa e da amizade que ambos tinham; joão guimarães rosa é citado por alguns como brasileiro que chegou mais perto de ganhar o prêmio nobel de literatura, além de ter uma das obras mais comentadas e respeitadas no país, sempre sendo citado como exemplo de inventividade quando se trata de escrita; os outros foram citados por me despertarem prazer ao ler críticas breves sobre as obras escritas ou por terem títulos que me chamaram atenção (“o único final feliz para uma história de amor é um acidente” é um título que me pareceu sensacional, vamos lá).

até agora, esse tem sido um ano de boas leituras, mesmo depois de ter como primeiro livro lido no ano o terrível (e misteriosamente elogiado) policial “eu mato”. um bom ano para roth, tendo lido seis livros dele esse ano, assim como para coetzee, que foi para minha estante com os livros “desonra” e “homem lento”, ambos elogiados por minha mãe, e será o próximo autor que lerei em seu “diário de um ano ruim”. esse também foi o ano que conheci mario vargas llosa e me encantei por sua escrita, sendo posto a crer que sim, existe literatura de qualidade na américa do sul, e que não, ela não vem do garcía marquez (devo admitir que “o amor nos tempos do coléra” me agradou, mas nada no mundo me fez gostar de “cem anos de solidão”, o que me leva a pensar que talvez seja necessária uma releitura da obra, mas só esse pensamento me traz lembranças ruins da leitura do livro. mas às vezes é preciso fazer alguns sacrifícios e eu, que antes não gostava de kafka, hoje admiro a obra do maldito, mesmo achando o processo o livro mais chato do mundo – mais até que moby dick!-, devo estar aberto à possibilidade de que essa releitura vá me agradar.); foi um ano de mais uma vez me encantar com a sensibilidade fantasiosa, o non sence das situações e as divagações hilárias que kurt vonnegut cria de forma ímpar.

esse está a ser um bom ano para minhas leituras, mas meu medo é que tudo emperre de uma hora para a outra, como aconteceu com a escrita, como aconteceu com os estudos por um tempo, como tem acontecido com várias coisas ao meu redor.

fazia tempo que não escrevia e, devo confessar, está cada vez mais difícil escrever sobre qualquer assunto de forma que me agrade e me faça pensar que é algo que se valha a pena ler. esse texto é diferente, não se encaixa no perfil de nada que acredito que seja lível, mas é o que tenho a oferecer no momento. são mais de mil palavras que foram tiradas de mim em uma hora, o que é algo que não me acontece há anos. por esse motivo devo admitir a falta de qualidade técnica, mas também é por isso que há um pouco mais de sentimento nelas, por ser pessoal, por ser eu quem está dizendo tudo aqui e não um personagem criado por mim. talvez por fazer tanto tempo desde a última vez que escrevi como fazia aos dezessete, escolhi um tema sobre o qual entendo um pouco: minhas leituras futuras e passadas, meu ano, minhas coisas. agora devo me limitar a dizer um até mais e levantar em busca de algo para comer.

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beatnik, inspiração e prática.

o beatnik e todo o estilo descompromissado de escrever acabaram com meu potencial de boa escrita. acredito que minhas leituras de jack kerouac, john fante e bukowski penetraram profundamente em minha cabeça. a idéia de escrever um livro em uma sentada, num rolo de papel gigantesco, com espaços simples, sem parágrafos, me seduziu, me faz acreditar que era assim que o mundo funcionava, que é assim que se fazem as obras naturais, que é com uma noite de bebedeira e falatório que vou escrever os melhores contos que o mundo já leu. mas aí me vem roth, através de lonoff – ou o contrário -, e me esclarece que não, que o escritor deve, acima de tudo, ter paciência e que, antes mesmo de abrir a boca para dizer estar inspirado, deve-se ter o entendimento que inspiração move todo aquele que não sabe fazer as coisas que precisam. é necessário trabalho duro: escrever, ler, reler, revisar, cuidar do texto como se cuida de um filho, como se trata um recém nascido. deve-se trocar suas sujeiras, limpá-lo, asseá-lo, deixá-lo apresentável ao mundo, ao leitor.

culpo o movimento beatnik porque é o movimento cultural que me influenciou numa época extremamente influenciável da minha vida. se, aos dezoito anos, ao invés dos beats e dos malditos, eu tivesse pego algum dos disciplinados, um j.m. coetzee, paul auster, ou um philip roth, conhecido zuckerman e lonoff, não estaria escrevendo esse texto. no entanto, também não sei se escreveria outro, diferente, ou se ao menos teria os sonhos de um dia fazer mais do que textos num blog sem leitores que não sejam meus amigos. sempre fui movido pela inspiração e isso me faz ter um pouco de vergonha de tudo aquilo que escrevo por ser algo tão fracamente construído: a inspiração e somente ela não basta para construir todos os níveis da ficção, por isso, nos últimos meses – por que não dizer anos? -, tenho tentado mudar isso e escrever não quando a inspiração me compele, mas a escrever um pouco todos os dias, mesmo que sejam idéias que não combinem, mesmo que sejam textos que não terminem, tenho tentado escrever mesmo sem ter aquela velha companheira que me fazia escrever mais de mil palavras numa única noite. hoje em dia escrevo cem, duzentas palavras quando consigo uma boa noite de escrita – uma escrita um pouco mais consciente, com auto correções, mas ainda assim com menos revisões do que eu gostaria de fazer – ainda não tenho a disciplina ensinada por lonoff, por graciliano, por todos os grandes escritores.

por mais “inadequeadas” que minhas leituras iniciais em minha formação de aspirante a escritor possam ter sido (boto aqui as aspas por achar que cada uma delas tem, é claro, seu devido valor, ou como uma forma de diversão, por mais estilisticamente mal escritas fossem os livros lidos, por mais crus e sem forma fossem os textos que li naqueles dias, não posso dizer ter arrependimento ou vergonha do que se passou por minhas mãos naqueles dias e até hoje (não nego leituras, ainda não posso me dar a esse luxo, mas, claro, existem sempre prioridades). um desses dias recentes me deparei com dois livros do john fante pelo preço de um e na minha cabeceira está factótum esperando pacientemente por sua hora de ser lido (provavelmente depois de vargas llosa, faulkner e sheakspeare).

tenho um sonho de um dia ter um livro publicado por uma boa editora – boa para mim, pelo menos. mas, a cada texto escrito e a cada livro lido, percebo que estou muito distante da minha meta, entendo que ainda preciso crescer, que ainda preciso, de fato, me esforçar. olho para o que escrevo agora e percebo que nada, absolutamente nada do que está sendo escrito está sendo ponderado, pesado, revisado. não tenho torcido as palavras, não tenho feito como as lavadeiras da beira do rio são francisco. tudo o que fiz foi jogar as palavras na minha frente – nem posso dizer que foi na folha de papel, visto que escrevo no computador e há tempos não pego num lápis e papel para escrever um pedaço de ficção ou meus próprios pensamentos em forma de texto.

a verdade é que sofro de um mal: não sou capaz de inventar. me falta imaginação para criar as situações passadas por um personagem – sei que não é necessário que tudo seja inventado, até porque todos compartilhamos inúmeras semelhanças, mas às vezes não consigo separar as semelhanças de um personagem da pessoa/situação-modelo -, me falta vocabulário, me faltam idéias, me falta a capacidade de parafrasear a mim mesmo, torcer e retorcer minhas palavras como uma vez me ensinou o professor osvaldo epifânio nos idos da minha adolescência. muitas vezes me vi roubando as idéias dos outros e, sem nem ao menos realizar boas modificações nelas, reuni-las com outras idéias, de outras pessoas, transformando as palavras dos outros em minhas palavras. hoje mesmo senti a vontade de roubar uma idéia que li num livro: mulheres são assassinadas, o seio esquerdo delas é decepado e o mamilo direito é arrancado pelo que parecem ser mordidas. então, pensei em escrever um texto que descreve exatamente cada momento que aquela mulher viveu, o medo que sentiu quando foi abduzida, violentada, quando teve um cachorro – e aqui imaginei um dobberman – mordendo sua vulva até destroçá-la completamente, enquanto, viva, chorava e se desesperava, implorava por piedade sabendo que o próximo passo era a morte e não querendo aceitar; ou ainda pedindo a seu sequestrador e torturador que acabasse com aquilo tudo logo, para que ela não sofresse mais. suas lágrimas escorreriam pelo seu rosto, o cachorro então parararia de mordê-la porque seu dono puxou sua coleira e agora mirava a cabeça do cão nos seios nus da moça, que está amarrada a uma pilastra, as pernas fastadas, o sangue escorrendo pelo chão de cimento. no entanto, desenvolver uma ideia de outra pessoa não faz com que essa ideia seja minha. porém como saber se uma ideia é realmente nossa ou uma mera cópia de algo que foi escutado, lido ou visto por nós?

há cerca de dois anos estipulei uma meta para meus textos, uma forma de classificá-los em publicáveis e impublicáveis no meu blog: um mínimo de mil palavras no contador de palavras do wordpress. desde então qualquer texto que não se encaixe nessas exigências é automaticamente classificado como impublicável. no entanto, esse tipo de separação dos meus textos só diz respeito a quantidade. a qualidade, no entanto, é subjetiva demais e, para mim, o dono dos textos, cada um deles é bom, mesmo o pior deles, por expressar pensamentos, sentimentos, por serem experimentações, tentativas de explorar novas facetas literárias ou não, de tentar, através de palavras, expressar o que antes eu não havia conseguido.

preciso de disciplina, algo que nunca tive, e paciência, que está cada vez mais distante da minha atual situação de ansiedade. mal consigo pensar no agora, as coisas que mais me preocupam são o amanhã e tudo o que terei de fazer para lidar com ele, o que me leva a pensar: “então, quando é que terei tempo para melhorar e me disciplinar?”, me arremessando num ciclo de temor do futuro, ansiedade e impotência.

talvez as coisas fossem melhor para mim quando eu não tinha a preocupação com escrever bem, quando tudo era uma piada que eu fazia com meus amigos, que sempre aturaram minha escrita, e meu maior problema com o futuro era quando seria a prova de física e as tentativas de não repetir tantas palavras nas péssimas dissertações que fazia para o professor osvaldo epifânio. mas talvez as coisas sempre tenham sido ruim e hoje, vistas a uma distância segura, pareçam melhores do que eram.

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um rio.

pensava em fluxo de pensamento. os fones de ouvido tocavam apenas mais uma canção de amor. à esquerda a rua onde os carros corriam e faziam seus barulhos, as buzinas, os motores, as pessoas. pé ante pé ante pé ante pé. não gostava do recurso utilizado tanto pelos modernistas. uma moça bonita passa num carro prateado e vai embora deixando apenas a lembrança de uma moça bonita e a tristeza de não mais vê-la, a infelicidade de não poder despi-la por completo revelando seus segredos escondidos pelos panos. pé ante pé ante pé ante pé. não achou as obras primas do movimento modernista nada tão interessante, mas faltava uma. um ônibus cheio passa na rua e ele sente o chão da calçada, sob seus pés, tremer. chegou na ponte. pé ante pé ante pé ante pé. à esquerda o rio, a rua à direita, a ponte que faz seu caminho é de concreto e sólida como tudo ao seu redor: os prédios, as casas, as pessoas, o rio. o rio corre por baixo de onde passa e ele acha que consegue sentir a água, o frescor, mas, na verdade, tudo o que sente é o cheiro ruim que sobe, indicando que ali, naquela lama, a vida quase não há, por mais que tentem fazer os milagres. pé ante pé ante pé ante pé. tinha lido joyce, o pai, o criador, o louco, lera wolf e, mesmo não sendo fã, tinha que dar o braço a torcer que aqueles dois sabiam bem o que faziam e, claro, lera lispector, da qual não tinha uma boa opinião. pé ante pé ante pé ante pé. a rua naquela área era extremamente movimentada, sob a ponte passavam pescadores nos barcos pequenos de pesca, na ponte, em outro ponto, um homem vestia uma camisa preta desbotada, ele tem cerca de 60 anos, mas bem pode ter 40 e a vida tê-lo destruído como faz com tantos; esse homem joga no rio uma rede. na camisa, a estampa de uma banda de black metal. pensa que aquele senhor não faz idéia do que veste, pensa em como ele conseguiu a camisa, quem a doou. então imagina que não, que ela poderia ser dele, e chega a ver o senhor ao lado do som de sua casa, ouvindo enquanto a voz gutural canta versos em apologia ao anjo caído. as mãos do homem lançam a rece, que ele vê caindo, observa o pescador trabalhando com suas mãos. pé ante pé ante pé ante pé. os carros passam ignorando sua existência ou a do pescador. segue adiante. pé ante pé ante pé ante pé. pensa em como demorou lendo os livros, como o tempo passa, como fazem anos desde que tomou em suas mãos uma dessas obras modernistas, como nunca leu o famoso mrs. dalloway, ou como nunca leu o retrato do artista quando jovem – e ri por dentro quando pensa na vez em que, mesmo sem nunca ter nenhum conhecimento real sobre o conteúdo desse livro, pensou em fazer um paralelo entre seu nome e seu escritor favorito, que serviria muito bem de base de estudo para um trabalho de conclusão de curso de letras: nathan zuckerman: o retrato do artista quando jovem, analisando não apenas o primeiro trabalho do roth como zuckerman, mas os quatro primeiros, aqueles de quando roth já não era tão jovem assim e decidiu contar uma história que não era sua, apesar de ser tão parecida. então lembrou-se do filme que tem a senhora dalloway, sua escritora suicida e uma de suas leitoras. então ficou curioso. os fones de ouvido agora falam sobre um piloto automático sem controle. pé ante pé ante pé ante pé. então pensou em como estava calor, o suor lhe brotava nas têmporas e escorria por seu rosto. pensava no que levava as pessoas a saírem de suas casas, pensava no que o fez sair do conforto do lar, pegar um ônibus, um metrô, outro metrô, mais um ônibus, cruzar uma ponte a pé, ver os pescadores, o rio sob seus pés, correndo como o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, como diz o raduan nassar, o tempo que pára ao redor das pessoas, que não existe em certos momentos, que voa em outros, o tempo que faz com que o agora não seja mais nada no momento em que se vai, o tempo que arrasta atrás de si nossa vida e nos aproxima tanto da maior certeza da vida, o tempo que traz a vida como o rio que traz o sustento do homem que sua pelo pão, que sua por nada, que sua pé ante pé ante pé ante pé com uma sandália na calçada que já teve tantos pés, no caminho que já levou a tantos lugares e que agora ele toma para ir aonde quer ir. pé ante pé ante pé ante pé atravessa a rua depois de ver os carros passarem, depois de esperar as pessoas indo atrás de vidros, de ferragens, indo com os motores iguais, indo seguindo os padrões, seguindo a três, quatro mil rotações por minuto, enquanto ele segue pé ante pé ante pé ante pé. talvez não seja necessário seguir adiante, ele pensa, talvez tudo o que eu precise seja voltar e ficar em casa, parado, talvez o melhor não seja continuar até lá, onde vou ver os livros do mundo inteiro, os livros que eu quero e nunca terei, os livros que não quero e nunca lerei, onde terei todos os meus sonhos detonados pela minha capacidade financeira e pelo tempo que nunca terei para ler tudo o que sonhei. pé ante pé ante pé ante pé. ele pensa em tudo isso enquanto a porta à sua frente se abre sozinha; pensa em tudo isso enquanto seus fones cantam para ele, bem no ouvido, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos; pensa em tudo isso enquanto um casal sai porta afora, braços dados, sorrisos no rosto, uma alegria que somente casais conseguem ter e que ele inveja todas as vezes que está sozinho, porque sempre que está sozinho não se lembra do calor de um corpo ao seu lado, da mão entrelaçada à sua, não pensa nos beijos dados, mas se recorda bem de cada beijo negado e de cada vez que procurou pela mão e não a encontrou, das muitas vezes em que o corpo ao lado não estava mais ao lado, sumido no meio da noite, recolhido em um canto distante, se apertando para não estar ali com ele, evitando-o completamente. pé ante pé ante pé ante pé. o vento frio que vem de dentro sopra seu rosto e traz alívio, suas mãos passam pelo rosto enxugando os focos de suor, os livros ao redor estão organizados de forma com que o que vê agora são os lançamentos, as coisas mais novas do mundo das folhas de papel impressas. as pessoas folheiam e folheiam, ele consegue ouvir o toque dos dedos passeando pelas milhares de letras negras, sentindo sua textura, seu conteúdo; consegue sentir os olhos se movendo e absorvendo cada uma das palavras, sorvendo o conhecimento, os estilos, dos piores aos melhores, dos clássicos do século IV antes de cristo ao mais moderno e terrível best seller. as pessoas ao redor procuram o que ele procura: algo que as faça sentir. mas nem todas sentem com as mesmas coisas que ele busca, assim como o contrário é verdadeiro. pé ante pé ante pé ante pé decide dar uma olhada na estante de sempre, onde sabe que ele estará, onde o encontrará e o folheará, e se sentirá bem por saber que existe uma obra, um escritor, uma pessoa, que ele se identifique tanto. pessoas passam às suas costas, a música canta que seu orgulho não vale nada! nada! o livro que segura em suas mãos diz

“Ora, sou muito vulnerável à beleza feminina, como você sabe. Todo mundo se torna indefeso diante de alguma coisa, e no meu caso é isso. Diante de uma mulher bonita, não enxergo mais nada. Logo na primeira aula descubro quase imediatamente qual daquelas garotas é a minha. Mark Twain tem uma história em que ele foge de um touro e sobe numa árvore, e o touro olha para ele e pensa: “O senhor é a minha refeição”. Pois bem, leia-se “a senhorita” em vez de “o senhor”, e é isso que eu penso quando vejo as garotas na sala de aula.”

e ele pensa nas garotas da sua vida, naquelas que passaram, naquelas que virão, naquela que está tão perto dele que é quase dentro, quase uma parte dele, e, ao mesmo tempo, parece tão, mas tão longe, tão distante. um homem se aproxima dele, pega um livro na estante e sai para checar o preço numa das máquinas da loja. pensa em seu rosto corado e em seus dentes brancos e em seu nariz pequeno e lembra das várias vezes em que a viu. lembra, então de uma vez que a viu entrar na sala, vinda do quarto, com seu andar casual, desleixada, o cabelo solto nas costas, ainda úmido do banho, usando um vestido cuja estampa eram pequenas flores vermelhas. pensou nas sensações que ela causava. pessoas riam perto dele, três pessoas, como pôde ver através das prateleiras. pensou em como ele pensou da primeira vez que a viu que ela seria a refeição dele. pensou em como tantas vezes jantou com ela fora de casa, as comidas não saudáveis, em quantas vezes a recebeu em casa para dividir de sua comida. uma funcionária da loja pede licença a ele para poder guardar um volume. sente pela última vez a textura da página aberta, fecha o livro e o guarda. pé ante pé ante pé ante pé vai até a área de música, para agradar uma das mulheres de sua vida. pensa em como agradá-la, em como fazer com que ela se sinta bem, em como demonstrar, sem precisar se expor demais, que ele a ama o suficiente para se importar com seu bem estar. o fone de ouvido diz que é humano e precisa ser amado, como todo mundo. pé ante pé ante pé ante pé chega a sessão de música brasileira, olha também os italianos, os americanos, as novidades do mundo fonográfico, procura clássicos no meio de grupos que nunca ouviu falar, encontra as cantoras que choraram por homens e fizeram os homens chorar por elas, encontrou berço do rock, viu também ali seu crescimento e desenvolvimento, viu seus primeiros passos, suas quedas, seus triunfos. pé ante pé ante pé ante pé chegou ao disco escolhido. um dos cantores favoritos dela, uma colecionadora, uma antiquada, uma semianalógica no mundo digital. pé ante pé ante pé ante pé foi ao caixa. o lugar estava cheio, mas a fila não era grande, apenas uma pessoa estava na sua frente. ao seu lado, uma coluna de livros em promoção. deu uma olhada rápida e viu alguns títulos clássicos, madame bovary, moby dick, mrs. dalloway. foi então que encarou bem esse livro e pensou que estava na hora, talvez, finalmente, de ler aquela obra tão comentada. colocou-a debaixo do braço. a pessoa à sua frente era uma senhora de cerca de cinquenta anos, era magra e tinha o cabelo castanho e volumoso, carregava uma bolsa de fibra sob o braço e pagava com cartão de crédito os dois livros que estavam no balcão do caixa. a atendente devia ter uns vinte e três anos, provavelmente uma estudante universitária. imagina qual curso ela faz, o que ela gosta, se ela já gastou seu salário no lugar onde trabalha ou se ela não caga onde ela come, como diz a expressão. imagina ela recém saída do banho, no quarto do computador, os cabelos ainda molhados, usando uma roupa de ficar em casa, um shorts velho, leve, uma camiseta branca sem mangas; uma música suave vem das caixas de som do seu computador que está ligado, ela diz para chegar um pouco mais perto e ouvir o que tem a dizer. ela está sentada de costas para o computador. em suas mãos um livro cujas folhas têm as pontas dobradas e as páginas rabiscadas. seus óculos de aro grosso estão na ponta do nariz, e ela tem um lápis na mão direita. de tempos em tempos grifa algumas frases, circula alguma palavra, marca um parágrafo. ele a imagina concentrada em sua leitura, rabiscando, anotando, marcando, todas as coisas que ele nunca teve coragem de fazer com seus livros. é sua vez no caixa. ele olha para a moça nos olhos, ela o encara de volta e pergunta qual a forma de pagamento. ele responde que à vista, dinheiro. os olhos castanhos dela o fazem pensar em como são raros os olhos verdes que ele tanto gosta de encarar. paga. pé ante pé ante pé ante pé vai embora. na sacola mrs. dalloway iria comprar as flores ela mesma.

(o trecho em itálico é da obra Animal Agonizante, do escritor americano Philip Roth e foi retirado daqui )

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maçã.

“você é como maçã, quanto mais como, mais vontade de comer eu sinto.” estava deitado, a cabeça sobre o ventre branco e globoso dela, os corpos suados escondiam-se em parte nos lençóis bagunçados sobre a cama.
ela riu e ele a encarou. sentia-se bem por tê-la feito expor seus belos dentes. acredita ser uma das maiores recompensas que ela poderia lhe dar. seu sorriso é o presente que ele adora receber. acha tão natural, tão espontâneo; além de o fazer ter vontades que acreditava nunca ser capaz de sentir. ao vê-la contraindo os músculos responsáveis pelo riso, o zigomático maior tracionando sua boca, num ângulo lindo e simples, como, acredita ele, somente o dela consegue ser, poderia admitir que, pela duração do sorriso dela, o mundo é um lugar bom, justo e belo.
ela se lembra do começo da noite, quando tudo estava calmo, quando ele não estava ali, quando seu corpo repousava tranquilamente na cama ainda arrumada, com o lençol apenas levemente amassado pelo seu peso; pensa no livro que estava lendo – aquele mesmo livro de dois meses atrás – e que deixou ao lado da cama com o falho intuito de, toda noite, ler um pouco antes de dormir; pensa na feira que precisa fazer, mas que está sem dinheiro, e nas arrumações que a casa precisa, as faxinas, as lavagens de pratos sujos, as roupas para tirar da máquina de lavar, para passar, para pendurar no guarda roupas; pensa no tempo que precisa para todas essas coisas. pensa em tudo isso enquanto olha para ele, tudo o que vem à sua mente é: como ele consegue fazê-la perder seu tempo? como ele consegue fazer aquilo? como é que ele faz para tirar dela todos os pensamentos, todas as vontades, restando apenas aquela submissão, aquela quase falta de amor próprio, aquela devoção àquele homem que ela juraria querer tudo, menos amá-lo?
ele acredita estar amando. amando de uma forma tão intensa como nunca pensou que pudesse fazer. tivera esse tipo de pensamentos com outras, como é natural a um homem da sua idade, mas é que agora, ao pensar em tudo o que viera antes dela, percebe que uma névoa pairava ao seu redor, turvando sua visão do mundo. agora acredita que pode ver tudo claramente – mal sabe ele que o amor é a constante turvação. focamos nele e tudo ao redor é fosco, sem brilho, turvo, apagado, meras formas que, por mais tentadoras e sensuais que pareçam, não passam de formas que não prometem nada.
ele tem a ilusão de ser amado. é provável que carregue consigo esse pensamento porque seu objeto de amor, ela, deitada ao seu lado na cama, não fala nada que negue esse pensamento. não se pode saber muito sobre ela, é o que ele acha, por ela ser tão calada, tão fechada, tão introspectiva. por muito tempo, ele chegou a pensar que pessoas como ela não eram capazes de amar nada e ninguém além de si mesmos e seus infinitos dilemas que nunca levavam a lugar nenhum. por muito tempo acreditou que a falta de resolução para os conflitos internos os faziam seres egoístas, incapazes de amar. é uma idéia que ainda não descartou, mas na qual não gasta mais tanto tempo de sua vida.
ela o beija e tira a cabeça dele, que pesa bastante, do seu colo e se levanta. nua, procura sua calcinha no chão do quarto e a veste, agaixa-se e pega a camisa dele que está no chão, joga ao seu redor, se vestindo, fecha alguns botões, o suficiente para cobrir-lhe os seios fartos, e sua barriga, e fica apenas com suas pernas brancas nuas, andando para lá e para cá por um tempo, até sentar-se mais uma vez ao lado dele, que continua deitado na cama, agora com um livro em suas mãos, o mesmo que ao atendê-lo no interfone e abrir a porta foi largado lá, no chão, ao lado da cama, trocado pela noite de sexo. ele não diz nada, entretem-se com a leitura. ela também não fala. sente-se condenada a não saber o que acontece consigo mesma.
ela sai do quarto e ele larga os olhos do livro e acompanha seu movimento, aguça bem os ouvidos e consegue escutá-la na cozinha, mechendo em alguns pratos, abrindo a torneira, lavando algum copo, talvez? algum prato? ouve o som de panelas se chocando. será que ela vai cozinhar? se sente impelido a largar o livro, vestir sua cueca, sua calça e ir até ela, encontrá-la à beira do fogão, cozinhando para eles uma refeição pós sexo. consegue se imaginar com ela, os dois sentados à mesa, saboreando seus pratos, macarrão com salsicha e molho de tomate, algo simples, fácil e gostoso; consegue vê-la do outro lado da mesa e sentir os dedos de seus pés frios tocando o pés pequenos e quentes que ela tem. ele consegue imaginar tudo isso e acha tudo tão bom. ele fecha o livro, veste a cueca, a calça e sai do quarto em silêncio, pronto para vê-la na cozinha como ele imaginou. ela está parada, o braço direito segurando a porta da geladeira, que está aberta, enquanto apoia seu corpo com o braço esquerdo contra a porta do congelador. ela encara o conteúdo da geladeira e, quando ele chega à cozinha, ela desvia o olhar para ele, parecendo confusa. ela sorri.
“estou vendo o que tem pra comer.” ela diz.
“está bem.” ele responde.
ela se sente incomodada por tê-lo ali parado na porta da sua cozinha encarando-a como se ela fosse sempre passível à análise. era isso, ela pensou, era isso! ele sempre a olhava como se estivesse tentando conhecê-la mais do que ela mesma. ela poderia jurar que ele tenta a ler como se fosse um dos livros que ele sempre carrega. sente-se mal,  confusa, na verdade, não sabe bem o que fazer. pega um recipiente da geladeira, abre e encontra verduras com maionese que preparou há dois dias, o cheira e não acha que está estragado. levanta o recipiente para mostrar a ele.
“uma maionesezinha?” ela diz sorrindo, tentando ser agradável.
“não, obrigado.” ele responde da porta, sem se mover. os braços cruzados, as pernas abertas, o torso nu. ela o acha bonito à sua maneira, mas sempre se vê pensando em como foi que eles começaram tudo aquilo.
ele a acha linda e se sente um homem de sorte por estar ali, assistindo àquele momento em que ela escolhe a comida que quer forrar seu estômago.
“tem também um arroz aqui na geladeira, e a maionese tem peito de frango desfiado. dá pra nós dois, você quer?” ela insiste na comida.
ele se aproxima das costas dela, passa seus braços por sua cintura, sente seu calor, sua maciez, coloca o queixo no ombro esquerdo dela, sente o cheiro do seu cabelo, do seu suor do sexo. ele aproxima seu corpo todo do dela e beija seu pescoço, morde o lóbulo de sua orelha direita, ela geme baixinho e ele sente seu pau endurecer contra ela.
“você tem maçã aí?”

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