Ele.

ele, na frente dela, olho no olho, tudo pronto para a hora certa de dizer as coisas que devem ser ditas depois de tanto tempo sendo preparadas, plantadas, fertilizadas, floridas, prontas para a colheita, pronta para frutificar – ou não. ele na frente dela sendo a única coisa que ele não devia ser naquele momento, mas tem que ser porque se não for, nunca será. ele sendo ele próprio, inspirando e expirando, procurando com o canto do olho algum lugar onde sua coragem tenha se escondido. ele: mãos suadas, mãos trêmulas, mãos frias, mãos roídas,  mão desajeitadamente de dedos tronchos, dedos grossos, dedos curtos, mãos grandes segurando os finos dedos da mão quente dela. ele: suando bicas, gagejando, chegando com um papel debaixo do braço, um olhar triste de quem sabe que algo ruim vai acontecer. ele que se preparou tanto para aquele momento esá agora amedrontado. ele que treinou mentalmente aquilo desde o dia em que resolveu que aquele seria o dia em que diria tudo o que tinha que dizer porque certas coisas deveriam ser ditas, certas coisas deveriam ser esclarecidas e porque ele não agüentava mais viver na eterna dúvida, quase certeza, do não. ele que não queria mais viver na esperança falsa do impossível sim. ele que, enterrado em pessimismo, tornou-se o homem mais realista que já havia pisado naquela terra. ele que achava que não devia ser chamado de homem porque sentia-se um menino de 12 anos falando para a garota da escola que é apaixonado por ela. ele que entendia músicas agora, que sabia o que palavras que antes eram idiotas queriam dizer. ele que pedia para seu coração não bater tão rápido, que pedia para sua cabeça não doer tanto.

ele que disse que amava e queria que ela o amasse tanto quanto ele. ele que tinha tanta certeza do não que nunca parou para pensar no sim. ele que desejava tanto aquele sim, mas nunca pensou o que faria se ele viesse. ele que sonhava noites e noites que o sim significaria algo realmente grande para si, que mudaria a sua vida. ele que passava as outras noites e noites em branco pensando em como seria bom um sim. e nesses sonhos, nesses pensamentos, nunca havia visualisado nada real. ou era sonho ou utopia. o mundo sempre era lindo e colorido. ele que sabia que a vida era preto e branco não estava preparado para o sim.

ele que temia tanto o não que tremia enquanto dizia cada uma das palavras. ele que repetia palavras para enfatizar coisas que ninguém mais enfatizaria. ele que estava ali agora, depois da noite em claro, olhos vermelhos, profundos, debaixo de seus óculos de muitos graus. ele que parava palavras no meio para respirar e piscava e inspirava e engrolava a língua. ele que repetia coisas. ele que repetia coisas. ele que repetia coisas. ele que tinha as pernas moles, que tinha as pernas fracas, que tinha as pernas paralisadas. ele que estava em pé há pouco e agora estava sentado olhando nos olhos dela que sentava do outro lado da sala e ouvia tudo o que havia para ser ouvido, ou seja, tudo o que ele achava que havia para ser tudo. ele que não se sentia confortável em posição nenhuma. ele que jogou tudo o que havia para jogar naquele jogo e que no fim resolveu que era hora de fazer sua aposta final e, ou recolher o lucro, ou sair do jogo. ele jogou sua última carta e disse o que tantos outros disseram para ela, o que outros tantos dizem todo dia como quem diz um bom dia, o que poucos verdadeiramente sabem o que significa (e ele sabia, ah como sabia. ele sofria tanto por saber). ele que estava enlouquecendo aos poucos antes de tudo aquilo agora tinha certeza de que depois dali iria direto para a casa de repouso. ele que uma hora teria que terminar de dizer tudo o que queria dizer e entregar a carta dizendo: “caso não tenha ficado claro, eu escrevi um pouco do que eu sinto por você.” ele que era esquisito. ele que sabia o papel de ridículo que estava passando. ele que queria uma resposta simples: sim ou não. ele que não queria explicações. ele que não queria porquês. ele que recebeu tudo o que não queria. ele que ouviu o que tanto temia mas já via.

ele que ficou um pouco relaxado depois do não.

ele que sabia conviver com nãos.

ele que sou eu.

ele que somos nós.

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6 respostas para Ele.

  1. Mina disse:

    Como uma bofetada.

  2. nelson disse:

    a negação é a alma do romantismo cara.

    força e honra.

  3. nelson disse:

    “ele que repetia coisas. ele que repetia coisas. ele que repetia coisas.”

    sempre igual.

  4. carol disse:

    ‘ele que somos nós.’ é.. me vi em várias partes
    er.. adorei tudo, principalmente os detalhes

    beijos primo

  5. Lah Leite disse:

    aah, sim.
    ele é sensato, apesar de tudo. falar não é fácil, e por isso eu amo tanto os papéis. e a internet, amada internet que me tirou até os lápis, os amados lápis.

    bjoos, pv!
    =***

  6. Tatii disse:

    =(
    texto ótimo, mais triste né.
    ele que sabia que a vida era preto e branco não estava preparado para o sim.
    ai isso é tão a minha cara 😡
    sem mais comentários

    =***.

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