O pôr do sol.

encostado em uma árvore, braços cruzados, observava as crianças brincando e cantando. até que ela chegou. subia com dificuldade a ladeira. ela, linda como sempre, agora não trajava mais as roupas que ele lembrava. nada de saia estampada, camiseta branca e sandália rasteira. não. provavelmente isso fazia parte dela com ele e ela já não era daquele jeito havia um tempo. ela havia escolhido não ser. vestia negro: vestido e salto alto, que vez ou outra ficava preso entre pedras.
até que ela chegou à sua frente e ele sorriu. sorriu aquele sorriso que ele sabia que teria que vir. descruzou os braços. ele havia pensado demais em tudo aquilo. havia calculado minimamente cada passo, pensado e repensado em tudo, absolutamente tudo. e o sorriso e as palavras de boa vinda estavam ali para fazer tudo dar certo.
“minha querida raquel”
ela o encarou. séria. olhos nos olhos. o verde dos olhos dela faziam com que sua boca ficasse molhada, ansiava por aquilo. era agora, era agora.
ela reclamou de alguma coisa. ela sempre reclamava de alguma coisa. “você não está fazendo certo” “você não chegou na hora certa” “você parece uma criança” “você não é bom para mim” “você só me faz perder a paciência”. ela era especialista em reclamar.
“Vejam que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. Que idéia, Ricardo, que idéia! Tive que descer do taxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.”
abriu o sorriso. o sorriso fazia parte daquilo tudo. o sorriso era a arma fatal. ele comentou sobre a roupa que ela vestia. falou de como quando eles estavam juntos ela não se vestia tão elegante, ela não parecia se importar com todas essas futilidades e superficialidades. mas o que ele não percebeu é que todas elas dão valor a essas coisas.
e ela reclamou. mas, antes de ela terminar suas reclamações, a tomou um braço rindo. disse seu nome com um ar de: “ok, meu bem, ok.” disse a ela como ela estava linda. disse como ela não havia mudado, como ela agora tinha novos trejeitos que só exaltavam ainda mais sua beleza, disse que sentia falta do perfume dela. era hora se ser sincero, ele sabia que naquele jogo havia hora de mentiras e horas de verdades e que um bom jogador sabe a hora exata de contar a coisa certa. ele havia estudado por dias, semanas, meses até! ele poderia dar aulas de tudo aquilo. e em cada aula ele enfatizaria o uso de um artifício que serve para conquistar a confiança e deixar qualquer escudo mais fácil de se penetrar: o sorriso.
então, para variar, ela reclamou. mas, antes, acendeu um cigarro.
ele explicou a ela sobre o lugar, sobre como ali os vivos e os mortos todos desertaram, de como não havia ali nem mesmo um fantasma para contar a história do lugar. apontou para as crianças e falou de como elas brincavam entre cinzas sem saber que um dia homens e mulheres estiveram enterrados ali, onde seus belos pezinhos tocavam e se sujavam. falou que queria que ela visse uma coisa. uma última coisa, uma coisa linda. o pôr do sol.
e, antes de ela reclamar, soprou fumaça de seu cigarrinho no rosto dele. então ela sorriu e reclamou. reclamou do cemitério, reclamou dos planos, reclamou do pôr do sol, reclamou dele, reclamou do que ele fez ela passar para, no fim, fazer algo tão idiota quanto ver o pôr do sol. porque, para ela, ver uma das mais belas cenas que um homem pode ver, nada mais é do que pura idiotice.
e ele explicou, pacientemente – porque paciência faz parte do plano. ele previra cada reação dela. ele a conhecia como à palma da sua mão -, que o dali era o mais lindo do mundo, que ela nunca esqueceria, que ele estava sem dinheiro, que o lugar onde morava não era propício devido a uma velha chata e inconveniente.
e ela reclamou e disse que poderiam ter ido a um bar, bebido alguma coisa na conta dela. mas ele se recusou porque seria pago com o dinheiro dele. ele sabia que ela não trabalhava. não trabalhara um dia no ano em que os dois passaram juntos, não trabalharia agora que estava com um homem de posses.
e mais uma vez ela reclamou. e explicou que corria um risco enorme de estar ali, que seu novo homem era ciumentíssimo, que ele podia ter olhos em todo lugar, falou e falou e falou. mas ele não ouvia nada. já sabia de tudo aquilo.
então ele explicou que ele havia escolhido aquele lugar exatamente por ser ali um lugar que ninguém os veria, perfeito para aquilo que ele queria com ela, perfeito para o pôr do sol, perfeito para os dois. e ele explicava tudo isso carinhosamente, pacientemente, como se fosse para uma criança, para sua filhinha, como se ele tivesse a experiência de uma vida inteira enquanto ela estava no alto de seus poucos vinte e poucos anos. ele abriu o portão que os levaria até onde ele queria, se afastando para dar passagem para ela.
e ela, toda cheia de reclamações, falou que ia vir um enterro, e que ela não suportava enterros. mas, logo, ele explicou que não havia ninguém ali para ser enterrado, que o cemitério não recebia novos corpos há séculos e séculos.
ele deu o braço para ela, ela segurou e, juntos, seguiram por entre o mato que cobria tudo.
passaram por um anjo decepado e ela fez alguma reclamação. mas ele nem ouviu. beijou-lhe a mão.
“você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.”
e ela reclamou. falou que fez mal, que não quer arriscar a viagem ao oriente que seu homem lhe prometeu. perguntou a ele se já ouvira falar do oriente. “que tipo de ser bizarro nunca escutou falar do oriente?” ele pensou. mas logo abriu um sorriso.
“eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?”
ela encostou a cabeça em seu ombro e o chamou de tantã, como se não conseguisse entender que, para ele, o passeio de barco o marcou porque foi o dia em que ele percebeu que ela era Ela. o dia em que ele resolveu viver e respirar por ela. o dia em que ele percebeu o verdadeiro significado da palavra amor. e ele agora, ali, com a cabeça dela em seu ombro, ouvia suas reclamações. reclamava do ano que passaram juntos, do único ano da vida inteira dele que ele achou que valeu a pena. ela, agora, ria do passado, zombava da única coisa que lhe restava. ele sabia que aquilo deveria ser feito. sabia muito bem. desde o momento em que ela ligou para ele chamando-o para vê-la, desde quando ele a viu sentada naquela mesa, naquele café, com aquele olhar de…aquele olhar de…ele não sabia dizer que tipo de olhar era aquele, mas, certamente era o pior tipo de olhar que poderia existir. era o pior olhar que ela poderia ter-lhe dado. as piores palavras, as que mais doem, as palavras de despedida. dizendo que não dava mais, dizendo que não agüentava mais, que achou alguém que a amaria de verdade (como se ela soubesse o que é amor. a única coisa que ela ama é o dinheiro). e ela disse tudo aquilo enquanto tomava calmamente um café. e o café deveria ter esfriado depois daquelas palavras, o mundo congelou depois daquilo. e, desde então, ele só tem pensado nisso. na hora certa de se fazer isso. procurou lugares, um atrás do outro, visitou-os todos, até que encontrou o cemitério. até que decidiu que ali era o lugar perfeito para tudo aquilo.
ele sorriu. sorriu porque tinha que sorrir, mas por dentro não havia nada sorrindo. por dentro ele queimava, estava destruído, começava a pensar se não teria sido melhor algo simples, algo que não precisasse do contato direto com ela, mas logo recobrou-se. “não, não” pensou “tem que ser assim. uma última conversa, uma última tarde juntos”.
“é que você tinha lido A dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. e agora? que romance você está lendo agora. hem?”
era uma fuga, um jeito de fazê-la não partir mais seu coração. ela respondeu que não estava lendo nada, no momento. parou, leu um epitáfio quase apagado em uma laje despedaçada e reclamou.
ele apontou para uma laje. disse que o musgo a cobriria, depois raízes, depois folhas. disse que essa era a morte perfeita. a morte de verdade, o total esquecimento. ela, ainda descançando a cabeça em seu ombro, aconxegou-se mais. bocejou e, antes mesmo de terminar o bocejo, pôs-se a reclamar.
ele pediu para ela se acalmar, que faltava pouco até o fim, que logo logo ele estariam no ponto perfeito.
e ela reclamou.
ele explicou de como havia andado por ali tanto tempo atrás, com sua prima, sua querida priminha que não era bonita mas tinha os olhos mais vivos que o mundo poderia ter visto. e os olhos vivos o amaram. foram os únicos olhos que o amaram. e falou de como a única mulher que o amou morreu, de como todas as mulheres que o amaram morreram. ela tirou o cigarro que ele fumava da boca dele e o tragou profundamente. soltou a fumaça e junto dela algumas palavras.
“eu gostei de você, Ricardo.”
“e eu te amei. e te amo ainda. percebe agora a diferença?”

e fez-se o silêncio. aquele tipo de silêncio que dura poucos segundos, mas para os dois, que se vêem, olhos nos olhos, dura uma eternidade. aqueles segundos em que tudo o que se quer fazer é pensar algo para dizer, mas nada vem, nada é certo, apropriado para quebrar o silêncio. o tipo de silêncio que um som, qualquer que seja, é tido como um imenso barulho incômodo. o tipo de silêncio que se sabe que só deve ser quebrado por algo do meio – um pássaro rompeu de uma árvore – estava feito.
ela reclamou que estava frio.
pararam diante de uma capela alta, coberta por uma trepadeira, abriu as portas de par em par. entrou no que disse ser a casa de seus mortos.
ela falou que era triste aquilo ali, perguntou há quanto tempo ele não ia ali. ele se desculpou por não estar tudo limpo do jeito que ela gostaria, mas era justamente por aquele local ser do jeito que era que ele gostava dali, por ser exatamente do jeito que era é que ele escolheu aquele lugar para que se tomasse cena o que estava por vir. avançaram ainda mais para dentro, para onde estavam as gavetas, passaram pelas portinhas e ele avançou até uma gaveta e fez como se fosse puxá-la. ela perguntou se as gavetas todas estavam cheias. ele sorriu. sorriu porque viu nela medo. explicou que as únicas cheias eram as que tinham foto e nome.
ela pediu para ir embora, mas ele avançou até um paredão, tirou uma caixa de fósforo do bolso de trás da calça e acendeu.
“a priminha Maria Emília. lembro-me até do dia em que tirou esse retrato. foi umas duas semanas antes de morrer… prendeu os cabelos com uma fita azul e vejo-a se exibir, estou bonita? estou bonita? não, não é que fosse bonita, mas os olhos…venha ver, Raquel, é impressionante como tinha olhos iguais aos seus.”
ela foi até perto para observar, cuidadosamente, para não esbarrar em nada. ela reclamou do frio.
ele acendeu um fósforo e entregou para ela, para que ela enxergasse, para que lesse o nome de sua querida priminha.
enquanto ela procurava ler o nome quase apagado na parede, ele ia saindo de perto dela. observou-a de longe até o momento em que ela viu que a data não batia. que ele não poderia tê-la conhecido. trancou uma das portas de ferro. ela foi até ele chamando-o de mentiroso, falando que aquela brincadeira não tinha graça nenhuma.
ele sorria. sorria porque finalmente via seu plano em prática. porque era agora que faria com que ela sofresse um pouco. um pouco, nunca chegaria aos pés do que ela fez para ele, mas, ainda assim, ele sabia que aquilo tudo valia a pena, que ele se sentiria completo depois de feito.
ela reclamou, subindo até onde ele estava parado, dizendo que aquilo não tinha graça. ele esperou até que ela chegasse bem perto, quase tocando o trinco de ferro para dar as voltas na tranca. deu um salto para trás, para afastar-se do alcance da ira dela e ainda assim poder olhá-la nos olhos, saborear sua angústia, sentir seu desespero.
“uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. depois, vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. você terá o pôr do sol mais belo do mundo.”
ela balançava e balançava a porta de ferro que permanecia entre os dois, separando-os.
ela olhou para a tranca, tentando arrombá-la. era nova. ele havia posto essa nova tranca havia pouco tempo, assim que decidiu que ali seria o lugar. era forte – gastou um bom dinheiro com ela, afinal, há certas coisas nessa vida que se deve gastar por – ela não conseguiria arrombá-la nunca.
era hora de parar com os sorrisos, era hora de parar de jogos. era a hora da verdade.
“boa noite, Raquel.”
ela gritou. falou que ele iria pagar por aquilo. mandou que lhe entregasse a chave que ele rodava entre os dedos. ela berrava, ordenava, pedia, implorava até a beira do choro. era isso que ele queria. era para isso que ele ficara ali, para vê-la se tornar nada, para destruí-la e sentir o prazer por isso. porque ela o destruiu e ele nunca mais conseguiria se construir da mesma forma que era. ela matou algo dentro dele. e agora ele mata tudo que havia dela. parou de girar a chave, guardou-a no bolço da calça e foi fazendo o caminho de volta. por um tempo, tudo o que se ouviu foram seus passos movendo pedrinhas no chão, amassando folhas. até que um grito desumano fez-se ouvir acima de tudo.
por um tempo os gritos continuaram audíveis, mas, a cada passo dado se tornava mais distante, até que chegaria o ponto em que ninguém mais ouviria os gritos. e era por isso que ali era o lugar escolhido, o lugar perfeito. era por não haver ninguém que se aproximasse tanto daquele lugar, nem as crianças que brincavam de ciranda, nem curiosos procurando lugares para explorar. nem ele mesmo sabia como descobriu aquele lugar. pura sorte.
acendeu um cigarro. fez o caminho até a entrada do cemitério com um sorriso bobo no rosto que lhe esticava os lábios sobre os dentes e lhe puxava os olhos, reduzindo-os a dois pontinhos brilhantes. olhou para o sol descendo no horizonte, soltou a fumaça quente. trancou o portão do cemitério sentindo algo que pensou não ser capaz de sentir novamente: uma imensa paz de espírito.

Obs.: As partes em itálico, assim como as personagens e a situação em que se encontram, foram extraídas do conto “Venha Ver o Pôr do Sol”, de Lygia Fagundes Telles. Aí você me fala: “mas…paraí…personagens, situação…até mesmo trechos copiados e colados! Ora, mas que ladrãozinho!”. Quero deixar claro que a idéia do conto não é plagiar o texto da autora, mas fazê-lo do ponto de vista de um narrador que sabe o que se passa na cabeça do personagem que planejou a ida ao cemitério. Se você ler o conto original e depois ler o meu, você verá que “é igual, mas diferente.”

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3 respostas para O pôr do sol.

  1. lnatesta disse:

    Mermããão!!! Que maldade!!!! Porra!!!! Eu não perdoaria nunca!!!!

    Essa raquel tem que morrer.

  2. carol disse:

    que legal!
    no primeiro paragrafo, achei que vc tava falando de um casal de velhinhos. depois fui lendo e vi já que tinha lindo aquela história! aí vi sua explicação no final : ]
    gostei do conto com os seus detalhes!

    beijos primo!

  3. nelson disse:

    raquel tem q morrer. [2]

    igual mas diferente.

    ficou foida!

    maniaco mesmo!
    força e honra man!

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