Ato final.

“eu não queria te ferir. eu não queria que nada disso acontecesse” ele disse enquanto caminhava na direção dela. “eu não queria que fosse desse jeito. mas, aparentemente eu não tinha querer. você é quem mandava em tudo tão brilhantemente. a maestra dessa grande ópera. a diretora dessa tristemente hilária tregicomédia. era você quem tinha tudo sob controle.” ele disse olhando para ela e vendo o medo estampado em seus olhos. “até que eu, já fora da vida, em Hades, me vejo inquieto com a eternidade de pensamentos à minha frente. eu, que era contido pelos fios que você controlava tão perfeitamente com sua habilidade de mestre dos bonecos, quando me vi sem tuas mãos para me guiar, perdi o controle. foi ali, entre um pensamento de desesperança e um de desespero que percebi que fui jogado de lado, abandonado, retirado de cena, antes mesmo do meu fim, do grand finale.” ele se aproximava mais e mais. atrás dela havia a parede que ele esperava encontrar, não deveria haver espaços entre os dois. não mais que o suficiente para que ela o visse no fundo dos olhos, para que a alma dela visse as coisas que fez a ele. “olha só…” disse ele olhando para os lados e abrindo os braços como quem dizia que não havia mais ninguém além dos dois “não há mais ninguém aqui que não seja nós dois. e eu te conheço, cada canto do teu corpo. e você me conhece, cada canto do meu corpo.” e ele falava isso perto dela, olho no olho, ela sentia o hálito quente dele, ouvia a respiração firme dele, sentia o ódio em cada palavra, a acidez do ódio que só se encontra em ex amores, se é que isso existia. “estou aqui hoje para minha última cena que é, na verdade, nosso último ato. depois disso não há mais isso ou aquilo. depois disso é o fim. as cortinas se fecham e…quer saber…não haverão aplausos. não vai ter ninguém na platéia assistindo a tudo o que deveriam assistir. é assim que vai ser nosso fim. só nós dois. nós dois sós, de alma nua, frente a frente, e você pede perdão e me jura amor. jura amor porque você pensa que é o que quero.” e ele ri. ri alto. ri loucamente, gargalha até ficar sem ar. rosto para cima, um momento sem encará-la. e ela pensa que ele tem medo. ela pensa que ele vai deixar tudo aquilo de lado e simplesmente pedir desculpas por tudo aquilo, todo o susto que causou. mas ela está terrivelmente enganada. a risada foi algo que ele não pode conter. “estaremos os dois juntos, você sabe. juntos para sempre e sempre. porque eu gosto da idéia de para sempre com você. porque eu estive nos piores lugares que jamais poderias imaginar e voltei aqui, só para te levar comigo para lá.” abraçou-a. seus braços fortes apertaram forte, sentiu que algumas costelas foram quebradas então jogou-a fortemente contra a parede e beijou-a longamente. ela tentava resistir, tentava esquecer a dor. mas ele, segurando-a pelo pescoço enquanto passeava com sua língua em sua boca não a deixava soltar-se. foi assim até o fim. até que ela parou de se mexer. até que ele deixou o beijo de lado com um sorriso. até que o corpo dela caiu para o lado e ele a acomodou no colo e alisou seus cabelos. até que a polícia chegou depois que foi chamada por alguém que viu ao longe um homem e uma mulher num beco. a mulher contra a parede, o homem segurando o pescoço dela. até que estavam os dois mortos no corpo e na alma. por toda a idéia de eternidade que há.

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Uma resposta para Ato final.

  1. nelson disse:

    ficou foda man!
    achei o cara meio fresco…
    mas ficou foda!

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