O para sempre…

era quente. era quente a mão dela. quente como um verão na praia. quente como a tarde que passaram juntos olhando a vida acontecer. quente como a língua dela passeando na boca dele.  e era por ela, pela mão que parecia a o sol depois de um dia chuvoso, que ele a puxava. apertava-a fortemente, como se tivesse medo de que ela fosse escorregar por entre seus dedos e que fosse perdê-la para sempre se não segurasse forte. os dedos finos e delicados dela se uniam, quase sendo um só. fazendo com que nem se notasse que eram bem tratados toda quinta feira à tarde.

mas não era quinta feira. e a tarde já havia ido embora. agora a lua brilhava amarelada. as estrelas mostravam seus retratos de anos e anos e anos. não estava frio, mas também não estava quente. era uma noite comum para todos os outros que não estivessem prestes a falar do para sempre. e até para quem estava prestes a fazê-lo também tomaria essa noite como comum. não havia nada para diferenciá-la de todas as outras coisas. exceto por eles dois ali, andando quase correndo em direção a algum lugar que ambos não sabiam onde. até que ele parou de andar de frente ao mar. puxou-a para perto de si, tomou lugar atrás dela e segurou-a pela cintura colocando sua cabeça sobre o ombro dela. apontou.

“olhe ali aquela estrela.”

“qual?”

“qualquer uma. olhou?”

“olhei.” disse num tom impaciente.

“olhe de verdade. olhe para qualquer estrela, mas olhe. veja!”

“estou vendo!”

“pois bem… quanto tempo você acha que essa estrela tem?”

“muito tempo…até a luz chegar aqui…”

“exato, exato. muito tempo. mas esse tempo de vida da estrela é finito, não é? uma hora ela deixará de jogar a luz até a gente e alguém vai notar. não a gente. não acho que estaremos aqui, nossos corpos e almas. nós só seremos pó. mas alguém vai notar. alguém tem de notar, não é?”

“deve ser…”

“sim…alguém há de notar.”

“e onde você quer chegar com isso? você quer me dizer que para sempre são as estrelas do céu? que para sempre é extremamente relativo? você quer que eu acredite nesse para sempre?”

“eu quero que você acredite no único para sempre que existe. no para sempre que a gente faz. você lembra de quando estávamos começando? lembra que um dia marcamos nossos nomes no cimento? o cimento endureceu e nossos nomes estão lá. aquilo é para sempre. nossos nomes estão naquele momento eterno. ele se repetirá para sempre enquanto existir cimento, enquanto existir um eu e um você, e esse é o momento mais comum de todos. o tempo… o tempo não pode ser uma reta. ele pode ser para mim e para você e para nós todos. mas ele não é uma reta. só não aprendemos como são suas curvas.”

“do que você está falando, homem de deus?”

“deus. para ele, se ele existisse, o tempo seria por onde ele andaria. o tempo é uma grande estrada na qual todos nós trafegamos. só que ela está engarrafada. todos em linha reta. nas duas mãos. o para sempre é o caminho por fora da estrada. o para sempre é a contra mão. o para sempre é o código que a gente usa para trapacear nos jogos de videogame.”

“meu bem… você está bem?”

“não. não estou bem porque você disse que me odiava. e isso ficou para sempre. ainda estou ouvindo que você me odeia.”

“e foi só uma brincadeira. e quanto a todas as vezes que eu disse que te amava?”

“viu só? amava!”

“…idiota. amo. amo amo.”

“não… você só quer acabar com a discussão. você só quer dizer que o seu amor é muito mais forte que o seu ódio. não. ódio… ódio é forte. é mais forte que amor. ódio é algo que eu nunca senti. ódio é forte demais para os corações não se machucarem ao senti-lo. eu não quero o seu coração machucado com o ódio. eu não quero você machucada de jeito nenhum. porque eu te amo… eu te amo para sempre. ontem, hoje e amanhã. porque é tudo o que existe: o ontem, o hoje e o amanhã. você entende isso? entende o que quero dizer?”

“acho que sim…”

“eu quero dizer que o para sempre…o para sempre existe sim. até que deixe de existir formas de se trafegar na estrada do tempo… (porque coisas podem existir e depois deixar de existir, tudo pode, pessoas, roupas, animais…) até que um dia a estrada se apague e os carros nela evaporem e todos os motoristas sumam e uma porta seja fechada e nada mais exista, nem o nada e nem o vazio. quando não houver vida e nem morte…  aí sim para sempre terá cessado sua existência. aí sim tudo o que há será o inimaginável e o inexitstente. mas até lá, eu te amo para sempre.”

“…” ela baixa os olhos.

“…” ele beija o pescoço dela, sussurra no ouvido “eu te amo.”

ela se vira para ele. olha-o bem fundo nos olhos. os olhos negros como o vazio, cheios do calor da vida. e ela fala com uma voz rouca, trêmula, cheia de lágrimas contidas.

“eu nunca mais vou brincar com você.”

e ele sorri. e ela sorri. e tudo termina bem.

e foram felizes para sempre.

(porque o para sempre existe)

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4 respostas para O para sempre…

  1. Tatii disse:

    ah que bunito :}
    gostei.

    mas mas, nao tem como separar odio de amor, sao duas coisas praticamente coladas com cola super bonde uma na outra. se vc tiver um, vai ter o outro de alguma forma. é como eu vejo.

    =*

  2. Lah Leite disse:

    bem, já sei pq eu n acredito no para sempre: não tenho meu nome gravado em lugar nenhum.

    mas sendo o para sempre relativo, é bom que ele exista para outros, e talvez exista tambem para mim um dia, ou não.

    mas eu amei o texto, de qlqr forma =)

    =***

  3. carol disse:

    gostei muito! ; ]
    eu já tá ficando com raiva da confusão que ele tava fazendo por uma brincadeira ;X

    er.. eu não acredito no pra sempre, nada ainda me fez acreditar nele. mas é como a Lah disse aí, ‘é bom que ele exista para outros, e talvez exista tambem para mim um dia, ou não.’

    beijos primo!

  4. nelsonnetto disse:

    “o ódio é uma forma de amar.”

    nem me lembro onde vi isso…

    mas enfim, enquanto houver o hoje, existe o sempre.

    e tem coisas que um homem acredita que pode fazer durar pra sempre.

    ficou muito foda, man!

    força e honra!

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