Das pessoas e coisas.

os segundos, os minutos, as horas, todos passam às dúzias e eu aqui, parado, estagnado no momento em que eu tentei me mover. eu não consigo, não consigo achar a vontade – aquela que todos têm de mudar as coisas, de revolucionar o mundo, de fazer alguma coisa pelos outros ou por si mesmo. há tempos não sinto vontade de mudar nada. conformo-me com as coisas do jeito que elas são. se está ruim está ruim. não se pode mudar o fato de estar ruim, até que fique bom estará ruim. não há meio termos. não há meio bom meio ruim. não há coisas que oscilam entre bondade e maldade assim. só as pessoas fazem isso. e fazem isso de uma forma que, no fim, com um pouco de paciência e matemática, poder-se-ia calcular tudo e dizer se ela era boa ou ruim.

não, não é nada disso. não há bem ou mal.

carros e carros e ônibus e motos passam e buzinam e fazem mais barulho do que deveriam. eles estão lá fora para ajudar quem está lá fora. eles estão lá fora para irritar quem está aqui dentro. mas não são eles quem irritam, não são carros que se buzinam, não é mesmo? o problema de tudo, afinal, sempre foram as pessoas. (isso está certo? sempre foram as pessoas? ou sempre foi as pessoas, concordando com o problema?) as pessoas… tem quem diga que gosta delas, mas elas não conhecem todas, não conhecem o motorista que está buzinando o ônibus, ou o caminhoneiro que passou por cima de todas as galinhas de alguém. a verdade é que ninguém conhece ninguém. por mais que ache que se conheça alguém.

a verdade mesmo é que eu não sei do que estou falando. e não quero saber. tudo o que eu procuro são fugas. fugas de mim mesmo, porque ser cansa. eu lembro do dia em que eu percebi que nunca na minha vida eu seria outra pessoa. eu senti uma imensa tristeza, um vazio enorme. não que ser eu seja ruim, mas é que ser uma pessoa só é limitar demais seus pontos de vista. é limitar demais todos os pensamentos que poderíamos ter. quando penso nisso, nos pensamentos que poderíamos ter, nas impressões que guardaríamos se pudéssemos ser outras pessoas ao longo da vida, mudando de pele, de roupa, de olhos, de órgãos internos e externos, crescendo cabelo, cortando cabelo, perdendo peito, barriga, bunda, ganhando pêlos, perdendo pêlos. vendo pessoas.

a maior forma de se conhecer pessoas não é sendo uma pessoa. é claro que isso colabora, mas, como já foi dito, só seremos uma pessoa pelo resto de nossas vidas, isso limita muito o nosso conhecimento de pessoas. pessoas pessoas pessoas. (porque escrever tantas pessoas num só parágrafo me lembra das minhas aulas de redação e o medo constante de ter uma redação completamente anulada só pelo uso de pessoas, e agora estou aqui, usando pessoas) não, o melhor jeito de conhecer pessoas não é sendo uma pessoa, mas observando várias pessoas.

acho o ser humano o animal mais fantástico de se observar. e tudo isso devido ao dom da consciência. os outros animais são guiados pelo instinto, a vontade de sobreviver. o homem foi amaldiçoado com a razão. e ele se acha especial por causa disso. é interessante assistir à interação social do homo sapiens. para mim, é sempre um programa divertido. mas por mais que observemos, por mais que anotemos seu comportamento, que observemos os padrões que existem e os assemelham aos de quaisquer outros animais, nunca conheceremos o homem.

conhecer o homem vai muito além de simplesmente entender fisiologia e anatomia e psicologia. conhecer o homem vai além de observar seus comportamentos. e vai ainda além de tentar unir tudo isso. claro, o homem não passa de vazio, assim como todo o resto das coisas, mas esse é um vazio intrigante, um vazio cheio de coisas. coisas desconhecidas, coisas inintendíveis, coisas coisas coisas. (coisa também era um dos motivos de eu temer as notas de redação. nunca sabia quantas coisas havia usado e quantas coisas foram cortadas.)

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3 respostas para Das pessoas e coisas.

  1. Lah Leite disse:

    é que o osvaldo era mau.

    e cara, enquanto eu lia o texto eu pensava em um monte de comentarios fodasticos q eu podia fazer, mas ele eh grande, minha memoria é pequena, e eu não lembro da maioria das coisas fodasticas.

    concordo com a parada do vazio. e eu acho que eh justamente por sermos tao vazios que vivemos em busca de algo que nos preencha de alguma forma, ou pelo menos algo que finja que preencha, que nos faça pensar que preenche algo.

    quanto ao ser somente uma pessoa, eu tenho que discordar. não me considero uma só, ainda que isso pareça no minimo doentio. me considero várias, de certa forma aprisionada em uma só forma externa, visivel, mas várias. isso me faz sentir melhor quando vejo uma merda que eu faço; foi só uma parte de mim.

    ainda que muitos digam que SdA é cultura inutil, Bilbo Bolseiro disse com saberoria: “Eu não conheço metade de vocês como gostaria; e gosto de menos da metade de vocês
    a metade do que vocês merecem…” e eu acho isso lindo =D

    =***

  2. carol disse:

    ‘porque ser cansa’ e como cansa.. tem hora que dá vontade de fugir meesmo

    esse texto falou de várias coisas, me fez pensar bastante, mas nada que dê pra escrever
    hehehe ;P

    mais um pro rol dos preferidos ;D

    beijos primo!

  3. nelsonnetto disse:

    mermão!

    o texto caminha com passos fodásticos!

    a sequencia dos paragrafos é foda!
    e a figura constante do osvaldo nos seus textos é mto resenha véi!
    vc deveria escrever um livro com o osvaldo como personagem! ou narrador! ou os dois!

    força e honra!

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