"Assim não vale porque dói"

ela dizia, falava tanto, que eu era rude, grosso, criticava tudo o que eu fazia. e ela gostava de tudo isso. da minha tal grosseiria, do meu modo rude. ela tinha gostos estranhos, aquela mulher, gostava dos tapas, dos xingamentos, gostava do estrago. e ria, lindamente, ria como uma louca sempre que realizávamos uma de suas vontades. “assim não vale porque dói” ela dizia para rir da minha cara de: desculpe-me, não era para ter sido tão forte. ela era uma verdadeira maluca. mas era uma deusa. uma deusa mesmo. não dessas que você vê na rua rebolando suas bundas maravilhosas e você chama de minha deusa. não, nada disso. ela havia saído, de fato, de um panteão, caído na terra por acidente e me encontrado numa noite escura onde as luzes se escondiam porque sabiam que havia algo errado no ar.

e ela viveu comigo. vivia comigo, reclamando dos meus jeitos, das minhas manias, reclamando do modo como eu encarava as coisas, ela, sendo um poço de otimismo e vindo de um lugar onde deuses eram reais, não aceitava que eu dissesse que ninguém ouvirá as preces de ninguém, que ninguém vai descer do céu pronto para nos salvar. ela me chamava de imbecil por dizer isso acreditando que ela era uma deusa. e, pensando bem, ela tinha razão, eu era mesmo um imbecil por acreditar tanto nela. às vezes eu brincava com o fato. dizia a ela que ela não existia. que eu era um esquizofrênico e que ela era minha grande fantasia, que tudo o que ela era, ela era por minha causa. que um dia, por minha causa, ela deixaria de existir, quando eu desacreditasse nela. eu dizia tudo isso com um sorriso no rosto assistindo-a ficar horrorizada, chocada, zangada, possessa, assistia a sua fúria. a ira de uma deusa. e no fim, eu ria alto, gargalhava e dizia: “mas por enquanto eu preferia acreditar”.

foi acreditando nela que tudo começou.

um sábado à noite, o som ligado, sidney magal cantando, nas paredes minhas duas guitarras, Anna e Ella, e ela dançando nua em cima da mesa para mim. naquele momento eu pensei comigo mesmo: “ela é boa demais para ser verdade.” e era mesmo. num momento de descrença que tudo terminou.

foi um pensamento rápido. rápido como o leve tremor que se deu na casa – como se uma mão agitasse toda a casa, como se faz quando se é criança e acabamos de prender um besouro numa caixa -, como o movimento que as pernas dela fizeram quando não encontraram apoio, como o som que ela fez quando bateu com a cabeça no chão.

eu nunca descobri o que foi aquele tremor, nunca soube porque só eu o senti, porque o mundo inteiro não percebeu minha casa sendo balançada no ar como um pacote de pastilhas valda cheio de formigas, besouros, coisas do tipo. a única coisa que aprendi, com tudo isso, é que é assim que morrem as deusas: dançando nuas sobre uma mesa.

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7 respostas para "Assim não vale porque dói"

  1. nelsonnetto disse:

    POOOOOOOORRA!!!
    mto foda man!

    “eu nunca descobri o que foi aquele tremor, nunca soube porque só eu o senti, porque o mundo inteiro não percebeu minha casa sendo balançada no ar como um pacote de pastilhas valda cheios de formigas, besouros, coisas do tipo. a única coisa que aprendi, com tudo isso, é que é assim que morrem as deusas: dançando nuas sobre uma mesa.”

    do caralho!
    e raimundos sempre!

    força e honra!

  2. Marden disse:

    Foda man.
    É por isso que o Raimundos nunca vai se acabar.

  3. Mina disse:

    Mas noooooooooooooooooooooooooossa, qué isso?

    Bom, bom, bom, muito bom, muito bom.

  4. Tatii disse:

    txaaa. hehe, gostei, do mal.
    nao peguei a referencia aos raimundos mas tudo bem =P.
    =*

  5. diogo disse:

    “um sábado à noite, o som ligado, sidney magal cantando, nas paredes minhas duas guitarras, Anna e Ella, e ela dançando nua em cima da mesa para mim.”
    txaaaaaaaa ahuahuaauhahua
    sidney magal é A trilha pra um deusa dançando nua em cima de uma mesa, hein?! ahuahuahauahu
    força e honra, man!

  6. Lah disse:

    bem, tambem n entendi a parte dos raimundos, mas o texto ta fodastico como sempre ;D

    =***

  7. carol disse:

    muito, mas muuuuito bom!
    eu gostei de tudo, do começo ao fim. ah, e o fim ein?! sem palavras
    ; }

    beijo!

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