No corredor

ela esperava na porta de casa. esperava de braços cruzados, cara amarrada, pernas agitadas. esperava como se estivesse esperando algo; algo que não vinha, nunca viria. não havia ninguém no corredor, só ela. e há duas horas ela esperava caminhando de lá para cá no corredor. passos lentos, arrastados. se tivesse uma lata no corredor, provavelmente ela chutaria a lata e ficaria chutando-a de um lado a outro até que cansasse de chutar, pegasse a lata e jogasse na lata de lixo do final do corredor, então esperaria mais. até cansar.
mas ela não cansava. por mais impaciente que ela ficasse, por mais agitadas que suas pernas ficassem, por mais tensos que seus braços se cruzassem, com unhas a penetrar o antebraço até quase sangrar, ela não cansava de esperar. os segundos passavam arrastando as horas atrás de si, como escravos puxando pedras para construir algo maior que nunca vão usufruir. naquela noite eu não dormi olhando através do olho mágico para ela no corredor.
a noite passou, do dia veio, a vida veio ao mundo inteiro, mas para ela continuou a espera. eu não poderia trabalhar enquanto ela estivesse no corredor, esperando. eu não poderia fazer nada além daquilo. ela me prendia. havia alguma coisa nela, nos olhos que eu não enxergava através do olho mágico, em seus cabelos negros que lhe ensombreavam a face. havia algo nela, eu sabia disso. mas nunca soube o que era até ser tarde demais.
era minha segunda noite olhando-a no corredor. eu esperava pelo que ela esperava. rosto grudado na porta, olhos ardendo pela falta de sono e de lágrimas para lubrificá-los, passei outra noite observando-a. algumas horas ela encostou na parede, outra hora ela correu de um lado para outro do corredor. ela ainda não havia comido desde que chegara ali, desde que eu a vi esperando no começo de tudo. nem um sanduíche de dentro da bolsa, nem um suco, nem uma garrafa d’água. há dois dias ela não comia e não bebia. eu deveria fazer alguma coisa. e fiz. observei-a até o dia nascer e virar tarde e noite novamente.
na terceira noite de vigília, esperando que o que ela esperava viesse logo, decidi que se o que quer que viesse não viesse logo, amanhã seria um novo dia. disse a mim mesmo que hoje seria minha última noite observando-a. disse-me que amanhã seguiria minha vida, voltaria ao trabalho, ao mundo. se não vier o que quer que seja, amanhã abrirei a porta, sorrirei para ela e direi bom dia e passarei por ela como se ela fosse uma estranha – o que de fato era – e irei ao trabalho como todas as outras manhãs antes de encontrá-la. e a terceira noite passou sem que chegasse o que ela esperava. agora eu tinha que cumprir o que havia prometido. mas eu sentia medo. medo de ela me olhar e me achar estranho, medo de ela saber que eu estava ali o tempo todo, olhando-a por todo aquele tempo, observando-a em sua espera agoniante. tinha medo que ela me julgasse. mas engoli o medo. foi a primeira coisa que engoli depois de dias observando-a ininterruptamente. abri a porta do jeito que estava, a roupa amassada, as pernas acabadas, os olhos vidrados emoldurados por olheiras gigantescas.
ela me vê e sorri.
“estava esperando por você.”

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5 respostas para No corredor

  1. Marden disse:

    Ah a espera. As vezes ela parece importar mais que o resultado.

  2. Carol disse:

    não deixe para fazer amanhã o que você pode fazer hoje
    auehuaheuhae
    ;P

    gosteei
    😀

    beijos!

  3. Lah disse:

    aaaahhhh, aaahhh, q super super feliz =DD

    o bom eh q o texto td a pessoa tensa pra dar um sorrisão no final =D amei!!

    =***

  4. nelsonnetto disse:

    cara!
    ficou mto bom!
    diferente do que vc faz, mas bom do mesmo jeito.

    e

    “os segundos passavam arrastando as horas atrás de si, como escravos puxando pedras para construir algo maior que nunca vão usufruir.”

    frase foda!

  5. nelsonnetto disse:

    [no final da página tem uma carinha. só reparei agora.]

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