Aquela noite.

estava escuro naquela noite. eu não lembro de muita coisa além disso. estava particularmente escuro naquela noite. e era estranho exatamente porque eu tinha certeza que na mesma hora do que seria ontem havia uma lua cheia no céu. mas eu nunca fui bom com as fases da lua, poderia estar pensando que o que havia sido há dias tivesse sido ontem. o tempo sempre me prega peças desse tipo. o tempo sempre me engana com tudo. minutos de espera, de silêncio, sempre parecem horas. horas de alegria sempre parecem segundos. é tudo uma grande piada do tempo.

menos aquela noite.

naquela noite sem estrelas – o que eu achei normal já que estávamos na cidade e cidades nunca tem as estrelas certas, aquelas que brilham em céus – estávamos juntos, como sempre estamos, estávamos – ainda não estou acostumado a tratar as coisas que eram cotidiano como passado – quando percebemos um brilho estranho vindo de dentro de uma casa. como bons curiosos, fomos ver o que estava acontecendo, que luz era aquela que não parecia ser de televisão ligada nem te qualquer tipo de lâmpada.

há, na mente humana, algum dispositivo especial para esses momentos, para bloqueá-los, para jamais lembrarmos do terror do momento. eu não lembro de muita coisa, mas há certas coisas que são impossíveis de esquecer. é impossível esquecer aquele som, aquele grito de agonia, horror. é-me impossível esquecer as expressões congeladas e o corpo ainda quente caindo no asfalto frio. e é impossível esquecer de como senti minhas pernas mandando em mim. elas gritavam corra, corra, corra. e eu corri.

eu não esqueço da dor, não esqueço do calor, não esqueço do horror. eu não lembro de mais nada além disso.

e que estava escuro, inexplicavelmente escuro.

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4 respostas para Aquela noite.

  1. Lud disse:

    As pernas mandando em você… Adorei! 🙂

  2. Lud disse:

    mas juro que parece inspirado na estranha noite de ontem o.o’

  3. Marden disse:

    Lovercraftiano.
    \m/

  4. nelsonnetto disse:

    gostei mais do começo, dessa coisa com o tempo. porque o tempo sempre engana. mas quando existe algo tipo “aquela noite”, onde é como se você sentisse o tempo passar sério, e você pode ver a marca ritmada dos segundos indo embora naquele devagar torturantemente depressa, você não esquece.

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