"and on a milk white neck, the devil's mark."

ela desceu do navio com seu já conhecido passo lento, observando o mundo ao seu redor com uma mescla de desprezo e curiosidade, atravessando todo o cais enquanto um homem que eu não conhecia, e que provavelmente ela também não, carregava sua mala logo atrás. ela estava linda vestida com aquela roupa que eu desconhecia e que lhe caia tão bem no corpo, expondo suas formas sem ser apelativa, mas jamais sendo inocente ou puritana, apenas misteriosa. eu a conhecia bem demais para me iludir com a idéia de pureza em seu corpo ou alma. ela era alguém que, apesar da pouca idade, era vivida. e digo vivida no pior dos sentidos da palavra. havia passado por mais camas que muitas das prostitutas que, à noite, ganhavam a vida fazendo o mesmo caminho que agora ela fazia por passeio. o vestido novo balançava com o vento forte que vinha do mar e o cheiro de tripas de peixe e algas quase sumiu quando ela chegou ao meu lado e abraçou-me fazendo seu já conhecido perfume levar para longe quase todo o cenário ao meu redor, levando-me para passear nas lembranças boas que seu delicioso aroma me remetia. mas, como de praxe, ela nunca se dava por completo, nenhuma parte de si. logo, se afastou e perguntou como eu estava, perguntou se senti sua falta e com um leve aceno de mão dispensou o homem que arrastava a mala pesada e me fez entender, sem olhares ou gestos adicionais, que a partir dali aquela mala era meu fardo.

seus cabelos negros e curtos, à moda que ela gostava, tornavam-na menos fêmea dependente, esculpindo em seu rosto um ar de decisão que, em conjunto com seus gestos simples e duros – quando assim os queria – fariam muitos líderes da humanidade parecerem moças indecisas escolhendo o vestido que cobrirá seus corpos na noite do baile. ela havia chegado para, mais uma vez, por ordem na minha vida. como essa fosse uma extrema desordem, um completo caos. ela se achava demasiado importante para mim e eu tinha medo de provar que não e me ver perdido em meio à sua importância. seus lábios se moviam formando palavras que eu quase não entendia, mas me esforçava o suficiente para que fizessem sentido e eu fosse capaz de respondê-las sem parecer um estúpido retardado qualquer. em determinado momento ela tomou a dianteira, quando encontrou o local onde eu estacionara o carro, e eu fiquei para trás com sua bagagem, observando-a enquanto balançava seus quadris de forma hipnotizante até chegar ao lado do veículo parado e encostar-se nele com ar de aborrecida porque eu estava ali, parado onde ela me havia me deixado.

“venha, não temos o dia todo.” ela me disse. e ela estava certa. como sempre, estava certa. nós nunca temos o dia todo para nada, especialmente para as coisas boas. e era bom observá-la.

arrastei-me com a mala até o carro, enfiei-a no porta malas. ela já estava dentro, no banco do carona, ligando o rádio para evitar qualquer possível conversa que teríamos no caminho até o apartamento. do porto até a garagem eram exatos quinze minutos que foram preenxidos pela música ruim da rádio, que ela acompanhava com os lábios sem emitir som algum. olhava a cidade pela janela fechada e a seus olhos tudo parecia incrivelmente chato, sem gosto, como comida sem sal.

chegamos no prédio e subimos os três andares de escada. não é preciso dizer que ela chegou lá em cima primeiro e que em momento algum me ajudou com o peso que eu carregava, porque, como ela havia me dito sem palavras, aquele era meu fardo e somente meu. abri a porta e ela foi direto para o seu quarto que, desde quando ela veio para cá, deixou de ser meu para ser somente dela, onde eu era sempre um visitante, um intruso.ligou o ar condicionado, deitou na cama que um dia eu chamei de minha e tirou as sandálias de salto jogando-as nos cantos, quase quebrando as poucas coisas que eu ainda tinha orgulho de chamar de minhas.

fechei a porta da casa, tranquei-me no banheiro, tomei banho, vesti uma calça de linho daquelas bem confortáveis e boas tanto para dormir quanto para ir ao supermercado e fui para o quarto deitar-me ao lado dela, para sentir o cheiro dela que eu tanto gostava. fiquei parado na porta do cômodo, impressionado porque ela na cama parecia alguém. alguém mesmo. mas não um alguém que eu quisesse estar, um alguém totalmente desconhecido. e, pela primeira vez em meses, eu pensei que eu não me sentia bem em estar com ela, em ser tão submisso, em não mais existir sem antes ter que pedir permissão a ela.

então decidi que seria o fim, como tantas vezes havia decidido coisas na minha vida. essa seria a última vez que sentiria seu fogo, seu cheiro bom de folhas queimadas numa primavera florida. deitei-me ao seu lado e disse ao seu ouvido que não dava mais para mim, que ali era o fim e que logo ela teria que ir embora.

mas ela me disse, sem se exaltar, sem um movimento sequer na cama, olhos fechados, que não havia decido nada daquilo e que não seria assim. que não havia me autorizado fazer tal coisa. isso foi há três anos.

hoje lembrei de tudo isso, caro amigo, porque não há mais o que ser feito. o corpo dela está frio ao meu lado e as folhas se apagaram.

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6 respostas para "and on a milk white neck, the devil's mark."

  1. Marden disse:

    Sempre há o que ser feito velho amigo.
    Pegue as pás e leve ela pro quintal…

  2. Ludmila disse:

    …e experimente a sua liberdade.

  3. carol disse:

    ‘fariam muitos líderes da humanidade parecerem moças indecisas escolhendo o vestido que cobrirá seus corpos na noite do baile’ – gostei da definição.

    mto bom primo
    : ]
    beijos

  4. Lah disse:

    HA HA! “seu fudeu, otária!”

  5. Lah disse:

    meu comentário perdeu todo o sentido com a inserção desse “u” não intensional.

    sendo assim, leia-se:

    “HA HA! ‘se fudeu, otária!'”

  6. Tati disse:

    MEU IRMAO QUE FODA!
    tu tá inspirado nos ultimos textos viu.
    mermao se tu revisasse textos como esse vc ia ficar famoso véi *.*
    que legaaal.

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