A Dona.

estava escuro naquela noite. eu lembro bem disso. boa parte da memória foi apagada pelo álcool, mas disso eu lembro claramente: estava escuro naquela noite. parecia que a companhia elétrica resolvera agir no bairro e cortaram a luz de todos os que não pagavam a conta (o que deve totalizar eu e dois ou três vizinhos). o fato de todos na rua estarem sem luz prova o que eu vinha suspeitando há tempos: um maldito gato de luz. eu bem sabia que não fazia sentido aquelas contas absurdas. eu mal paro em casa, como diabos poderia vir tão alta? malditos vizinhos, maldito bairro, maldita vida. lembro de ter amaldiçoado a tudo e a todos, especialmente depois que, ao me deslocar da cozinha para o meu quarto, meti a canela numa caixa de som na sala.

cheguei no quarto e me deitei na cama, pronto para dormir já que não havia mais nada o que fazer daquela noite. antes de adormecer, pus-me a pensar na vida, meio que sem querer – porque só se pensa na vida meio sem querer – já que nunca foi do meu grado parar para pensar besteiras. não lembro do que passou em minha mente. algo haver com solidão, mulheres, família, amigos e a falta de tudo isso na minha vida. foi então que ouvi um barulho vindo da rua. a vi entre a névoa que se formava na rua que dava pra minha janela e, apesar da ausência de eletricidade, consegui enxergá-la facilmente. caminhava lentamente dentro de seu vestido negro colado ao seu corpo, revelando suas curvas que os circuitos de fórmula 1. seus passos ecoavam na rua e se amplificavam no meu quarto, ou na minha cabeça, não sei bem ao certo. seus pés traçavam uma linha reta pelo chão, um na frente do outro, sempre. os quadris largos sob a cintura fina agitavam-se no ar e seu vestido parecia se seforçar para não rasgar no busto. uma delícia de mulher sozinha naquele breu. ajoelhei na cama e fiquei observando enquanto ela vinha na direção do meu prédio.
ela parou e um silêncio pesado se fez instantaneamente. eu podia ouvir meu coração batendo calmamente – cada contração, cada relaxamento – suas câmaras se enchendo e esvaziando com o sangue do meu corpo. então notei que era capaz de escutar o suspirar da mulher e notei que agora, enquanto ela erguia a cabeça como se para procurar algo, ela também podia ouvir minha respiração, bem mais pesada que a dela. senti seus olhos me encontrando ali, um homem um pouco acima do peso, sem camisa, olhando pela janela a rua, ela. senti-me compelido a encará-la, até mesmo a falar com ela. quando notei estava em pé, observando-a me olhar.
acho que seus lábios se moveram e formaram alguma palavra que foi engolida pelo som que veio, naquele momento, de algum dos outros apartamentos. ainda havia vida no mundo além da minha e daquela estranha. ela olhou para trás e, de onde antes havia ninguém, emergiu da escuridão um homem alto, careca e pálido. ele falou algo para ela, que acenou com a cabeça num gesto simples e apontou para a minha janela (mesmo podendo ter sido qualquer uma das outras infinitas janelas do edifício onde moro, eu sabia que ela apontava especificamente para a minha, onde eu estava parado, intrigado, observando os dois estranhos). o homem olhou e me encarou e, mesmo à distância, pude ver seus olhos brancos. senti um frio na espinha – algo que só sinto quando acordo e não reconheço o lugar onde estou. não é muito comum, mas já aconteceu. o bom é quando é a cama de uma mulher que vai acordar e se arrepender de tudo. o ruim é numa cela fria e um cara mal encarado dorme na cama embaixo da tua. o homem agora caminhava em minha direção, se aproximando da faixada do prédio. saí da janela. tinha de fazer algo. fui à cozinha pegar algo para me defender, apesar de não saber bem o porquê de me defender, que perigo corria, senti uma urgência de ter algo para me proteger. no escuro, tateei por algo nas gavetas. cortei meu dedo na peixeira e achei que serviria. arma clássica e clássicos não morrem, ao menos é o que vêm dizendo há um bom tempo e é o que tenho escutado desde moleque.
o que veio depois é um tanto confuso, não lembro bem. ouvi passos na escada, se aproximando cada vez mais e xinguei o vizinho que deixou os portões lá debaixo destrancados. encostei-me na parede, esperando qualquer tentativa de arrombamento. os passos continuaram, cada vez mais altos. pararam. fiquei nervoso. queria saber o que estava acontecendo lá fora. começava a pensar por que eu não tinha corrido para fora daqui, me escondido nalgum outro lugar, batido desesperado na casa de alguém. mas seria muito provável que, quem quer que eles fossem, me pegassem lá também. eu não estava a salvo em nenhum lugar, a não ser que eu lutasse e vencesse. aqui dentro, pelo menos eu tenho minha faca, é minha casa, minha arena.
nada acontecia lá fora e isso começava a me irritar. eu não sei bem o que eu queria que acontecesse, mas eu sabia que não queria que nada acontecesse, isso seria sinal da minha paranóia, talvez tudo o que eu vi foi a chegada de um vizinho novo e lá estava eu de faca na mão encostado na parede pronto para interceptar o ataque. lembro de ter pensado: por que diabos ele não arromba a minha porta? pouco antes de fechar os olhos para respirar e me concentrar no que conseguia escutar vindo do corredor. o silêncio imperava e era demasiado denso, não conseguia captar nenhum ruído vindo de fora. quando abri os olhos vi uma mulher, a mesma da rua. quase morro do coração. como diabos ela havia entrado ali? como conseguiu ser tão furtiva e tão gostosa usando esses saltos e essa roupa? ela se aproximou.
“parada aí, dona!” eu disse apontando a faca em sua direção.
“calma, docinho.” ela falou movendo seus lábios carnudos e sexies. sua voz era sensual. tanto que você só conseguia imaginá-la gemendo seu nome numa noite como aquela. senti seu perfume e minha cueca começou a ficar apertada.
“olha só, dona. eu não sei quem é a senhora” estava me esforçando ao máximo para me concentrar e minha voz não falhar e eu tropeçar nas palavras “certamente não sei o que faz aqui. por favor, me diga antes que eu faça algo de que me arrependa.”
“benzinho” ela disse tocando a ponta da faca com a falange distal do indicador. um pingo de sangue se formou. “eu vim aqui porque preciso de você.” ela tirou a o dedo da faca e chupou o sangue. “de um favor.”
a cada palavra dela eu me sentia seduzido e hipnotizado. seus lábios grossos e vermelhos moviam-se sempre de uma maneira que qualquer um podia jurar que diziam: beije-me, possua-me, farei loucuras com você.
“que tipo de favores, dona?” eu disse me controlando para não adicionar sexuais ao final da pergunta.
“preciso dos teus serviços.” o cheiro dela era insuportavelmente delicioso e sensual e mais uma inspiração e minha calça explodiria.
“meus serviços, dona? não sei de que vai te servir um oncologista alcoólatra a essa hora da madrugada. não se cura câncer do nada e um diagnóstico pode esperar mais 6 horas até o sol nascer e a primeira clínica abrir. ele não vai sofrer metástase magicamente para todos os órgãos em tão pouco tempo. além do mais… eu não sou o melhor. longe disso.”
“eu sei disso.” e não sabendo se ela se referia ao fato de saber que o diagnóstico não ia importar agora ou ao fato de eu não ser o melhor, me senti ferido. “não estou querendo os teus serviços como médico.” agora sim, ela realmente feriu meu orgulho “preciso dos teus outros serviços.” eu não sabia do que diabos ela estava falando, mas a dona havia me ofendido. só eu posso me criticar e ninguém tem o direito de reconhecer que estou dizendo a verdade. ninguém sabe de nada!
“não sei do que a senhora está falando, dona. mas gostaria muito que a senhora fosse embora. não há nada que eu possa fazer por você.”
a faca na minha mão apontava a saída da casa. ela abaixou meu braço e pôs seus lábios contra os meus. sua língua passeava pela minha boca e sua saliva se misturava à minha. tinha gosto de laranja, os lábios, sua saliva não tinha lá muito gosto, mas matava a sede que eu não sabia que tinha. ela meteu a mão no volume que se projetava contra ela vindo da minha pelve. tremi. aquela mulher iria foder comigo. MESMO. eu soube disso na hora, senti isso na hora, mas não parei. fazia tempo desde que uma mulher, espontaneamente, sem envolvimento monetário, tocara as partes que ela começava a acariciar lentamente. esse é o ponto fraco de todo homem, mulheres: colocar a mão no pau de um homem é como uma daquelas manobras em que domadores dominam suas bestas agarrando-as pelos chifres. uma mulher que pega bem no homem sabe domá-lo, dominá-lo. a dona me tinha adestrado em suas mãos e eu faria tudo o que ela dissesse. foi assim que perdi para ela. ela me tinha nas mãos literalmente e não tão literalmente. não lembro bem dos detalhes, como já disse algumas vezes, e isso é triste porque essa é a parte da noite que todo homem gostaria de lembrar. eu tento, juro como tento, mas nunca me vem a mente mais do que alguns gemidos, a lembrança de um canal vaginal pequeno e apertado… e só. seu corpo…seu corpo era um daqueles poucos que não nos arrependemos de ver nus. era lindo, perfeito e harmônico. ela me encostou na porta e fizemos ali mesmo. quando ela enroscou as pernas ao meu redor falou, entre gemidos, ao meu ouvido com uma voz que arrepiou cada pêlo da minha nuca. eu não lembro o que ela disse. provavelmente minha condenação.
depois do sexo ela abriu a porta e o homem estava lá, parado, me olhando com seus olhos vazios e leitosos capazes de congelas espinhas. não mais a minha. eu estava relaxado, de saco e mente esvaziados. o melhor sexo da minha vida com a dona gostosa sem nome. apertadinha como uma virgem. eu disse, essa é a maior lembrança da noite, acho. ou uma das maiores. ele e a mulher trocaram olhares e algumas palavras que nunca entraram na minha mente. a voz dele…é algo que eu não faço a menor idéia de como é. mas ele tinha aquele jeito de que, ao falar, seria como se ouvíssemos ecos do passado ou qualquer coisa tão metaforicamente horripilante quanto. ele entrou na minha casa. eu disse algo do tipo “dê o fora da minha casa!” mas ele me ignorou. provavelmente eu repeti a ordem acrescentando um “filho da puta” ao final. ele continuou me ignorando, veio em minha direção e pôs as mãos ao redor do meu pescoço. começou a apertar. eu dava olhares desesperados em direção à mulher, que permanecia observando. consegui escapar dos braços daquele maníaco. a gostosa acendia um cigarro com um olhar de tédio que me deixou revoltado. procurei pela faca que larguei quando ela abriu meu ziper. estava no chão perto da porta e havia um louco querendo me matar no meio do caminho até ela. então fiz o que, creio eu, tenha sido o ato mais escroto de toda a minha existência. aquela coisa de filmes de ação: rolei no chão depois de saltar e terminei um pouco distante do objetivo. a sorte foi que aquela série de movimentos ridículos distraiu um pouco o homem e eu consegui pegar a faca a tempo de cortar seu pescoço sem levar uma porrada. o sangue jorrou num jato contínuo. sua jugular agora mandava o sangue do seu cérebro direto para o chão do meu apartamento, se misturando com o sêmen recém derramado no mesmo piso.
a mulher sorriu ao ver seu parceiro caído e gorgolejando sangue. falou que era exatamente esse serviço que ela tinha em mente. que eu tinha sido perfeito e que naquela hora devia terminar o serviço. não entendi bem o que ela quis dizer com isso, mas lembro bem de tê-la visto sorrindo e pedindo por mais e mais entre gemidos. um líquido vermelho e viscoso escorrendo entre minhas mãos e, depois disso, apaguei. quando acordei estava algemado. policiais me chamavam de filho da puta e coisas do gênero; meus vizinhos estão todos me olhando ir embora arrastado com expressões de nojo e desprezo. não sabia o que raios estava acontecendo, a noite anterior não me vem à mente.
dizem-me que eu tenho direito a um advogado que, ouço ele me dizer, é chamado de sem escrúpulos, amoral, sem vergonha, por simplesmente pegar esse caso. ele me deixa claro que não está feliz em me defender e expressa isso da melhor forma possível na sentença: “eu espero mesmo é que você apodreça e morra seu filho da puta desprezível.” eu falo que ele não precisa me defender se não quer, que outro pode fazê-lo e ele ri. me diz que ele foi escolhido pelo estado e não podia dizer não porque ele era a última escolha do estado. pensei que ele era como eu e não era o melhor no que fazia. Toda a noite me voltou à mente e eu explico a ele que o homem e a mulher invadiram minha casa, que me ameaçaram, que o cara tentou me matar e ele pergunta do que é que estou falando. que homem e que mulher eram esses que eu delirava sobre. falei da minha noite toda e ele riu mais uma vez, outra risada seca e sem humor. falou algo sobre apelar para insanidade mental, apesar de saber que molestadores e assassinos de crianças não conseguem se safar com uma desculpa esfarrapada dessas. eu engasgo e pergunto do que porra ele está falando, que crianças são essas e ele começa a sorrir, me chama de filho da puta sádico, mas fecha o rosto quando nota que eu realmente não sei do que ele está falando. então ele me deixa a par de todos os fatos: na noite anterior me armei de uma faca e uma câmera de vídeo e estripei os filhos do meu vizinho do lado, que trabalha de noite e deixa seus dois filhos, um casal, em casa, sós. a esposa morrera há 6 meses de um câncer, foi paciente minha e o homem confiava em mim e dizia aos filhos para me chamar caso algo errado acontecesse. eu nunca tive problemas com isso e aceitava de boa ajudá-lo em suas necessidades. provavelmente foi algo assim que aconteceu. bateram à minha porta, entraram – e é a partir daí que a fita começa a gravação – eu os amarrei, estuprei a menina, cinco anos de idade. depois de fazê-lo, cortei com a peixeira o pescoço do menino de três anos. molestei novamente a menina enquanto a sufocava e depois que ambos estavam mortos, esquartejei-os. estava tudo em fita. era eu e não havia como negar. eu não lembrava de nada daquilo. não lembrava de crianças, câmera, amarras… nada. lembro de mulher sensual, o homem de olhar vazio, do sussurro no ouvido, de acordar do sono com uma batida na porta, de recepcionar duas crianças, levá-las para o quarto, amarrá-las… oh deus… eu sabia que a mulher ia foder a minha vida.
estou sozinho aqui dentro. lá fora o julgamento acontece. eu espero a morte, eu a desejo mais que qualquer outra coisa, mais do que desejei a mulher de vestido negro e curvas sensacionais. desejo-a louca e intensamente. por isso pedi a meu advogado as pílulas que tenho à mão. eu sabia que ele concordaria que a morte seria ainda pouco para mim, mas falei que assim ele não teria de gastar seu tempo me defendendo. são dez comprimidos na cartela. dois deles são capazes de nocautear um homem, quatro induzem o coma facilmente, seis deprimem completamente o sistema respiratório. tenho os dez na palma da minha mão.
fecho os olhos, vejo a mulher de negro e engulo todos. espero você chegar. sentas ao meu lado, sinto tua presença, não ouso te olhar. reconheci a tua pegada quando colocaste a mão na minha virilha. tive que segurar um sorriso, sabia?
“vamos, docinho?”
“já era tempo, dona.”

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6 respostas para A Dona.

  1. Lud disse:

    tem alguma coisa no seu jeito de escrever que eu queria ter. :~

  2. Marden disse:

    Taquepariu, man!
    Foooooda!
    Faltam letas maiusculas, mas mantem muito bem o suspense e o clima de desorientação até o fim.
    Um dia eu ainda consigo escrever um legal assim.

  3. nelsonnetto disse:

    Muito foda!
    thriller intenso!
    a mudança da narrativa do encontro com a mulher e o cara para a parte em que ele é preso.
    Foda.

    tem alguma coisa no seu jeito de escrever que eu queria ter. :~ [2]

  4. tati disse:

    ave maria do céu minha nossa senhora do padinho çiço =OO
    o texto foi super tomando um rumo que eu nao esperava, valeeei-me
    mas ficou muuuito interessante. isso dava um livro de suspense e psicologia bom se vc desenvolvesse hehehehe
    gostei de: mas a dona havia me ofendido. só eu posso me criticar e ninguém tem o direito de reconhecer que estou dizendo a verdade. ninguém sabe de nada!

  5. carol disse:

    oh my god!
    eu fui lendo e me surpreendendo a cada palavra. muito bom mesmo. concordo com a tati quando ela diz que isso dava um livro e com um final muito, mas muito inesperado mesmo!
    beijo primo

  6. Isabelle disse:

    A dona morte. espero que não seja spoiler. =x
    Mas tá muito foda mesmo o texto.

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