amanda.

amanda fodia como uma bibliotecária: calada, contida, discreta. não soltava um gemido sequer. se movia sobre meu pau, se contorcendo em silêncio. seu corpo branco pesava sobre mim como um livro pesando sobre a estante. com ela era assim: um silêncio denso que pairava sobre nós dois e que ela parecia adorar. acho que ela tentava se esforçar para não demonstrar prazer enquanto rebolava sua grande bunda maravilhosa, sabia disso quando notava sua língua umidificando seus lábios finos pouco antes de morder os inferiores de olhos fechados toda vez eu aumentava o ritmo das penetrações.

ela era viciada em arrumação, organizava e catalogava toda a casa numa ordem que só ela entendia e que não fazia sentido para qualquer outro. ela chegava na minha casa e começava a organizar as coisas que eu tinha, meus cds ela colocava por gênero e em ordem alfabética, meus livros ela separava por cores e formatos – tanto que ao final do nosso relacionamento eu não sabia onde diabos estavam alguns dos meus livros porque eu simplesmente não sabia qual a cor da lombada deles – e fazia tudo com tanta indiferença e frieza no olhar, de forma tão mecânica que, para quem a conhecia, parecia que sentia algum tipo bizarro de prazer e alegria. chego a apostar com quem quiser que ela encontrava mais diversão nisso do que fazendo sexo.

quando amanda estava vestida ninguém dava muito valor. suas roupas, por mais sensuais que às vezes tentassem ser, escondiam suas curvas, suas carnes, desvalorizavam tudo o que tinha. mas quando ela as tirava lentamente, peça por peça, revelava todo seu potencial. ó deus…poucos sabiam o quão fabuloso era o corpo escondido por sob aqueles panos, poucos a viram se despindo calmamente, observando seus seios firmes de aréolas rosadas e bicos eriçados apontando para o céu e nos dizendo que sim, era lá o paraíso.  tão raros quanto os que sabiam como era a visão dela baixando suas calcinhas nem um pouco sensuais mostrando a quase ausência de pêlos castanhos, escuros como a noite, cobrindo de leve sua púbis branca e seus lábios que foram beijados por tantas pessoas quanto há falanges nos dedos.

amanda era discreta. acho que esse era seu lema: passar despercebida pela vida, discrição sempre; ser o livro que está na estante mais distante da biblioteca, esperando que alguém vá até ele, leia o título não muito chamativo quase apagado na lombada e mesmo assim o leve para casa para lê-lo e perceber que não é o tipo de leitura que  marca vidas mas é lido e provoca algumas emoções não muito fortes enquanto o tem em mãos, mas é facilmente esquecido; o livro que ninguém discute em rodas de leitores. e tudo isso ficava claro quando amanda fodia como uma bibliotecária: silenciosa, discreta, tomando cuidado para não atrapalhar o mundo com sua existência. sem passar tesão nenhum. comê-la era o mesmo que não fazê-lo, só que fazendo.

eu lembro de amanda como lembro de uma tarde em que o sol talvez brilhasse lá fora, mas eu não vi porque estava em casa, deitado na cama sem fazer muita coisa, pensando em dormir e não dormindo, pensando em ler e não lendo, pensando em nada enquanto tudo vinha à mente de uma forma tão intensa que quase fere. e não se pode fazer nada além de ficar deitado sem sentir as coisas a não ser o tempo passando lentamente e arrastando consigo toda a vida que o mundo carrega. amanda era o livro que ela, e somente ela, amava e ninguém tinha saco de ler. fodia como a bibliotecária que adora o livro que ninguém leva pra casa.

amanda escolhia os assuntos neutros: falava do tempo, do trânsito, dos programas de humor da tv aberta e de filmes melosos mezzo românticos mezzo dramáticos com pontadas de humor nos diálogos. falava de seus escritores favoritos, suas leituras mais recentes – best sellers bobos, mal escritos e sem profundidade, daqueles que lê-se em algumas horas e ela, toda orgulhosa, diz que só passou uma semana e sai recomendando a todos “muito bom” ela diz “prende a gente do começo ao fim”. sempre dizia essas coisas aos meus amigos e eu meio que me envergonhava. talvez essa seja a razão de não tê-la levado para sair mais com eles. preferia trancar-me em casa com ela, assistir a algum filme em silêncio e terminar a noite com ela silenciosamente sobre mim, ou sob mim, ou ao meu lado, ou à minha frente, não importava muito a posição, desde que fosse ela comigo ali. não era tão engraçado quanto conversar com amigos, mas nem toda diversão rende risadas. raras vezes ri com amanda.

amanda não discutia futebol, política, música, religião. qualquer assunto que pudesse irritar facilmente alguém era um assunto que seria evitado por ela. era uma mulher calma e amável, incapaz de ferir alguém com palavras. extremamente passiva e sem opinião. foi com ela que passei os três meses mais organizados da minha vida. gostava de amanda porque ela nunca fazia cena, escândalos ou sequer gritou qualquer coisa para mim. sua voz era sempre baixa e monótona. sua falta de reação ante certas coisas me irritava, mas, maioria das vezes, eu não reagia, não reclamava, nem pedia uma reação dela. nunca brigamos, nunca discutimos nada mais sério que marcas de café (ela queria x e eu fazia questão de y, terminamos comprando z). quando eu lhe disse que não sentia que estávamos indo em frente com aquela relação ela acenou e concordou, disse que também não achava que progredíamos, aceitou que a melhor solução era terminar. ela sempre concordava com o que as pessoas falavam, ou, se discordava, nunca parecia fazê-lo. nunca soube bem se ela tinha opinião própria, ela me deixava curioso. era isso que me atraía nela, e o fato dela foder calada. meu sonho era ver amanda gemendo, gritando sobre meu pau, e pedindo mais, sempre mais. mas isso nunca veio e, creio eu, nunca viria para ninguém. disse a ela para ficar despreocupada que eu nunca a traí. ela pareceu não se importar muito. disse simplesmente ok. era verdade. eu nunca a traíra. não seria capaz de fazer isso a ninguém, mas há duas semanas eu tinha conhecido uma garota e ela me atraiu. saimos algumas vezes – programas inocentes, cinema, almoço – e, quando terminei com amanda, queria saber se aquela garota fodia a foda que prometia. (estela tinha cara de quem fodia como advogada: dentro da lei, mas sempre procurando novas formas de burlá-la.)

a última vez que vi amanda foi há três semanas. ela estava no trabalho e eu precisei de alguns livros para complementar uma pesquisa. ela estava bem, me disse com sua voz baixa e calma de bibliotecária, conhecera um cara legal no trabalho. disse-me essas coisas como quem fala que comprou um carro usado. foi bom vê-la novamente, seu jeito irritantemente calmo e seu cabelo preso num rabo de cavalo tão familiar me fizeram lembrar em parte do tempo que passamos juntos. é bom saber que as coisas têm um fim.

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11 respostas para amanda.

  1. Marden disse:

    Muito bom, man.

  2. Lud disse:

    Muito, mas muuuuito bom. Gostei dessa mescla de surrealismo com coisas perfeitamente banais. (achei a amanda surreal =X embora não seja. E me lembrou a Macabéa da Clarice Lispector).

  3. nelsonnetto disse:

    Man, ficou foda.
    muito bom mesmo.
    lembra macabéia, lembra a ana da tati(por ela não ter voz).
    e ficou muito fooooda!

    força e honra, man.

    ps.: precisa de uma revisãozinha, se quiser eu aponto depois por msn.

    e é claro, não pude deixar de comentar:

    “ela pareceu não se importar muito. disse simplesmente ok.”

    cê sabe, né?

  4. Brunno Voronkoff disse:

    muito do caraaaalho, bixu.Sério pow! e vc sabe quem EU sou pra leituras neh?mas gostei muito,muito bom mesmo.bem legal a idéia de que algo tão simples e rotineiro pode ser ao mesmo tempo tão fascinante e ironicamente “peculiar’.

    flw o/

    f&h

  5. lnatesta disse:

    Dirty. F&H

  6. amanda safadxeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeenha..
    Aposto que ela não gritava por outra foda pro seu amigo aí do texto…
    O próximo cara que comeu ela, ouviu belos gritos de uma foda boa.
    hahahaha
    é tão engraçado ser desbocada por alguns minutos na internet
    fodafodafodafodafodafoda

  7. tati disse:

    meu irmão que fooooooda!
    serio, ficou mtooo fodaaaa O.O adorei
    “comê-la era o mesmo que não fazê-lo, só que fazendo.” que foooda ahauahuaha
    e a sua descrição de foder como uma advogada foi foda tb, ri demais aqui ahauhauh
    vc escreve umas coisas de vez em qdo véi, q eu acho q tu num tem noção como é legal hehehe
    amanda é mto interessante na sua capacidade de nao ser interessante, heehehhe
    gstei, por incrivel q pareça achei bem delicado o texto

  8. Lah disse:

    poow, pobre amanda.
    amanda era quase um nada, mas nem isso amanda era.

    não entendi essa da advogada, mas acho q eh melhor assim!

    o texto tá incrivelmente bem escrito =D
    mtoo mtoo bom!

    =**

  9. Amanda disse:

    Cara! Que engraçado.. eu me chamo Amanda, estou me formando em biblioteconomia esse ano, e trabalho em uma biblioteca. haha achei o máximo seu texto, algumas partes até me vi ali..
    Uma amiga que enviou o link pra mim. Adorei. Parabéns, vc escreve mt bem!

  10. carol disse:

    tá, eu também morri de ri com a parte da advogada 😛

    amanda é uma pessoa que poderia ser estudada.

  11. amanda disse:

    texto inspirado em mim!

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