listada.

olha só, meu amor, eu podia mentir pra você pela primeira vez agora. podia dizer que eu lembro de quando você apareceu na minha vida pela primeira vez e que eu lembro que naquele dia – um dia de setembro, perto do fim do mês, pouco depois do aniversário de uma das minhas melhores amigas que você nunca conheceu porque nunca quis aceitar os meus convites – a lua cheia mandava a luz que batia em você de uma forma linda, deixando a tua pele morena extremamente desejável, mas eu não lembro. não lembro também de quando você me disse algo que me fez pensar que talvez você não quisesse realmente dizer aquilo, mas outra coisa, porque você sabe como eu sou com pessoas. eu sempre as entendo errado. eu sempre vejo mais malícia nas palavras e nas ações, especialmente nessas últimas, do que realmente existe. mas isso é uma coisa minha e você me conhece bem o suficiente para saber que eu não lembro de muitas coisas e dessa vez você não pode culpar o álcool. estou aqui provando que sou esquecido mesmo e que meu cérebro não está sendo deformado pelo etilismo. e convenhamos, minha dependência dele não existe, e já você… eu quase não consigo imaginar sem a bebida na mão e um cigarro no bico.

quando eu olho para você, e você sabe porque eu já te disse (eu já te disse tudo o que estou dizendo aqui, mas eu gosto de me repetir porque acredito que é na repetição do que foi dito que o que foi dito se mostra algo constante e não apenas algo de momento. uma vez você me disse que tinha medo quando te diziam “eu te amo” porque pensava que era só naquele momento e no segundo depois de dito ele deixaria de ser verdade, então eu costumo acreditar n’algo parecido com isso. eu tento sempre confirmar meus sentimentos. sempre deixar claro o que precisa ficar claro. porque ninguém vive bem na penumbra da vida. perde-se muitos detalhes, meu bem. você sabe, eu sei, o mundo inteiro sabe disso. os detalhes são tudo o que importam para uma verdadeira vida. sem eles é impossível se desenvolver qualquer coisa.) eu sinto uma enorme paz aqui dentro. e eu nem sei se é paz ou amor o que eu sinto, mas sei que é muito bom. sempre muito bom. e eu já te disse tanta coisa que você deve estar cansada de tantas coisas que eu ainda tenho pra dizer.

eu lembro de uma vez, quando você viajou para longe e eu fui te levar no aeroporto. no carro a gente só fez escutar música. você não me dizia uma palavra e eu não dizia uma palavra com medo de quando fosse falar interromper a palavra que você estava pensando em começar a dizer. ficamos em um silêncio que conseguiu me ferir. quando eu era mais novo eu pensava que eu sabia conviver bem com silêncios e olhares e viver apenas disso, mas eu cresci e vi que nem só do silêncio apaixonado vive o homem. que as palavras são muitas vezes bem mais necessárias que as ausências de sons. naquele dia eu te disse adeus com a triste esperança de que nunca mais nos veríamos. eu te abracei, te beijei. e você foi embora. mas voltou. não lembro muito bem de como foi a vida enquanto você esteve lá, mas não foi a pior coisa do mundo. meu mundo não pareceu menos bom nem nada do tipo. eu acho que eu só senti falta de você. eu te disse isso quando você chegou. disse que senti a tua falta, saudades até. e você me abraçou e disse que também sentiu. só que eu nunca acredito no que outras pessoas me dizem porque é muito fácil dizer as coisas, eu só acredito no que eu posso sentir. acho que com você é a mesma coisa, mas não sei.

eu tenho fé na humanidade. eu sei que é tolice, mas eu tenho. tenho porque se não tivesse, como seria? é besteira confiar em alguém, mas acho que eu sinto a necessidade de fazê-lo. e eu confio em você. confio como confio em poucas outras pessoas. e eu não vou dizer o nome das pessoas por mais que você esteja querendo saber. eu acredito no que as pessoas me dizem sobre suas vidas porque é o que elas dizem sobre suas vidas. se não elas, quem sabe mais sobre o assunto? eu tenho fé em você, meu bem. mas às vezes você me faz pensar em abandonar tudo por causa de uma coisa qualquer. eu não sei bem o quê, mas às vezes eu olho para você e não te vejo. não vejo a mulher por quem me apaixonei, a dona dessa carta, de todas as cartas que eu tenho aqui dentro para escrever. aí eu não faço idéia do que eu vejo. mas você me vem sempre linda com teu sorriso tosco de orelha a orelha que sempre me faz pensar em como você é uma pessoa linda e me faz ter vontade de rir, apenas. e eu rio para você que se sente realizada e volta a fazer o que quer que estivesse fazendo antes de me mostrar os dentes quase que num pedido para que eu te mostrasse os meus mais amarelados que os teus. porque você largou o cigarro e eu comecei. mas você vem e me diz que só fumou naquele dia e que eu fiquei com a imagem na cabeça não sabe por que. eu não sei se é verdade, mas eu acredito, porque é isso que eu faço. então, depois de um tempo te condenando silenciosamente por ter feito aquilo aos teus pulmões, eu te dei uma ou outra lição sobre os males do cigarro, mas dois ou três meses depois eu comecei a fumar um ou outro cigarro enquanto bebia uma ou outra dose de whisky. e você começou a rir e me dar as lições que eu te dava. sempre que você me perguntava por que eu fazia aquilo eu dizia que era porque o prazer do momento valia o câncer de pulmão futuro. você se calava. acho que não gostava da minha brincadeira. hoje em dia sabemos que eu não pego pesado em bebidas e cigarro. você nunca mais teve que me levar para casa e pedir para um amigo me arrastar até debaixo do chuveiro pra jogar água fria na minha cabeça.

lembra daquela vez que fomos ao zoológico bêbados? era umas duas da tarde e você riu muito das zebras e eu ria da tua risada linda. você odiou o cheiro dos hipopótamos e disse que as girafas eram supervalorizadas. gritou para os macacos que era para eles esperarem que logo logo o planeta seria deles e nós seríamos os escravos deles. você lembra disso? espero que lembre porque essa é minha pequena vingança de todas as vezes que você perguntou se eu me lembrava de detalhes pequenos de uma noite de bebedeira inocente. “você lembra que você disse isso?”, “lembra que fez isso?”. quase fomos expulsos de lá. foi engraçado.

então, meu bem, eu não lembro a segunda vez que a gente se viu. não acredito que tenha sido naquele show em que você ficou cuidando da tua amiga bêbada que eu conhecia e de quem eu não me aproveitei porque eu não me aproveito das pessoas. e eu estava com meus amigos, que você conhecia, ou não. não sei. talvez eu tenha olhado para você como quem olha para alguém que já se viu e se está acostumado com o rosto. mas não estava. acho que ainda não estou, para falar a verdade. e espero não ficar nunca. porque assim, sempre que te olhar conseguirei descobrir algo novo e surpreendente. o manuel escreveu algo um dia. O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:/- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara./A moça olhou de lado e esperou./- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma/lagarta listada?/ A moça se lembrava:/- A gente fica olhando…/A meninice brincou de novo nos olhos dela./ O rapaz prosseguiu com muita doçura:/- Antônia, você parece uma lagarta listada./A moça arregalou os olhos, fez exclamações./O rapaz concluiu:/- Antônia, você é engraçada, você parece louca.” você é minha lagarta listada. e você às vezes parece louca e eu sinto que sou o cara mais sortudo do mundo por causa disso, da tua loucura.

eu não lembro de todas as vezes que a gente se viu. eu queria lembrar e escrever essa carta até o infinito contando de todas as minhas impressões de você. mas eu não lembro. não temos todo o tempo do mundo para isso. espero que você leia a minha carta para você como um dia eu lerei a tua carta para mim. e acredite em mim, beibe. porque eu sou exatamente isso que você está lendo: um mesclado de idéias dos outros que no fim se distorcem tanto que se tornam novas e minhas, somente minhas.

até mais, lagarta.

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8 respostas para listada.

  1. Lah disse:

    “quando eu era mais novo eu pensava que eu sabia conviver bem com silêncios e olhares e viver apenas disso, mas eu cresci e vi que nem só do silêncio apaixonado vive o homem. que as palavras são muitas vezes bem mais necessárias que as ausências de sons.”

    “só que eu nunca acredito no que outras pessoas me dizem porque é muito fácil dizer as coisas, eu só acredito no que eu posso sentir. acho que com você é a mesma coisa, mas não sei.”

    “eu tenho fé em você, meu bem. mas às vezes você me faz pensar em abandonar tudo por causa de uma coisa qualquer. eu não sei bem o quê, mas às vezes eu olho para você e não te vejo.”

    “você é minha lagarta listada. e você às vezes parece louca e eu sinto que sou o cara mais sortudo do mundo por causa disso, da tua loucura.”

    “porque eu sou exatamente isso que você está lendo: um mesclado de idéias dos outros que no fim se distorcem tanto que se tornam novas e minhas, somente minhas. ”

    eu sou isso. cara, eu me vi em muitas partes, mais que essas, eu me vi querendo dizer tudo isso e não dizendo, sabe? às vezes eu simplesmente não digo e feica engasgado de modo incomodo. foi bom ler o que eu penso, foi bom ler e saber que só por alguem escrever algo assim eu não penso assim sozinha =)

    amei amei o texto. e pode parecer egocentrico, mas eu amei ainda mais porque eu poderia ter escrito ele. =)

    =**

  2. Marden disse:

    Porra man.
    Muito fodasticamente bom.
    Uma coisa pessoal e apaixonada sem ser mela cueca. Isso foi muito foda.

  3. Sarah Mendes disse:

    “eu tento sempre confirmar meus sentimentos. sempre deixar claro o que precisa ficar claro. porque ninguém vive bem na penumbra da vida. perde-se muitos detalhes, meu bem.”

    “eu tenho fé na humanidade. eu sei que é tolice, mas eu tenho. tenho porque se não tivesse, como seria? é besteira confiar em alguém, mas acho que eu sinto a necessidade de fazê-lo. e eu confio em você.”

    eu confio em vc! (só p deixar beem claro)
    e eu amei o texto!
    adoro as suas cartas! 😉
    :*!

  4. Tiago disse:

    oi PI
    faz tempo que nao deixo meu comentario aqui,gostei do texto e na frase “acredito que é na repetição do que foi dito que o que foi dito se mostra algo constante e não apenas algo de momento.” disse o que a primeira parte do texto simboliza saca? quando li a frase meio que fiquei parado e reli umas 5 vezes, sou meio paranoico as vezes com frases.
    e bem, seguindo o texto me deparo com o silencio da ida ao aeroporto, todos nós, nçao tem ninguem que nao tenha passado por uma situação como essa e alem de ser estranha no momento, de certa forma fica na memoria. e a frase que me pegou no momento foi a “quando eu era mais novo eu pensava que eu sabia conviver bem com silêncios ” me lembrou um escritor britanico que a tempos nao leio, me esqueci do nome agora, dps te digo.mas o que é a memoria senao uma coleção de criação propria, moldamo-as conforme nossa vontade, mas quando ela é bruta, real, se torna mais vivida, mais experiente.
    e daí na metade se torna esperançoso,algo que me fez putamente lembrar o filme que vi ontem por sinal ( existe coincidencias?? ou deja vu espontaneos??) que se chama A Fraternidade é Vermelha (te recomendo se nao viu de locar), que faz parte da trilogia das cores, enfim dps o texto vai colecionando momentos da memoria que fazem com que eu prossiga a leitura, e como vc falou, eu que tava achando o começo triste, acabei por gostar do final. super ultra Valsa de Bashir (outro filme que te recomendo)!!!
    FLW
    TIAGO

  5. nelsonnetto disse:

    “porque ninguém vive bem na penumbra da vida.”

    “eu não sei se é verdade, mas eu acredito, porque é isso que eu faço.”

    cara.
    muito bom!
    muito bonito!
    e as influências só enriquecem véi…
    manuel bandeira dá um quê de verdade na história. deixa mais sincera, mais real.
    ficou foda, man.

    força e honra.

  6. Eu me vi em tantas coisinhas desse texto 😛
    Pq eu não acredito em “eu te amos”, mesmo que eu peça pra ouvir eles. eu pergunto se vc lembra das coisas. Mas eu sei que algumas delas vc nem lembra.
    O que eu sei mesmo é que as nossas vidas amorosas são tão melhores nos nossos textos. Quero ser ignorante pra finalmente achar que eu sou feliz. Pq ninguém é feliz de verdade.
    e sabe do que mais? Eu sou um mesclado de coisas…e uma parte dessas coisas é esse texto.

  7. Jaque disse:

    Vim parar aqui sem esperar. Li um texto seu, me empolguei, e comecei a ler outros… li com muito gosto.

    ^^

  8. livia disse:

    tu sendo “fofinho” é o melhor.
    muito bom isso, rapaz!
    a citação ficou muito boa.
    :]

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