a última carta a Ela.

é assim porque tem que ser. não há nenhum outro motivo para as coisas. é preciso que seja assim, não há como mudar. faz parte das coisas da vida. como o billy pilgrim. “coisas da vida”. poucos de vocês saberão de onde ele é e o porquê de eu escolhe-lo, talvez nem eu saiba direito dessas coisas, mas aqui está, escrito com minhas palavras, minhas mãos, meu lápis – porque eu nunca consegui abandonar essa mania de grafite. não sei como se escrevem testamentos verdadeiros. na verdade, isso não é um testamento. é apenas uma carta aberta aos vivos. espero que estejam todos confortavelmente sentados e os que estão em pé, por favor me desculpem pela falta de espaço. escrita por mim hoje, na madrugada do dia tal do ano tal, sem nenhum conhecimento de quando minha morte vai chegar, apenas pela diversão de ter o que escrever. pobre daquele que sabe e vive com medo, vive apressado, vive sabendo. todos sabem que o saber é o verdadeiro perigo do mundo. conhecimento é a arma mais usada para a autodestruição.
espero ter chegado a idades mais avançadas que a atual. por incrível que pareça, eu quero envelhecer mais ainda e sofrer ainda mais as conseqüencias da última grande piada da vida. espero que minha mulher esteja bem se não estiver morta. e sei muito bem que ela sabe o que fazer hoje, já que eu não posso guiá-los e entretê-los no meu funeral. espero que meus filhos, os dois, tenham netos, assim terei bisnetos na época da minha morte.
lembro do nascimento de todos. o menino nasceu no segundo ano do nosso casamento, depois que Ela parou de usar as pílulas e estávamos em empregos estáveis e viviamos uma vida confortável. do jeito que pode parecer completamente entediante para boa parte das pessoas, especialmente os jovens que sempre acham que viver a vida é se arriscar todos os dias, mas que para mim – e espero eu para Ela também – foi a realização de um sonho. ele nasceu numa quarta feira, às 16:43. a obstetra foi uma colega de turma, uma das poucas com quem eu ainda mantinha contato depois de formado. chovia e era março. ele veio fechando o verão. foi o que alguns disseram. alguns são bregas e caem em clichês, mas eles não deixam de ser verdades. depois do verão, como todos sabem, veio o outono. como estamos onde estamos – e espero morrer onde tanto pedi para morrer, senão tudo isso estará errado e meus planos falharam. abortar plano, abortar plano – outono não existe, nem primavera, e mal existe um inverno. existe a estação das chuvas e a estação do sol. ambas têm dias quentes e noites que entremedeiam o quente e o confortável. o menino saiu a cor da mãe, os olhos do pai. levamos ele para casa.
um ano e meio depois, o menino cabeludo a andar e falar pela casa, aproveitamos uma noite em que a avó materna tomou conta dele para que eu e Ela pudessemos relaxar e fizemos a menina. ela saiu depois de nove meses, auxiliada pela minha amiga, num sábado de sol no meio de agosto, às 10:07. era linda como um raio de sol atravessando um prisma. ela parecia pegar o melhor de nós dois: era a cara da mãe e graças aos bons genes, quase nada ruim do pai. lembro dos dois crescendo belamente. das brigas estúpidas por causas bestas. lembro muito bem do dia em que a menina quase arrancou um pedaço do braço do menino com uma dentada. o menino chorou por toda a noite e a menina, com a boca ensangüentada, foi colocada de castigo por um mês. depois disso eles se aproximaram, por mais incrível que pareça. tornaram-se amigos, aceitaram o fato de serem irmãos.
lembro de quando conheci a mãe deles. ela vinha linda do trabalho. usava suas roupas normais e eu a vi e pensei que jamais conseguiria dizer a ela o quanto ela era a melhor visão que eu tive naquele inferno. quase não falei isso, mas tomando coragem de não sei de onde, sentei ao lado dela e disse que ela era provavelmente a pessoa mais interessante daquele lugar e que eu adoraria conhecê-la. acho que nunca passei tanto tempo conhecendo uma pessoa. isso foi há mais de 35 anos, mas lembro de como seu cabelo negro caiu sobre os seus olhos por um tempo e você teve que ajeitá-los para melhor me olhar nos olhos e foi aí que eu pensei: ok, acho que ela não deve achar que eu sou um maluco qualquer abordando-a, acho que ela realmente está ouvindo o que estou falando. falei pra você sobre o que eu fazia, o que estudei, onde comecei a trabalhar e essas coisas que você não sabia. você me falava das tuas coisas e começamos a nos conhecer naquela noite. foi bom. com o tempo, é claro, fomos nos conhecendo mais e mais. descobri teus medos e você os meus. e nos dissemos coisas para afastar tais medos: “quando vier o despertar, é claro que eu protejo você.”; “sim sim, se você começar a ficar demente eu te ajudo a se matar.” nós sabiamos exatamente o que falar um para o outro, sabíamos que presentes dar, que frases escrever nas dedicatórias. quais nossos ficcionistas favoritos, as bandas favoritas, os poetas favoritos. sabíamos de todas as besteiras que pouca gente consegue saber sobre seus parceiros mesmo depois de anos de casados. e sabíamos dessas coisas antes mesmo de casar. eu fiquei chocado por você não ter lido certas coisas e você ficou chocada por eu não ter lido outras e, juntos, lemos cada um suas coisas, formamos nossa biblioteca. cada um com seu trabalho, ambos compartilhando as paixões. foi depois de dois anos juntos que eu escrevi um pequeno discurso sobre como era maravilhoso estar com ela e sobre como era ela quem me dava esperanças para sustentar todas as minhas maiores vontades e torná-las realidade. e que não estar com ela era sentir medo, fraqueza, e meu corpo suava e esfriava. era ela quem trazia calor à minha vida. e foi assim que eu a pedi em casamento. até hoje ela diz que lembra de cada palavra que eu disse, mas eu não acredito nisso.
lembro de quando o menino passou no vestibular e saiu da cidade em que estavamos morando. Ela chorou como se tivesse perdido um pedaço da alma. dois anos depois foi a vez da menina. ficamos sozinhos pela primeira vez em quase 20 anos de casados. não sabíamos o que fazer com o peso daquela ausência. os dois filhos estavam vivendo a vida como maiores de idade, responsáveis por si mesmo, noutras cidades, com outras pessoas. foi nessa época que o menino engravidou a mocinha com quem namorava desde os tempos de colégio e que se mudou com ele quando ele se mudou, porque passaram juntos no mesmo curso e essas coisas. o menino estava seguindo os passos da mãe na carreira, já a menina seguia meus passos como eu sempre disse para ela não fazer, mas ela puxou o meu temperamento e quando quis quis realmente. era uma jovem esperta, inteligentíssima, de verdade, e disciplinada. a mãe foi a melhor influência nessas horas, porque todos aqui sabem como eu sou indisciplinado e preguiçoso. ou era, vão mudando os tempos verbais para adaptar ao atual momento em que lêem a carta.
meu primeiro neto nasceu numa madrugada escura de junho, às 2:32. mais uma vez com minha colega. minha nora pariu o garoto e quase não agüentou. salvamos a vida dela por muito pouco. isso faz 13 anos. há 8 anos nasceram as gêmeas do menino. já não foi minha colega quem as segurou pela primeira vez. minha colega precisou do meu auxílio há 12 anos. diagnosticamos um câncer de pâncreas. ela não resistiu muito tempo. quem fez o parto foi a menina minha filha, que estava terminando a faculdade e quase casando com o marido dela. acho que tivemos sorte com as escolhas dos nossos filhos. nunca tivemos problemas com eles. eu poderia falar sobre os dois e falaria muito bem de cada um. eles têm meu carinho e meu respeito.
eu lembro de uma noite na cama com Ela. foi há pouco tempo para mim. estávamos os dois deitados assistindo a um seriado bobinho que passava na televisão. Ela disse que nunca havia visto aquele seriado antes e eu lhe disse que ele havia sido cancelado quando eu tinha 13 anos. não sei que canal resolveu desenterrar aqueles episódios, mas foi muito bom porque naquele dia Ela soube perfeitamente tudo sobre como eu queria que fosse hoje. e se vocês estão ouvindo a carta é porque ela continuou me amando e respeitou as minhas vontades. eu disse a Ela que haveria Noel Rosa e Led Zeppelin no meu funeral e Fernando Pessoa. não mais que uma hora seria sua duração. o tempo perfeito seria os onze minutos de In My Time of Dying, os três minutos e pouco, acho, de Fita Amarela e o tempo de alguém, queria que fosse Ela, recitar Quando vier a primavera do Alberto Caeiro, meu heteronômio favorito do Pessoa. além, é claro, do tempo de ler a carta. mas a carta é a parte mais desnecessária de tudo isso.
há pouco tive a iluminação. a noção de que a morte está pairando em minha vida desde quando passei da metade da expectativa de vida atual. eu não sonho com a imortalidade, seria bom, muito bom, mas eu sei que ela é impossível. quero ser, no entanto, lembrado, quero partir com a consciência de que construí coisas boas. olho para meus filhos e vejo que consegui, vejo meus netos sorrindo e brincando e sei que consegui. mas ainda há tempo para fazer mais. espero que entre o meu agora e o hoje de vocês haja muito tempo para marcar muito mais e fazer muito mais do que fiz.
acho que o pior de saber que eu vou morrer é a idéia de que Ela não estará mais comigo. sei que não sentirei mais nada, cessarei minha existência, mas pensar agora que alguma hora eu poderei não tê-la dói como doía a vida antes Dela. lembro de um dia ter visto um filme no cinema e alguém dizia como era bom ser jovem e sentir as dores da paixão. posso dizer, então, que nunca cresci e que a paixão sempre queimou em meu coração, fazendo doer sempre um pouquinho, o suficiente para saber que era aquela a dor que eu queria não parar de sentir. com Ela eu me sinto uma criança andando na montanha russa. com Ela eu ainda sinto as borboletas, que jamais entrarão em extinção, sinto a vontade louca de aparecer com centenas de balões coloridos na frente do trabalho Dela, sorrindo e perguntando se Ela está a fim de voar. quando estou perto Dela sei que todas as pequenas coisas, cada um dos gestinhos que faço, por menor que sejam, são compreendidos. quando estou com Ela eu sei que tudo vale a pena. e que não há nada de entediante em viver toda uma vida ao lado da pessoa que se ama.
essa carta é para agradecê-La por ter me dado tudo o que eu sou: pai, avô, amigo, teu marido; para agradecê-La por ter aparecido na minha vida e aceitado entrar nela. amigos, aqui está a mulher que faz uma vida inteira valer a pena. Ela é o verdadeiro significado de amor.

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5 respostas para a última carta a Ela.

  1. Marden disse:

    Porra, man…
    Dois textos seguidos assim.
    Você conseguiu de novo.

  2. Sarah Mendes disse:

    PERFEITO. Xu, esse texto tá foooda!
    Adorei o “você” e o “ela”. ;x

    “nós sabiamos exatamente o que falar um para o outro”
    “já a menina seguia meus passos como eu sempre disse para ela não fazer”
    (pareceu meu pai!)
    “dói como doía a vida antes Dela” LIIIIIIIIIIINDO!
    “com Ela eu ainda sinto as borboletas, que jamais entrarão em extinsão”
    aai, me fez lembrar das minhas borboletas!

    eu amei. muito mesmo! :***!

  3. eu nao sei.
    qual é esse significado, cara?
    cadê essas pessoas nas nossas vidas.
    Quer saber, Está decidido, quero um amor…
    desses de verdade.
    Desse, que se fazem faler uma vida!

  4. nelsonnetto disse:

    poxa man,
    foda demais.
    muito bom mesmo.

    “acho que o pior de saber que eu vou morrer é a idéia de que Ela não estará mais comigo. sei que não sentirei mais nada, cessarei minha existência, mas pensar agora que alguma hora eu poderei não tê-la dói como doía a vida antes Dela.”

    acredite, essa frase me fez pensar muita coisa.

    “juntos, lemos cada um suas coisas, formamos nossa biblioteca.”

    masessa foi muito foda!
    sei lá, mas na hora q li, pirei.
    doidera né?
    hahahahaha

    FH

  5. Lud disse:

    eu quero ser essa Ela na vida de alguém.

    “dói como doía a vida antes Dela”

    muito lindo!

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