madalena.

ela entrou no meu quarto observando tudo como vinha fazendo desde que pusera os pés no apartamento. eu havia ligado para ela há cerca de uma hora. estava esperando por ela assistindo aos programas da televisão aberta de madrugada. meu pequeno ritual masoquista. ela bateu à porta com o punho, o velho toc toc toc, nada de campanhia ou coisa do tipo. uma moça bonita. traços leves e firmes, olhos escuros, pele clara, lábios grossos, cabelos castanhos do tipo que todas as tinturas já tocaram, mas não foram extremamente fodidos por causa disso. usava uma maquiagem leve, diferente do que é o esperado para quem trabalha com o que ela trabalha. achei isso tudo muito bom, muito discreta a moça. meu quarto era o último à esquerda, depois do antigo quarto do meu irmão e quase ao lado do dos meus pais. ela percorrera os olhos por cada centímetro da sala, do corredor, quase parando para observar as fotos nos porta retratos, as lembranças de tempos que seria bom esquecer. as paredes do meu quarto são lisas com exceção de um ou dois quadros pintados pelo meu pai. ela elogiou um deles. a primeira coisa que me disse foi que o dinheiro tinha que ser pago logo. eu disse que tudo bem, gostei da atitude profissional. queria que ela continuasse assim por toda a noite, mas não foi muito assim que ocorreu. depois que lhe entreguei o dinheiro em mãos, ela o guardou dentro da bolsa que carregava e olhou minhas prateleiras cheias de livros, comentou algo do tipo “nossa você gosta de livros, leu todos eles mesmo?” e eu disse que sim, havia lido todos eles ao longo da minha vida. ela disse que gostava de ler quando tinha tempo, mas se lamentou de quase nunca ter tempo. a falação dela estava começando a me incomodar, pensei que se continuasse como estava, logo ela pegaria os porta retratos que estavam na cômoda. eu não podia estar mais certo. ela os manuseava com um certo desleixo, mas com mãos firmes, de quem sabe exatamente com que força manusear coisas frágeis. ela pegou exatamente o porta retrato que mais me embaraçava. estava lá eu criança com uma roupa escolhida pela minha mãe, fazendo exatamente o que ela mandava porque se não fosse assim eu ficaria de castigo ou qualquer coisa do tipo. eu, aos vinte e poucos anos, tinha que conviver com essa memória todo dia, porque se eu me desfizesse daquilo meus pais, provavelmente, se desfariam de mim. olhou bem a foto, enquanto fazia um paralelo entre o menino da foto e o homem que ela via em sua frente, tentando desvendar em sua cabeça o que teria acontecido nos muitos anos que separavam aquela impressão do momento atual. ela não conseguiria, eu não consigo. obviamente algo aconteceu. ela comentou algo sobre como aquela foto era fofa.
“sei, sei.” tirei o objeto de sua mão, coloquei-o sobre o móvel, com a foto voltada para baixo. “não mecha em nada. se quiser tomar um banho, o banheiro fica logo aqui.” abri uma porta que mostrava o meu banheiro. “se não achar necessário, acho bom começarmos logo.”
(uma coisa sobre mim: em todos os meus anos de vida eu nunca me envolvi seriamente com ninguém. nunca mantive relacionamentos que durassem mais que poucas semanas – acho que o maior deles durou 6. tudo acabava ou pouco antes de eu conseguir o que eu queria – e aí eram elas que acabavam – ou pouco depois de eu conseguir o que eu queria – nesse caso eu acabava para evitar um compromisso, fugir de coisas que eu não queria desde o começo, mas menti dizendo que sim, que estava querendo um relacionamento sério e essas merdas todas que os acompanham do tipo visitas aos parentes, almoços em família e tudo mais. acho que pela minha aversão a essas coisas eu sempre acabo como naquela noite, com uma completa desconhecida mechendo nas minhas coisas, querendo forçar uma intimidade que nós dois nunca iremos ter.)
ela disse que tomaria um banho rápido e depois viria para mim. eu disse que ótimo, tinha separado um sabonete novo e uma toalha limpa para ela e que estavam ambos em cima da pia. ela foi para o banheiro sem fechar a porta. eu entrei e fiquei da porta observando a silhueta do seu corpo por trás do box. ela falou alguma coisa sobre susto quando me viu ali parado na porta e perguntou se eu queria começar ali. eu disse que estava tudo bem, que por enquanto eu queria que ela só terminasse o banho. ela começou a me fazer perguntas sobre meus gostos, sobre minhas músicas. eu respondia a todas elas com frieza e impaciência. mas ela continuava até que uma hora eu saí do banheiro e fui deitar na cama um pouco para poder voltar a ouvir as vozes na minha cabeça.
ela saiu do banheiro usando um robe tirado de não sei de onde, acho que ela trouxe com ela na bolsa – a bolsa que me preocupava porque eu não confiava nela e em seu jeito observador e atento, a bolsa que poderia facilmente ocultar qualquer objeto que minha mãe ostenta pela casa e que ela ache lindo demais e queira levar para ela ornamentar sua casa, seja lá onde for. abriu o robe e não usava nada por baixo. ela falou alguma coisa sobre como ia me enlouquecer e eu disse “tá, tá.” impacientemente enquanto tirava a cueca que estava se tornando apertada. ela fez aquela cara fingida de que estava vendo o maior pau do mundo, elogiou-me e chegou perto. então eu disse para ela não falar muito e ocupar a boca. ela colocou a camisinha com a boca e começou o serviço todo. tudo muito bom, tudo muito bem. até que uma hora aquela chupação toda encheu o saco e partimos para a penetração. foi aí que ela voltou a falar. e ela gemia coisas que supostamente deveriam me estimular a desejá-la mais e mais, mas não conseguia ter o efeito desejado, apenas me desconcentrando com o tom irritante de sua voz. depois que tudo terminou deitei-me na cama e, parecendo o maior dos clichês, ela perguntou se poderia fumar ali. eu disse que tudo bem, mesmo sabendo que depois teria que explicar o maldito cheiro insensando o ar e as colchas. fiquei deitado por um tempo, em silêncio, ouvindo  enquanto ela foi tomar um segundo banho. moça limpa. depois, ela saiu do banho, sentou-se na minha cama, olhou bem fundo nos meus olhos, numa tentativa de me entender. mas ela não conseguiu, jamais conseguiria. pediu para eu ligar para um táxi. prontamente liguei. ela passou mais cinco minutos no meu quarto, se arrumando, se vestindo, derrubou suas coisas na minha cama e foi arrumando como se para provar que era uma moça honesta, que não precisava roubar, que o dinheiro que eu lhe pagara era só o que ela precisava, arrumando para que tudo coubesse bem novamente na bolsa para que seu robe não ficasse volumoso demais, para que sua carteira não ficasse quase saindo e essas coisas todas. então, depois de tudo organizado, levantou-se, disse que o taxi já devia estar perto e que ia descendo. achei ótimo. levei-a até a porta, perguntei se queria que eu descesse com ela. ela disse que tanto fazia. resolvi que não deveria descer. despedi-me dela agradecendo a noite, dizendo que depois ligaria novamente para ela e qualquer coisa assim. ela sorriu ao me dizer tchau e desejar uma boa noite. eu não sorri, só lhe disse um até logo com som de adeus. entrei no apartamento, tranquei a porta, sentei na sala, onde a tv ainda estava ligada, porém muda. as imagens de um homem de bigode segurando uma arma apontada contra outro cidadão se projetava em meus olhos. mudei de canal à procura de qualquer outra coisa que não me fizesse pensar e comecei a ver um pastor falando sobre abençoar a água que está sobre a televisão.

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6 respostas para madalena.

  1. Marden disse:

    Moça limpa. Uma verdadeira profissional.
    Ah, e gostei da participação especial oculta do mestre Charles Bronson no finalzinho.

  2. Marden disse:

    Ah sim, ia esquecendo. A moça da vida é mais decente que o cliente.

  3. Lud disse:

    O cliente é meio chato, né?

  4. nelsonnetto disse:

    “ela os manuseava com um certo desleixo, mas com mãos firmes, de quem sabe exatamente com que força manusear coisas frágeis. ”

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHH

    foda demaaais!
    tipo: ela sabe.

    “eu não sorri, só lhe disse um até logo com som de adeus.”

    não que nesse caso seja algo oh meu deus, mas é mal quando essas coisas acontecem.

  5. Sarah disse:

    acho que esse cara precisa de um amor.
    muita realidade é um saco! hahaha
    ;**!

  6. Lah disse:

    poxa. devo repetir as palavras da sábia sarah: “acho que esse cara precisa de um amor.”

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