Azul.

ela me dizia coisas que eu nem acreditava. digo… elas todas eram absurdas demais! absurdas como é absurdo, para mim, acreditar que há um ser mágico misterioso invisível que vive em todos os lugares ao mesmo tempo e que sabe de tudo de todo mundo e que inteligentemente desenhou tudo e cada coisa que existe no universo inteiro. ela dizia coisas assim! e o pior de tudo… ela não me deixava rir dessas coisas. maioria das pessoas nunca deixa que alguém que não crê ria das crenças dessa pessoa porque é um tipo de ofensa gravíssima ou coisa do tipo. mas eu sei que há certas coisas que eu acredito que outras pessoas não acreditam e, sinceramente, o fato de rirem nunca me abalou muito quanto a essas minhas crenças. às vezes, quando estou numa crise de fé, eu penso se aquilo é realmente algo correto, mas os argumentos contrários nunca foram nada além de inconclusivos, subjetivos e meras impressões. mais fácil continuar acreditando no que eu acredito que nessa nova crença. mas não envolve super seres. apenas coisas invisíveis. apesar dessas coisas todas, ela era uma garota sensasional. linda, cheirosa e peculiar. quando digo peculiar eu quero dizer estranha. estranha não só pela crença já citada, mas por outras também. ela, com seus olhos castanhos e pele morena olhava o mundo de uma forma tímida como se ela não pertencesse àquele lugar, como se não encaixasse em canto nenhum desse quebra cabeça maldito que é a vida, e teimava em dizer, como se fosse dona das verdades do mundo – como se o mundo tivesse verdades secretas guardadas a sete chaves por uma criatura mágica, dessa vez visível, para variar. não, ela não acreditava nessas coisas. alguém acredita? bem… pensando bem… alguém deve acreditar. acreditam em tudo nesse mundo. acreditam até que há muito tempo um planeta explodiu e todas as almas das criaturas migraram para a terra, onde agora habitam e reencarnam como seres humanos ou coisa do tipo. mas ela não acredita nessas coisas não. ainda bem. digo… acho que vai contra os princípios dela de crer que fomos postos aqui e descendemos de uma “mulher costela” e um cara altamente influenciado por ela que comeram um fruto que dava de uma árvore logo depois de serem tentados por uma serpente com pernas e foram expulsos do jardim que eles eram jardineiros. enfim… ela me fazia rir sempre. não apenas com suas crenças, afinal, se fosse assim não teríamos ficado um tempo juntos como ficamos. foram bons dias aqueles, sabe?  mas dias, não importa quão bons ou ruins, sempre têm vinte e quatro horas cada. eles viram outros dias e outros dias e outros dias. até que em determinada hora um deles não é tão bom assim e o outro continua no ritmo do anterior e tudo o que havia de bom não fica tão bom quanto era antes. as coisas mudam de uma forma estranha e rápida e ruim. é sempre assim. ela me fazia rir de uma forma positiva, com piadinhas que ela fazia e que eu entendia e, às vezes, somente eu entendia. nossas internas. nós adorávamos essas coisas todas. acho que era isso que nos caracterizava como éramos. se você me perguntar hoje quem foi ela eu responderei que ela foi uma série de piadas, quatro vezes quarenta e quatro risinhos e seu céu.

ela tinha um céu só dela. céu não é o paraíso, mas o céu mesmo. aquela parte azul que fica flutuando logo acima das nossas cabeças, onde ficam as nuvens e essas coisas todas. era no céu que fazíamos nossas coisas, vivíamos uma vida. era nosso cantinho da paz. era bom estar no céu só com ela. no céu eu sentia a vida passando de uma forma melhor e lá vivemos os tais melhores dias que eu falei. mas antes de seguir, apesar de não ter muito mais o que falar, deixe-me explicar o que era esse céu. o céu era o seu quarto. pintado todo de azul feito um céu. e à noite estrelas brilhavam no teto. era nosso passatempo deitar na cama dela, apertando-nos naquela cama de solteiro, e contar as estrelas enquanto ouvíamos a noite contar seus segredos a nós dois. luzes apagadas, porta trancada, pais dela dormindo no quarto em frente e nós dois contando “um, dois, três.” e apontando e inventando constelações “constelação do rabo de porco; constelação da senhora penteando o cabelo enquanto cento e setenta e três gnomos bêbados a esperam para jantar”. ouvindo o som do ventilador dela, às vezes do ar condicionado, às vezes de carros acelerando, freiando, queimando pneus madrugada à dentro, ouvindo-a respirar, cair no sono, ressonar, acordar assustada com algum sonho ruim, vê-la se mover, quase me derrubando da cama, às vezes derrubando, me fazendo ir sentar na cadeira do computador e ficar ali parado simplesmente olhando enquanto ela remanchava na cama, espreguiçava-se , enrolava-se e dormia até o sol nascer e eu muitas vezes adormeci na cadeira pensando na vida e em como certas coisas são engraçadas, em como havia pessoas absurdamente lindas que acreditavam nas coisas mais bizarras, em como ela era algo no qual eu acreditava.

pode rir. pode rir dessa minha crença ridícula que eu cultivava. eu realmente acreditava nela. fui tolo, claro. hoje sei, mas à época eu só podia acreditar. você tinha que ver como ela falava, a maldita. dizia no meu ouvido coisas que hoje sinto azia só de lembrar. e eu acreditava nas tolices. acreditava que ela era bobinha e bonitinha e charmosa com todas as coisas dela. acreditava que ela era azul! azul, pela puta que pariu!  que tipo de idiota crê que está amando uma pessoa azul? acho que só eu… mas eu estava bastante errado. ainda bem, acho. eu vivia errado naqueles tempos. às vezes me faz falta lembrar dela. porque eu sei que hoje o céu ainda está lá, azulzinho e lindo como ela sempre manteve, mas agora ele não é mais o meu cantinho com ela. hoje em dia não mais conto quarenta e quatro estrelas no céu. às vezes eu sinto falta disso. sinto falta de morar no azul dela, sabe? eu sempre fui só dela, ela não foi sempre só minha, mas isso às vezes é só um detalhe sem importância. não para mim, é claro. para mim cada detalhe é mais importante que um quadro inteiro. porque… sem eles não se faz aquilo, entende? é… soa como uma das grandes besteiras que eu falo. talvez seja, mas pelo menos eu sei admitir essas cosias. tem quem não consiga, sabia? tem quem ache que é o dono de toda a verdade que existe e que ninguém mais pode acreditar em nada além do que aquele cidadão prega ser a verdade verdadeira. ela não era assim… ela ficava com raiva quando eu ria, mas nunca ficou querendo me impor nada. era uma garota tão boa, um relacionamento…engraçado…acho que tudo o que eu digo para você são as coisas das quais sinto falta. no fim, você vai me dizer que eu sofro tanto porque assim eu quero, que eu tenho problemas para resolver meus conflitos do passado e estou cheio de coisas inacabadas. mas me diz… não estamos todos nós?

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

5 respostas para Azul.

  1. Sarah Mendes disse:

    “no fim, você vai me dizer que eu sofro tanto porque assim eu quero, que eu tenho problemas para resolver meus conflitos do passado e estou cheio de coisas inacabadas. mas me diz… não estamos todos nós?”

    é… quem não está? 😡
    (L)

  2. Tony disse:

    eu concordo absolutamente em TUDO dito sobre as coisas das crenças. nao tem nada mais q me irrite em alguem do q a falta de noçao e bom senso pra certas coisas… religiao é uma delas.

    e quando a mulheres e ao amor… indefinivel. mas, vc nao controla seus sentimentos, mas pode controlar suas açoes. é isso q vou fazer agora.

    texto foda, man.

  3. Marden disse:

    Muito bom, man.
    Ficou foda o jeito como cada paragrafo fala de uma coisa diferente mas se complementam.

  4. nelsonnetto disse:

    tem seus momento sim.
    e eu gostei de todos eles.
    escrever sempre mais de 1000 caracteres é algo que exige muito véi, e vejo você se exigindo isso.
    o texto está azul. algo indefinível, mas confortante.

    FH

  5. Lah disse:

    e como estamos…

    =**

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s