lonoff, graça e melo neto.

não há muito o que dizer. isso é mais um exercício para ver até onde eu consigo me estender sem idéias e o quanto vocês que estão me lendo conseguem me agüentar sem elas. porque eu não me rendo fácil às coisas, por incrível que pareça. e talvez tudo isso esteja extremamente fora de contexto, mas tudo há de fazer sentido alguma hora, talvez, espero. há muitas coisas na cabeça agora e poucas preocupações sérias. são quase quatro da manhã e isso não quer dizer muita coisa além disso mesmo. para alguém, tal informação pode ser preciosíssima, enquanto para mim… para mim só quer dizer que, por mais uma noite, eu consigo me manter acordado até horários em que o mundo inteiro parece dormir e só resta eu e a solidão para me fazer compania. e nós conversamos, eu e ela, sobre tudo o que se pode imaginar. nós nos falamos como velhos amigos que se encontram num bar e resolvem sentar e tomar algumas bebidas antes de cada um voltar ao seu caminho tendo trocado telefones que nunca serão discados, depois de marcar saídas que nunca acontecerão, criar planos que serão frustrados não pela falta de vontade de ambos, mas pelo simples fato de ser assim que as coisas são quando tudo é do jeito que é. um tanto confuso, um tanto repetitivo, mas é isso que faço e é assim que sou quando não estou criando uma história boba sobre alguma mulher que nunca existiu, mas que ainda assim possui um pouco ou um tanto das mais importantes damas da minha vida. eu sou um cara vazio como a madrugada.

todo o barulho que ouço é o do ventilador às minhas costas, não há músicas tocando e nem carros na rua. cada tecla sendo apertada se faz alta nessa noite, meus dedos estalam vez ou outra, meu pescoço também, minhas costas tensas começam a doer e eu preciso de uma noite longa de sono antes de seguir. eu preciso de algumas certezas que eu não sei quando terei, preciso acabar com os medos que tenho de vez em quando, acabar com um pouco de toda a dor que não existe, mas que eu teimo em criar porque é isso que eu faço: invento coisas que não existem para me atormentar. mas eu também me atormento com o passado, com as lembranças das coisas todas e as incríveis possibilidades. eu vivo pensando no que eu mais tentava evitar há um tempo: tudo o que deveria ter sido e não foi. toda a vida que não aconteceu para mim porque assim não devia ter sido, mas que um dia eu sonhei que teria. os sonhos frustrados que tive e tenho. porque não é fácil livrar-se de frustrações. elas nos acompanham onde quer que vamos, como sombras, pensamentos, como nós mesmos.

na mesa há uma caneca vazia, uma bandeja vazia, uma tela vazia. há baratas e músicas e papéis. e eu me apóio nela para escrever tudo o que eu preciso, para abrir a mente e dizer, ou ao menos tentar fazê-lo, que esse exercício de nada está indo melhor do que eu esperava.

hoje eu pensava sobre a vida, sobre como eu preciso melhorar. é necessário, para mim, investir mais em outras formas de cultura além da música, literatura, cinema e arte seqüencial. e não que eu entenda bem dessas quatro, longe de mim, não há nada no cinema que eu entenda, mas é uma boa forma de unir algumas das artes que não aprecio tanto (como o teatro) às artes que amo como literatura (bons roteiros, bons roteiros são boas palavras, boas idéias) e música. as artes plásticas se oferecem a todos como uma puta, qualquer um pode vê-las, cobiçá-las, amá-las ou odiá-las, muitos podem se comover e uns poucos podem tê-las, mas eu não consigo me comover com um sorriso pintado, uma mão esculpida. uma vez eu disse a alguém que eu não conseguia me comover com uma imagem apenas, o texto se faz fundamental sempre, a música quase sempre. sinto que preciso entender de luzes, enquadramentos, sequenciamento, tempo, preciso entender um pouco de teoria musical, preciso saber comos, quandos e porquês de determinadas coisas para crescer não só como alguém que ama a literatura e sonha um dia poder escrever alguma coisa publicável, mas como alguém, simplesmente. talvez não concordem comigo, é bem provável.

esse ano li alguns livros de um escritor americano, judeu, chamado philip roth, e achei que ele abordava assuntos de uma forma sensacional. admirei o jeito como ele conseguia fazer seus personagens extremamente humanos e cheios de defeitos e completamente carismáticos e me inspirei nele muitas vezes nos desenvolvimentos de alguns “contos” que estão por aqui. foi com um dos personagens que ele criou, o escritor e.i. lonoff, que me peguei pensando em como eu sou fraco para o ofício de escritor de verdade. eu não estou pronto para ser um solitário como a literatura precisa que eu seja, não estou pronto para me dedicar a ela e somente ela. ainda tenho sonhos demais para isso. ainda sonho um dia ir a hospitais não para visitar, mas para trabalhar, cuidando de cânceres ou sistemas nervosos ou o que quer que eu termine me tornando. há dias em que tudo o que desejo é que me descubram, que me tirem desse buraco negro literário que é a internet, sugando tudo que há e transformando tudo em coisas que ninguém entende; que me joguem, então, em folhas de verdade, pedaços de papel, espaço físico, que é o que as palavras merecem, porque elas têm força e poder e são tudo o que tenho e tudo o que todos e quaisquer um têm: palavras. mas eu acho que não estou pronto. há dias em que tudo o que quero é me dedicar só e somente à medicina, mas eu não consigo isso porque… bem… porque eu nunca consigo me dedicar inteiramente a alguma coisa. o e.i. lonoff, de roth, ídolo do zuckerman, um escritor iniciante, mostra a todos que a literatura não é para os fracos pouco esforçados e distraídos como eu. ao perceber isso sinto-me uma fraude, o que é uma piada pretenciosa, porque para achar que eu sou algo merecedor de riso devo considerar o que escrevo literatura. podem rir, podem rir.

não apenas o americano roth me faz pensar na engenharia das palavras. com a frase anterior, obviamente todos deveriam saber que joão cabral de melo neto se envolve em seus versos com o mesmo empenho do ficcional lonoff, do real graciliano. não, eu não tenho talento para passear de escritor em escritor, mas um me levou ao outro e ao outro. graça escrevia como as lavadeiras de alagoas lavavam roupas; joão cabral polia o poema como uma pedra, lonoff reescrevia a mesma frase quinze vezes. processos de aprimoramento que requerem mais tempo e paciência e amadurecimento do que tenho.

esse meu exercício é para todos que, como eu, amam a escrita, a literatura, mas sabem que não podem depender dela para suas vidas. conheço pessoas que entendem que a literatura exige dor e sacrifício, exige a lapidação que eu nunca tive paciência de fazer, pessoas que fazem pedras brilharem tanto quanto diamantes apenas com a arte do polimento. admiro-as pela paciência e gostaria de ser como elas, mas não consigo.esse texto vai para a única verdadeira polidora de palavras que eu conheço e que há tempos não leio. esse texto é um pouco para dizer que a admiro, um pouco para dizer que acredito nela, e que um dia espero crescer para me tornar alguém como ela.

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4 respostas para lonoff, graça e melo neto.

  1. Marden disse:

    É man, eu entendo. dedicação também é um problema para mim. Distrações, distrações…

  2. nelsonnetto disse:

    “eu sou um cara vazio como a madrugada.”

    foda!

    destaco o segundo paragrafo inteiro.
    FOOOOODAAAA!!!
    queria, de verdade, ter escrito ele. :~~

    parece que você escreveu essa parte num dia diferente que o(s) dia(s) do resto do texto. não só pelas dicas de precisar de uma noite de sono ou “hoje eu pensava sobre a vida”, mas porque quando escrevemos até mesmo sobre algo definido em diasdiferentes – não dias como 24hs giro de terra blablablá, mas estado de espírito ou algo assim – a gente sente no texto uma diferença e espera que as pessoas (não) notem, saca?

    o que eu ia dizer é que gostei mais da primeira parte.

    ficou bom o exercício, mas parece que ele deixa de ser exercício a partir de quando vc decide sobre o quê finalmente vai ser o texto. dá pra ver até pelo título.

    achei o primeiro foda e o segundo normal (e gostei da parte que falas sobre as artes. em especial as plásticas).

    FH

  3. isabelle disse:

    Excelente texto, traduz muito do que sinto também. Concordo com o comentário do Nelson. Acredito que a primeira parte do seu texto está ainda mais foda, talvez por estar mais literário, mais artístico.

  4. isabelle disse:

    Vou te adicionar no Blogroll do shenerds, espero que não tenha problema. 😉

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