maria engolia.

era uma vez uma mulher que engolia. começou a engolir cedo. no início insistia com as coisas normais, líquido amniótico e coisas do tipo. assim que saiu de onde todas as pessoas do mundo saem e quase todos os homens passam a vida tentando entrar, começou a engolir o leite da mãe: o primeiro, mas não o preferido, e certamente não o mais consumido ao longo dos anos. o tempo foi passando e ela foi desenvolvendo suas habilidades de engolir, fazendo-o cada dia mais e mais. enchia a boca, às vezes, até não caber mais nada, até o fundo da garganta, até quase vomitar, mas não o fazia e terminava sempre engolindo tudo. enquanto crescia ia conhecendo novas coisas para se engolir, novos sabores, o doce, o amargo, o salgado, o azedo, o ácido e a adstringência. estava na entrefase menina-mulher, a chave de cadeia de muito marmanjo, o momento exato em que se descobre que a vida tem muito a oferecer além daquelas coisinhas que vinha colocando dentro de si até então, havia os prazeres e as dores e ela queria absorver tudo o que podia, havia demasiada gula em sua alma, queria engolir o mundo e estava num momento  em que acreditava ser capaz, quando a fome de vida ainda não faz engolir os pequenos regurgitados de tédio, e o estômago faz por bem embrulhar tudo numa náusea só, era uma vez uma mulher que engolia.
dias passavam enquanto ela crescia e se tornava um projeto de alguém. e em nenhum desses dias maria, porque esse era seu nome e nenhum outro nome ela teria se não esse mesmo, deixou de engolir sequer uma vez. havia em seu olhar um constante desejo, uma vontade intensa e imensa de querer aprender sobre a vida, as inúmeras formas de se devorar e se engolir. quando tinha fome, engolia os sólidos, quando tinha sede, engolia os líquidos. com ela sempre foi assim e não havia outro jeito de sê-lo. às vezes, parecia impossível saciar seus desejos, às vezes parecia não ter nenhum. a vida com ela era de extremos com apenas uma constante: o engolir. não havia disfagia (progressiva ou não) ou odinofagia que a fizesse parar de engolir. engolia todos os dias, para crescer, para aprender, para passar o tempo, para o que quer que fosse. e por entre os dias ela vagava em cima de passos tão certos quanto os vapores dos cigarros que ela fumava só por odiá-los nas bocas alheias, mas ela engolia a fumaça, nos bares todos – entre um copo de álcool e outro, enquanto ficava ébria como achava que todos deveriam sempre estar -, com todos amantes e amigos, e um dia trouxe a fumaça para si. engolia-a com uma fúria só sua, como se o mundo inteiro fosse culpado por aquela fumaça, pelo escurecimento dos seus pulmões. ela engolia outros tipos de fumaças, todos os dias, a cidade grande lhe fascinava por oferecer tantas oportunidades de engolir as coisas novas que ela tanto sonhara conhecer, explorar o desconhecido. foi na cidade que aprendeu que a vida que queria não era como em seus sonhos de menina moça, as coisas não seriam todas maravilhosas e fáceis de engolir. com o tempo passando e nada aparecendo além de pequenas rugas em sua pele, ela entendeu que o mundo era grande demais para ser engolido e que tudo o que tinha era muito pequeno. percebeu-se impotente diante de tudo o que a cercava, notou que sonhos às vezes permaneciam na terra de morfeus e de lá não se moviam e foi se decepcionando com o mundo, percebendo que não havia dignidade. sentia-se suja, havia em si uma imensa vontade de ser punida. punida para conquistar a redenção. por uma razão qualquer, queria pagar de alguma forma por tudo o que engolia. como se cada vez que houvesse engolido alguma coisa, tivesse pecado, e com seu sofrimento e a humilhação, alcançaria a redenção que buscava. queria ver seu próprio sangue jorrar, suas lágrimas cairem e se misturarem a outros líquidos viscosos, sentia vontade de engasgar, porque acreditava que se tornaria merecedora de tudo o que um dia engoliu e do que engoliria. assim, com esse desejo de autodepreciação, foi que ela conseguiu vários amantes, alguns amigos, todos prontos para explorar suas vontades de engolir, seu estranho desejo de rendição. arranjou várias cabeças, vários corpos, vários membros, grandes e pequenos, finos e grossos, e os engoliu todos, quanto mais, melhor. maria queria o mundo em sua boca, saboreá-los todos e crescer com isso.
um dia um homem que se achou amigo – amante – dela lhe perguntou o porquê daquele desejo, o que ela acreditava realmente estar alcançando ao fazer aquilo. ela tragou um cigarro, deu de ombros como quem diz que não sabe direito, apesar de saber muito bem, e disse que assim era uma forma de obter conhecimento sobre todos, entender cada um. tê-lo em sua boca era o ápice da entrega completa e do conhecimento. ela o conheceria por inteiro. como se, no que ela engoliu, estivesse a essência dele, a vida inteira que ele teve e a que terá, tudo escrito na saliva quente que ele passou para ela no começo da noite em beijos quentes, no suor salgado que ela lambeu de sua barriga ao chegarem em casa depois de uma noite fora, rindo de besteiras, de brincadeiras de amigos, de filmes bobos, no líquido esbranquiçado e de cheiro esquisito que jorrou de seu membro depois de algum tempo dos devidos estímulos, líquido esse que ela sempre faz questão de engolir, que parece explicar melhor que qualquer livro o verdadeiro significado das coisas. ela engolia tudo para poder entender tudo, mas parecia nunca funcionar, o conhecimento parecia nunca chegar da maneira que ela esperada. “talvez, apenas talvez ela esteja buscando-o das maneiras erradas”, ele pensou, mas nada disse porque gostava de vê-la lambendo-o, chupando-o, engolindo-o.
esse foi apenas um dos homens que maria conheceu. havia muitos deles. eram seu sabor predileto dentre todos os pedaços de carne que teve o prazer de conhecer. e ela gostava da carne, das carnes todas, masculinas e femininas, engolia todas e gostava de todas, bem passadas ou ao ponto, quentes ou frias, tocando-as com sua língua e deixando suas papilas gustativas explorarem bem todos os nuances dos sabores. deixava cada pedaço de carne escorregar garganta abaixo. amava as carnes todas menos as que punham em seu prato nos almoços tumultuados de domingo, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, com o gosto de sal que lhe lembrava as peles suadas dos filmes a que ela não assistia, mas as trazia pra dentro porque era lá que elas deveriam estar, sempre, dentro dela. falsamente voraz, ela engolia a carne, devorava-a por inteiro. engolia como se não houvesse mais nenhum alimento no mundo. como se engolir fosse sua missão no mundo, engolia porque assim fora criada para fazer, desde que nasceu, desde que seu pai fecundou sua mãe, estava programada para fazê-lo. engolia porque vivia por isso e para isso, porque sem engolir, maria não existia. e, enquanto vivesse, maria engoliria.

texto em parceiria com Ariane. aqui está, kiddo, all done. obrigado por maria.

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5 respostas para maria engolia.

  1. Tony disse:

    sensacional.

    quero conhecer maria.

  2. M.Henrique disse:

    Maria e sua antropofagia rotineira.

    Maria e sua sina.

    Ótimo texto, Man o/

  3. Isabelle disse:

    Maria engolia pra preencher o vazio, mas nunca conseguia.
    muito bom o texto 🙂

  4. nelsonnetto disse:

    poxa…
    agora quando eu ouvir tiê cantar que já quis ser maria, vou ouvir com outros ouvidos…

    HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

    parcerias são sempre legais.
    abrem a mente.

    gostei do texto e diferente do toninho (CARAAAALHOOOOOOOO FOOODAAAA PERSUASÃOAAAAHH!!!) n sei se queria conhecer maria.

    FH

  5. Marden disse:

    parcerias são sempre legais.
    abrem a mente. (2)

    Essa maria… Sei não.
    Moças e suas necessidades.

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