A primeira vez. (texto de 04 de maio de 2009, 3:11 a.m.)

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma curta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.

a chuva escorria pelo meu rosto de traços toscos e irregulares, acumulava-se de alguma forma na minha barba rala que crescia naqueles tempos e adicionava uns poucos anos às minhas feições. era uma noite ótima para se passar em casa, deitado na cama com um bom livro, uma boa música, uma boa comida, uma boa bebida, uma boa mulher. era uma noite para se perder entre as cobertas e só se encontrar no sonhar. eu poderia dizer que foi assim que a conheci. poderia confessar que foi dessa maneira que a vi pela primeira vez: nos sonhos que tive em noites como aquela. mas eu não falo disso. seria mentira. na verdade, dizer que conhece uma pessoa sem conhecer o cheiro e o sabor de sua pele, a cor e o brilho de seus olhos e a elegância e o charme de seu caminhar é contar mentiras a quem quiser ouví-las ou lê-las. eu não faço dessas coisas. enganar é juntar-me a tantos que não quero ao redor. falo aqui da verdade, da noite chuvosa em que me molhei por inteiro (e comigo estava parte do que sou, parte da minha casa, parte das coisas que deixei para trás para ali estar) , de quando senti seu cheiro pela primeira vez (e o cheiro dela me marcou como poucas coisas marcam um homem, como poucas mulheres conseguem assinar na memória de um homem), de quando soube que sua pele era salgada de verdade, apesar de tudo o que chamávamos um ao outro, seus lábios eram salobros como a água dos rios onde me banhava nos fins de semana longínquos da minha infância.

antes daquela noite, que se parece com a que temos agora lá fora, eu não conhecia nada dela além de sua voz. antes daquela noite ela era uma idéia. há algo a ser tocado além da voz e seu olhar paralisado a milhares de quilômetros de mim. então, aqueles olhos vívidos estão agora a poucos centímetros de você, brilhantes, cheios da água que não transborda porque ainda não é a hora, mas que alguma hora certamente será. há algo em ser tocado por um olhar que nos faz pensar. digo… quando se olha pela primeira vez, ao vivo, alguém que só nos vinha em sonhos e se é olhado em retorno… deus, eu quase chego a acreditar. não há sensações semelhantes para se comparar e me fazer claro.

a chuva pingava do meu queixo e percorria o longo caminho até o chão. eu caminhava cabisbaixo, quase sem me preocupar comigo. o mundo não existia mais para mim até que a encontrei com seu guarda chuva. havia um sorriso em seu rosto. algo que dizia muito sem dizer coisa alguma. parecia muito bem me dizer “estou aqui, vem comigo que não haverá mais chuva no teu caminho, não haverá mais nuvens no teu céu, vem comigo que eu te prometo um dia seco e quente comigo.” ela sorria debaixo do seu guarda chuva, parada na esquina, esperando o sinal fechar. cheguei ao seu lado e, quando olhei bem para ela, notei que seu sorriso não era bem um sorriso, era sua expressão constante, como se tudo fosse parte de uma grande piada da qual ela sempre acha graça, mesmo quando ela sabe que não há motivos para o sorriso. por um breve momento, então, senti calor naquela noite fria. ela reparou em mim, estranho, desengonçado e feio, parado ao lado dela. viu-me como, gostaria de acreditar, nenhuma outra antes me viu. ergueu suas sobrancelhas, franzindo a testa, olhou-me nos olhos com a mesma expressão do aluno do ensino médio que tenta encontrar a solução de uma equação de segundo grau de cabeça. sem dizer uma palavra, atravessou a rua com o sinal ainda verde. não havia carros passando quando ela pôs o pé na rua, porém, quando foi minha vez, para continuar perto dela, um carro dobrou a esquina e quase me atropelou, deixando-me extremamente sujo de lama.

a chuva lá fora já parou, mas as lembranças continuam num jorro ininterrupto de imagens e sons daquela noite. imagens que sou incapaz de reproduzir em palavras ou desenhos ou qualquer outra maneira. fui amaldiçoado quando jovem. rogaram sobre mim a maldição de jamais saber como transmitir aquilo que se quer transmitir, jamais sendo capaz de compartilhar com o mundo as idéias e as lembranças da beleza que vivem na minha memória e na imaginação. aquele dia nunca estará num amontoado de palavras ou numa gravura qualquer. aquela noite e todas as outras noites repletas de beleza estarão sempre e somente na mente incapaz e falha desse que escreve.

não parece certo para mim jamais poder dizer como ela era linda e como cheirava bem e tinha tanto um gosto bom quanto um fascinante bom gosto. até hoje, seu perfume nunca ficou tão bem em outra pessoa. não me parece justo ela sempre ir embora sem que eu a conheça. não me parece justo sempre chover nas minhas lembranças. eu sempre penso no que seria se não fosse um dia de chuva, se eu não estivesse tão abatido, se ela não tivesse atravessado, se  aquele carro nunca tivesse quase me atropelado. eu sempre penso no “e se…” para não ter que viver o “mas agora…”. as infinitas possibilidades do “tudo o que podia – quase devia – ser e não foi” me fascinam mais que a entediante realidade.

a chuva não cai mais lá fora. aqui dentro ela continua, não pára, ela neva no meio do verão. lá fora está molhado das gotas que caíram e não caem mais. cada uma delas, escorrendo pelo chão, me trazem o teu cheiro. aquela foi a primeira vez que a vi. houveram outras vezes, vezes que a conheci melhor, vezes que a desconheci, vezes em que ela foi embora e uma única vez em que eu fui embora para nunca mais voltar.

mas hoje… hoje é a noite de lembrar da primeira vez.

a chuva caindo lá fora me traz hoje lembranças da primeira vez que eu a vi. era uma noite escura e eu havia passado muito tempo preso num lugar desconhecido, esperando uma crta estiada, uma breve trégua nessa luta dos céus, para que eu pudesse fazer meu caminho pela rua. trovões e relâmpagos cortavam a noite, tornando-a turbulenta e revelando formas que as sombras escondem. eu estava molhado, minhas roupas grudavam no corpo, revelando tudo o que sempre tento esconder: o peitoral mal definido, quase ginecomástico e a barriga protuberante. mal enxergava um palmo na minha frente, com ou sem óculos, não fazia a menor diferença naquela noite, porque as gotas se acumulavam nas lentes de resina, atrapalhando a visão quase tanto quanto os três graus de miopia e o astigmatismo que me faz ver a vida através de uma névoa constante que teima em esconder e distorcer as formas das pessoas e objetos.
Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

6 respostas para A primeira vez. (texto de 04 de maio de 2009, 3:11 a.m.)

  1. isabelle disse:

    lindo.
    Virei fã 🙂

  2. a vida é muito mais que esquecer.

    lindo

  3. nelsonnetto disse:

    ‘havia um sorriso em seu rosto. algo que dizia muito sem dizer coisa alguma. parecia muito bem me dizer “estou aqui, vem comigo que não haverá mais chuva no teu caminho, não haverá mais nuvens no teu céu, vem comigo que eu te prometo um dia seco e quente comigo.”’

    muito foda isso de dizer sem falar.

    “aquele dia nunca estará num amontoado de palavras ou numa gravura qualquer. aquela noite e todas as outras noites repletas de beleza estarão sempre e somente na mente incapaz e falha desse que escreve.”

    fato.

    ‘eu sempre penso no “e se…” para não ter que viver o “mas agora…”. as infinitas possibilidades do “tudo o que podia – quase devia – ser e não foi” me fascinam mais que a entediante realidade.’

    eu vivo pensando nisso, só que de outra maneira.

    “a chuva não cai mais lá fora. aqui dentro ela continua, não pára, ela neva no meio do verão.”

    fooooooodaaaaaaa!!!

    enfim!
    achei foda o texto!
    muito bom!
    ele parece com o meu, véi! e vc fez antes!!!
    muita doidera!
    e tipo… tem umas coisas que eu me identifico bastante, não pela semelhança, saca?

    mas enfim!
    gostei muito!

    FH

  4. Sarah Mendes disse:

    às vezes eu canso de pensar no ‘e se’. 😡
    lindo o texto, xu! ;*!

  5. Larissa disse:

    Não sei dessa maldição da tua infância, mas daqui eu consegui fazer todo o seu caminho com chuva e cheiros na minha cabeça. 🙂

  6. Marden disse:

    Muito foda cara.
    A chuva trazndo lembranças me lembrou um pouco meus textos.
    A narrativa ficou muito boa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s