Árvore.

há uma árvore localizada numa esquina entre a porta do apartamento onde passo partes da minha vida sem ter vontade de chamar de lar (e às vezes quase temendo um dia tê-lo que fazer, mas logo afasto tal pensamento tenebroso de mim) e o local onde param os ônibus para me levar para a única razão de eu ter entrado nesse inferno de cidade. essa árvore não é gigantesca, não chega a tocar nos fios da rede elétrica ou do telefone, mal se diferencia de todas as outras árvores dessa cidade. suas folhas não são verdes e belas e lustrosas como as folhas da exuberante e rica flora dos trópicos, mas folhas amareladas que, muitas vezes, caem no chão, são pisoteadas, espalham seus pedaços mortos por aí. seus galhos projetam sombras não muito sólidas, não seguras, como se a qualquer minuto um raio de sol fosse capaz de atravessá-los e acabar com toda e qualquer proteção contra o calor e a luz do sol. o tronco da árvore se projeta de seu canteiro irregular, as pedras que um dia foram cuidadosamente dispostas num mosaico preto e branco no chão ao redor do buraco onde já fora possível ver terra e um pequeno caule verde – há muito, muito tempo, tempo demais para que eu saiba quando, tempo demais para qualquer um que a note ou se importe saiba – já não são mais dispostas de uma forma a deixar o chão plano como deveria. milhares de pés já pisaram naquelas pedras, há algumas pedras que não se encaixam mais, há aquelas perdidas no tempo, esquecidas no espaço entre uma passada e outra, um tropeço e outro. as pedras que viajaram da calçada para a rua, onde os carros as arrastam, onde as chuvas as lavam e levam direto para os bueiros, onde o sol jamais poderá tocá-las. junto com as pedras quebradas, vão também algumas amêndoas caídas, os frutos do suado trabalho da árvore, prontas para nunca viverem. apesar de sua aparência fraca, suas raízes, no entanto, são fortes, a parte que parece ser a mais resistente de si, capazes de quebrarem o cimento e a calçada e penetrarem no asfalto, prontas para sugar para si os nutrientes bizarros que só a cidade com sua poeira e calor e seus esgotos e poluição pode oferecer.

há uma árvore no caminho. no caminho da minha vida há uma árvore. e essa planta que poderia ter tantos odores, tantas boas fragrâncias, o perfume delicioso das rosas ou dos cravos, margaridas, maracujás, limões, tem cheiro de gente. todas as vezes que passo por ela é como se passasse ao lado de uma pessoa, porque é o fedor delas que sinto: o fedor de urina e fezes e lágrimas e suor, tudo junto e misturado, empestando aquela esquina, fazendo aquela árvore – que poderia muito bem ser um belo pé de amêndoas, aquelas que nunca são colhidas dos galhos, mas sempre estão pintando as ruas e calçadas e todos os arredores de onde quer que cresçam – ser uma árvore gente. talvez seu jardinheiro tenha sido jesus ou um dos grandes revolucionários espirituais, um dos grandes pilares das crenças ocidentais, talvez não. as amêndoas são pessoas caídas e espalhadas na área ao redor da árvore. sempre que passo por sob sua copa nem um pouco frondosa, encontro em suas raízes alguns frutos caídos, talvez esperando para serem germinados, esperando a vida crescer dentro deles para que, assim, tornem-se algo mais que simplesmente frutos caídos de uma árvore – sonhos de talvez serem eles próprios, um dia, árvores que farão seus próprios frutos e os espalharão pelo mundo como sua árvore mãe o foi -, talvez esperando que a idéia de vida simplesmente desista deles enquanto há tempo e os deixe somente como a casca para serem facilmente reabsorvidos por quem os fez. os galhos da árvore se estendem como se fossem braços buscando algo que nunca conseguem alcançar, como dedos que tateiam na escuridão por algo que não conhecem. esperança, talvez, ou apenas expressem, em sua tortuosidade o desespero e confusão da sua situação. o tronco enrugado da árvore parece o corpo de um velho trabalhador braçal, a pele dura cheia de frestas, seca e quase completamente morta, tornando-se inacreditável achar que por baixo dela corram em vasos pequenos, frágeis e finos os líquidos responsáveis por trazer a vida a toda aquela obra da natureza. as poucas folhas verdes que o sol tocava sem que as danificasse alimentavam e árvore, criavam seu alimento, sua energia, faziam suas trocas, seu metabolismo, viviam porque foram condenadas a isso.

há uma árvore numa esquina de uma cidade. ela poderia ser mais uma árvore em mais uma esquina de mais uma cidade grande – cheia de seus atraentes outdoors e suas belezas antinaturais nos distraindo de tudo o que é natural e belo – se eu não a tivesse notado, se eu não tivesse sentido o seu cheiro, se não tivesse reconhecido que aquele era o odor que emanava não de amendoeiras, mas de pessoas. há milhares de outras pessoas que, como eu, passam todos os dias por essa árvore, a vêem, mas não entendem o significado do que enxergam, simplesmente passam por ela para seguir suas vidas, como todos, não sabendo diferenciar – ou pior, talvez nem mesmo se importando – se aquilo caído no chão, à sombra da árvore, perto da poça de urina escura, é uma amêndoa ou um homem que precisa ser ignorado para que a vida continue seguindo como sempre se seguiu até aquele momento. essa esquina acordava abarrotada com frutos caídos ao chão, frutos sobre frutos, frutos fazendo mais frutos, mas hoje em dia os frutos são cada vez mais raros ao seu redor. e é por isso que hoje eu espero. espero um dia fazer o velho caminho da árvore e não encontrá-la mais por lá. encontrar um tronco partido, vários nós vistos por dentro, contá-los-ei, saberei a idade da árvore, mais ou menos quanto tempo ela frutificou. nunca saberei, no entanto, de seus frutos espalhados por aí, se todos eles morreram onde nasceram ou se cresceram e se tornaram melhores, as poucas amêndoas não ignoradas. as poucas frutas que não caíram podres ao chão.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Árvore.

  1. Lud disse:

    :O

    Definitivamente você tem uma grande alma.

  2. Sarah Mendes disse:

    “há uma árvore numa esquina de uma cidade. ela poderia ser mais uma árvore em mais uma esquina de mais uma cidade grande – cheia de seus atraentes outdoors e suas belezas antinaturais nos distraindo de tudo o que é natural e belo – se eu não a tivesse notado, se eu não tivesse sentido o seu cheiro, se não tivesse reconhecido que aquele era o odor que emanava não de amendoeiras, mas de pessoas.”

    foda! 😡
    já disse, ne? que me encanta a forma como vc escreve?!

  3. foi uma ótima ideia, você nao precisa ficar inseguro, sabes escrever como ninguém.

    Você nem acredita em Deus 😛

  4. Marden disse:

    Como você disse, isso é ver alem onde muitos sequer veem algo.
    O ultimo paragrafo foi o melhor.
    Coisas que precisam ser ignoradas paa que a vida possa continuar.
    E ela continua, com ou sem nós.

  5. nelsonnetto disse:

    cara, achei muito bom o texto!
    de verdade!
    tipo… dizer que você escreve mil palavras sobre uma árvore como ninguém não é elogio. mas o que eu posso dizer é que pela batalha das trincheiras que foi escrever eu pensei que ia sair algo empurrado, saca?
    mas tá muito bom!
    poucas pessoas notam uma árvore como poucos notam uma pessoa.
    muito bom!

    FH

  6. isabelle disse:

    “espero um dia fazer o velho caminho da árvore e não encontrá-la mais por lá.” Corte não a árvore! É um Ent e um dia você não o encontrará por lá prq ele terá ido a mordor lutar contra Sauron.

  7. tiago disse:

    tiago/hobbit/bolusko
    muito o bom o texto pi, uma arvore-gente que fede e exala excrementos adquiridos, que arvore é essa senao a personificação de nosso estado, ou melhor, do estado do autor que a gerou.
    só um comentário autista meu: o bairro que moro aqui em ssa chama-se “caminho das arvores”
    flw
    continue sempre assim, força e honra pi!!!

  8. Jaque disse:

    Muito bonito.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s