"os dedos entrelaçados já não dão-se as mãos."

é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado, o casal pode ser formado por quem quisermos, nós – nós e nossas amadas, amantes, namoradas, esposas –  nossos amigos e suas digníssimas ou digníssimos, nossos familiares, pais, avós, tios, qualquer um que seja capaz de fazer um par com alguém. há alegria e cumplicidade naquela imagem, de uma forma que não se consegue apenas explicar em palavras, que é preciso sentir algum dia a vontade de segurar a mão de alguém para saber explicar. o sol se põe n’algum ponto que ninguém vê direito, mas sabemos que está na hora do crepúsculo pela tonalidade das cores na pintura. o casal usa roupas normais de um fim de tarde onde quer que estejam passeando (porque, sinceramente, isso não importa, o como estão vestidos, quantas pessoas estão ao redor, se neva ou chove, se é no brasil ou na argentina ou na argélia ou nova zelândia, a cena é igual e se repete todo o santo dia entre casais, é um simples entrelaçar de dedos.). a idéia central dessa paisagem está ali nas mãos, nos dedos. elas se tocam, eles se entrelaçam, como se as duas pessoas procurassem de uma forma simples, se tornarem apenas uma.
ele sente a vontade de estar com ela. a tarde inteira foi maravilhosa, haviam se divertido, conversado sobre tudo o que poderia imaginar ser possível se conversar com uma pessoa do sexo oposto. não! com qualquer pessoa. haviam falado de medos e certezas, de risos e lágrimas, haviam falado sobre música boa e ruim, drogas boas e ruins, livros bons e ruins. diabos! tinham falado sobre quadrinhos e discutido a diferença entre os dois maiores roteiristas do mundo na opinião de ambos (apesar dela preferir as coisas de um e ele as coisas de outro). haviam falado sobre o lirismo de um e a crítica política de outro e como ambos possuiam a incrível capacidade de serem líricos sem serem piegas e ele ainda falou sobre como ele acha que em um você consegue encontrar mais do ser humano no super herói e n’outro você encontra mais do herói no humano. falaram sobre como o cinema consegue transformar grandes quadrinhos em puro lixo (e ele era um pouco mais liberal quanto a isso. apesar de achar que muitas coisas se tornaram a maior porcaria cinematográfica que poderiam virar) e em como os grandes estúdios só querem saber da grana que os heróis geram e que pouca gente está cagando para as histórias. e ele falou sobre como hoje em dia o rock n roll não é mais tão cheio de sentimento e energia quanto nos anos sessenta ou setenta – apesar de nenhum deles ter chegado perto de viver essas décadas – e que havia poucas bandas para as quais se dar valor atualmente. e ela discordou. foi nesse ponto que ele teve sua decepção com ela, sua grande decepção: ela começou a listar bandas novas e músicas novas que ele devia escutar e ela dizia nomes que ele nunca iria aprender, bandas que ele nunca pensaria em sequer conhecer, e ela falava e falava sobre como eles eram a nova vanguarda e como não perdiam em nada para as bandas de antigamente e, num momento, ela quase arrancou seu coração ao dizer que adorava a maldita música eletrônica (ele costuma dizer que aquilo não é música, mas barulho). apesar de tudo isso, riram e se divertiram enquanto discutiam as melhores frases de seriados da adolescência de ambos e se perguntavam um ao outro qual era o melhor personagem e trocavam novas informações sobre as coisas novas que um via e o outro não e terminaram anotando um no celular do outro o nome de uma ou duas séries de comédia que o outro deveria assistir. e, n’algum momento, entre uma risada por causa de uma lembrança boba que ela trouxe ou um simples estar parado observando a beleza dos olhos dela, ele pensou em como aquelas horas todas haviam passado sem que ele notasse e em como havia tempo que não se divertia tanto com apenas uma pessoa, que há uma quantidade demasiada grande de tempo havia passado desde a última vez em que não se entediara com uma conversa de mais de quinze ou vinte e cinco minutos. eram quase cinco da tarde e ele estava ali, conversando com aquela mulher, há quase quatro horas sobre coisas que antes pensava serem impossíveis de se conversar sem esquentar a cabeça com a outra pessoa. foi enquanto a via rindo de alguma situação que ele contara – ou ela. não fazia diferença, de verdade, quem falara o que – que ele sentiu um impulso enorme de segurar aquela mão branca que se agitava à sua frente. segurá-la e entrelaçar seus dedos com os dela, talvez beijá-la e simplesmente ficar assim por um tempo. tempo o suficiente para que se sentisse bem e confortável com aquela situação. mas no exato momento em que encaminhava sua mão na direção da dela, pensou que talvez aquela não fosse a coisa certa a se fazer, que talvez ela não quisesse sua mão junto da dele, que talvez ela não achasse confortável aquela situação, que seus dedos ficariam melhores livres dos dele. então, no meio do caminho, a mão que ia certa na direção da dela, com medo da rejeição, exitou e vacilou, procurou outro caminho, um novo objetivo, um bolso da calça, um copo sobre a mesa, uma coçada inocente numa parte do corpo, uma saída estratégica de uma possível humilhação. sim, humilhação porque ser rejeitado é sempre humilhante.
ela sente a vontade de estar com ele. com ele, ela se sente à vontade de falar sobre coisas que com outros homens ela simplesmente calaria com medo de ser considerada estranha demais: seus gostos… tanto para música quanto para literatura… ela quase não se controlou quando ele, enquanto falavam sobre um dos livros favoritos dos dois recitara pequenos trechos de alguns dos capítulos favoritos dela. e sentiu que aquilo que tinham, a incrível forma como se conectavam, falavam entre si através de referências à cultura pop, só aumentava mais e mais quando passaram quase uma hora discursando sobre quadrinhos e a importância da nona arte para ambos. ela fala com ele sobre seus filmes favoritos e não recebe um “nunca ouvi falar” como resposta. muito pelo contrário, ela consegue reproduzir cenas inteiras puxando pela memória de ambos. ela sente, a cada minuto que passa, que se sentasse para assistir a um filme com ele, ouviria comentários irônicos que poderiam irritá-la, mas que, na verdade, a fariam rir no final de tudo porque ela iria perceber que tudo o que ele comentou, por mais maldoso e irritante que tenha sido, foi bem verdade e que aquele personagem tão sério, que ela adorou e achou extremamente complexo e completo, realmente é um psicólogo frustrado com sua incapacidade de ser um psiquiatra como tantos que vemos fora das telas e que ela conhecia tão bem, os velhos clichês que só a vida pode nos oferecer. com ele ali à sua frente, seus olhos castanhos que passam confiança e seu sorriso seguro, ela sentia que havia uma conexão que poucos antes conseguiram, mesmo ela sabendo que ele era o tipo de cara que preferia passar a noite segurando um joystick e apertando botões ao invés de sair para dançar com ela numa sexta à noite, ela sentia que havia um link entre eles que não podia ser derrubado facilmente, nem mesmo quando ele disse que o sentimento de verdade estava no brega, na música de amor, de corno e que quem nunca foi corneado não sabe o que é sofrer de verdade por causas do coração, ou quando ele afirmou – e aqui ela teve que engolir um pouco uma pequena regurgitada que ela deu, ao menos foi o que ela disse “okay, depois disso acho que vomitei um pouco por dentro.” – que certas boybands têm músicas boas, bem melhores do que boa parte das bandas que ela clamava serem legais e quase o estapeou quando ele abriu a boca para dizer que “cry me a river” era melhor que “kool thing”. na verdade, ela pensou em largar toda aquela conversa, pensou naquela ofensa e em levantar e se afastar daquele ser bizarro. mas ele ria enquanto assistia à sua reação. isso meio que a acalmou e a fez repensar tudo e viu que abandonar aquele cara ali por causa de uma incompatibilidade cultural não era a coisa mais inteligente a fazer, já que para cada item não compatível havia cerca de cinco ou seis que batiam com um sincronismo tão perfeito que parecia inacerditável. “por deus”, ela pensou, “esse cara sabe as melhores cenas de filmes, os melhores trechos de livros, os melhores episódios de seriados, não se pode ter tudo e querer que ele também saiba sobre as melhores músicas. isso eu posso ensinar a ele.” e se pôs a ensinar a ele que as melhores bandas do mundo eram todas aquelas que ele não conhecia. e que não era subestimando as grandes bandas que ele conhecia, mas é que todas elas eram tão antigas que soavam como uma avó cantando para ninar os netos. ela achou, no entanto, que essa metáfora o irritou um pouco. chamar led zeppelin de música de avó foi demais até para ela, que riu e pediu desculpas dizendo que a banda era simplesmente perfeita, mas que havia muitas outras coisas tão perfeitas quanto, ou até mais, fazendo turnês pelo mundo. ele pareceu realmente afetado com aquilo, tomando sua cerveja com olhos voltados para o copo e sorrisos cada vez mais contidos para ela. foi então que ela sentiu a vontade de dizer a ele que não queria que aquilo os afastasse, a vontade de se aproximar dele, segurar sua mão e deixá-la ali, junto da dele. e foi então que sentiu o medo de que isso não fosse possível devido às suas críticas musicais um tanto exageradas. medo que seus dedos pequenos nunca encontrassem os longos e grossos dedos morenos daquele homem que conhecera naquela tarde incrível. ela pensa em extender a mão e entrelaçar seus dedos com o dele, assim, do nada, objetiva como nunca havia sido em toda a vida, mas não conseguiu. sentiu que esse passo devia ser dado por ele, que se ela fizesse mostraria um interesse por alguém que não a buscou e, para ela, a ausência de busca quer dizer a ausência de desejo. para ela, ele não a queria porque não segurava a mão vazia dela entre as suas.
é uma cena normal, os dois de mãos dadas, dedos entrelaçados. a velha pintura que todos sabemos de cor e salteado. nada disso está acontecendo. nenhuma mão sente o calor da outra, o frio começa porque o sol se põe e ambos estão sentados em cadeiras distintas. a noite está chegando trazendo uma lua que míngua como os ânimos de ambos. a conversa que durou horas, toda uma tarde, está sem energia, fraca como meia dose de vodka com refrigerante quando a intensão de tudo é embriagar alguém. a festa continua para todos, todos riem, ele ri, ela ri, mas mal riem juntos como nos tempos áureos que passaram juntos. as horas passam e passam se arrastando minuto a minuto para ambos. cada segundo em silêncio, para eles, era um grão de eternidade que caia na ampulheta. antes se perdiam um no outro, olhos nos olhos, agora, se perdiam em suas bebidas até que ele diz que está ficando tarde e deve ir embora, perguntando a ela como é que ela vai embora e ela diz que vai de carona com um amigo que está planejando ficar até mais tarde. eles se despedem com dois beijos nas bochechas e um “nos vemos por aí” depois que ele se despediu de todos os outros da festa. ela o vê indo embora e se decepciona consigo por não ter se atirado pelo menos dessa vez e segurado a mão dele, feito suas mãos se encaixarem. ele caminha pela porta, decepcionado consigo pela covardia, por não ter conseguido daquela vez, e nunca, a coragem necessária para superar seus medos e suas frustrações e simplesmente ter segurado aquela mão. era apenas uma mão. o que uma mão pode significar, no final das contas?

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10 respostas para "os dedos entrelaçados já não dão-se as mãos."

  1. isabelle disse:

    Deveria ter feito o texto antes do Apenas o Fim. Acho que os romances nerds agora serão sempre associados a ele.
    E uma mão significa um bocado.

    Muito bom o texto.

  2. carol disse:

    nossa, seus textos sempre me prendem do início ao fim.
    engraçado as reações dela ou as reações dele a algum cometário que não agradou mas que foi ínfimo dentro das tantas afinidades que eles possuem.
    mais uma vez, gostei muito
    beijo primo

  3. Tony disse:

    cara, texto foda. e tipo, eu to numa epoca confusa e é TENSO de opiniar sobre certas coisas… mas hoje vou ser sincero em dizer q ja vivi mtas dessas coisas listadas ai. e q é mto bom sim e q eu sinto falta as vezes.

    real pra caralho o texto.
    FH

  4. Marden disse:

    Muito bom man.
    As expressões de afeto sendo transmitidas por meio daquilo que nos é querido, porque é uma coisa que entendemos tentando transmitir algo que nunca conseguimos compreender direito.
    Os detalhes e pensamentos dos dois lados ficaram foda.

  5. Marden disse:

    Ah, e a referencia a antiga e até saudosa The Lefts foi foda.

  6. Sarah disse:

    “ela sente a vontade de estar com ele. com ele, ela se sente à vontade de falar sobre coisas que com outros homens ela simplesmente calaria com medo de ser considerada estranha demais”

    e de tão normal, a cena dos dois de mãos dadas é uma das mais belas! uma mão diz taanta coisa! ;x

  7. Muito mais do que se pode dizer.
    as melhores partes de todas as coisas, esses momentos, com o ser que se ama.

    :}

  8. nelsonnetto disse:

    caralholho, véi.
    foda o texto!
    sem mais.
    a cena é igual pra todos, mas as melhores partes é que fazem tudo especial e único.

    e tipo, cry me a river é beeem melhor que kool thing!

  9. Isabelle disse:

    Deus do céu, mau gosto é contagioso. Nem fudendo Cry me a River é melhor que kool thing.

  10. Lud disse:

    E o mais legal de tudo é que essa cena me é familiar, e acho que não só a mim.. 🙂

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