ménage à trois.

as notas musicais são mais altas que o som da televisão. a voz sai das caixas de som dizendo que se eu quise-la ela estará no bar. eu acho que preciso dela como preciso desse texto. é um pouco superficial a minha necessidade, mas me faz bem saber que joni mitchell está ali por mim e eu estou aqui por mim também. eu preciso escrever para falar, criticar, me expressar de alguma forma porque ficar tempos sem escrever qualquer meia dúzia de palavras que me façam sentido está me fazendo um pouco de falta. muita, na verdade. dudu nobre está no jô, mas eu vou continuar fazendo como fiz por toda a minha vida e ignorar o que ele faz para seguir com a minha vida. e não é nem que eu não curta o samba/pagode que ele faz, se eu fosse ouvir esse estilo seria algo próximo da música dele que escutaria. é apenas… a falta de vontade de qualquer coisa. há dias eu não me sinto impulsionado a escutar música por horas. a ler por horas. em poucos minutos desligarei o meu player e verei alguns episódios de uma série de tv cancelada em 2002.
acho que nunca vi um filme inteiro do woody allen, apesar de ter um pôster dele dobrado em algum lugar do meu quarto (ganhei-o no ano passado de uma pessoa que, nas palavras do gabriel, “me fez bem e depois me pôs na lona.” e essa frase cai como uma luva) – resolvi desligar a tv para, assim, escutar melhor tudo o que ela tem a me dizer. – no pôster tem uma frase dele. eu não lembro qual é, sei que ela esteve pendurada na parede do meu quarto, na cidade para onde não quero retornar, por alguns meses. então, nessa madrugada em que eu não consigo pensar no que fazer, resolvi que assistiria a algum filme dele. a obra escolhida foi Annie Hall que, se não me engano, virou de alguma forma, “Noivo neurótico, noiva nervosa”. amanhã, creio, se tiver algum tempo, verei Annie Hall.
acabei de ir à cozinha e preparei um café com leite. olhei minhas opções e a pizza do jantar não parecia tão apetitosa assim… esquentá-la no microondas recém chegado do conserto não me pareceu a melhor opção. seria ótimo ter um biscoito doce ou uma barrinha de chocolate, mas não tenho. tenho, no entanto, café, leite e o adoçante que me acompanha desde os 12 anos. foi na cozinha, pensando em como warren ellis, grant morrison, neil gaiman e alan moore escrevem numa quantidade imensa, que resolvi voltar, tomar veronha na cara e continuar a escrever. não que eu esteja querendo me comparar a esses geniais filhos de umas éguas que eu admiro e invejo (warren ellis está entrando pro hall de roteiristas que eu respeito aos poucos, neil e alan fundaram esse hall e o grant me conquistou com algumas das obras quadrinísticas mais loucas que eu já li – e uma das mais lindas, All Star Superman. longe de mim chegar perto desses casas, mas é que a dica de qualquer escritor para novos escritores é: “escreva todo dia”. e eu não escrevo todo dia, cara. eu não escrevo de verdade há semanas. eu não teria sobre o que escrever todo dia e, quando me peguei pensando nisso, percebi que eu deveria realmente escrever todo dia. nem que fosse sobre a bunda de alguma garota que passou por perto de mim naquele dia e eu reparei. (há um conto parado, por sinal, vinte e oito ou vinte e nove dias da minha agenda do ano passado, sobre um relacionamento fictício pateticamente inspirado por uma garota linda dos cabelos longos e castanhos escuros, pele branca e uma bunda maravilhosamente redonda e grande e linda e de uma mancha no rosto que uma vez eu vi na fila da saraiva ajeitando a calcinha sonoramente – a onomatopéia pléc se encaixaria muito bem aqui – e depois disso comecei a encontrar com ela na faculdade. ela não faz medicina, já tentei descobrir, à distância, qual curso ela faz, mas falhei entre economia e alguma engenharia. ela é sensacional, do tipo colírio, um rosto de garota má, olhar frio e concentrado, do tipo capaz de reduzir um homem a nada se quiser. mas ela tem um macho.) meu café com leite esfriou loucamente enquanto escrevi tudo isso de uma vez, trouxe também para me acompanhar por essa noite uma garrafa de um litro e meio de água. será uma longa noite, como todas as outras da semana têm sido.
meu celular não toca desde as 18:40 e era minha mãe. antes disso ela me ligou às 14:00, 14:05, 14:10 e 15:00. antes disso a última ligação é da noite passada e era retornando uma ligação que eu havia feito para convidar uma amiga para ver um jogo num bar. o único som que ouço é o do ar condicionado. desliguei o som antes de ir à cozinha, quando me decidi que veria seriados pelo resto da noite. está claramente perceptível que eu não sou um dos seres mais decididos do mundo. eu chego a sentir falta em alguns momentos de alguma voz além das que falam na minha cabeça, aquelas que dizem: agora você deve falar sobre isso e isso e isso. até elas estão caladas ultimamente. desde pouco antes delas irem embora eu andava confuso, sentindo falta de coisas que eu não sei o que são, que talvez eu nunca tivera, mas que desejara. é a época do ano. ano passado lembro de ter sido atingido por sentimento semelhante, mas eu tinha meio que um jeito de deixar a loucura escapar sem me sentir culpado e sem ser ignorado. era bom. há tempos não escrevo uma carta que não seja um presente de aniversário e eu me sinto mal por isso, me sinto culpado por achar que não conseguirei nunca mais escrever 11 folhas de papel, frente e verso com minha letra miúda e enviar tudo num só envelope gordo pelo correio. eu temo nunca mais conseguir arrancar tanto assunto do nada como antes eu conseguia. e até nos meus versos eu vejo a repetição extrema e o cansaço. eu não consigo enxergar nada de novo neles e me entristeço e decepciono por pensar que talvez eu não consiga mais criar tiradas sagazes, fazer trocadilhos inteligentes e essas coisas que antes eu conseguia com uma certa frequência. é tudo muito estranho e bem ruim. me sinto frustrado por não sentir o tesão que meus colegas sentem por estudar o que estudamos, e sinto um medo enorme por saber que essa é a única coisa pela qual eu realmente senti tesão por toda a vida. é como passar a vida inteira querendo comer a megan fox e a scarlet johanson ao mesmo tempo e, na hora das preliminares, quando a johanson está com o seu pau na boca e a megan está mandando ver um belo oral na scarlet, ao invés de pensar que é o cara mais sortudo do mundo, você pensa que talvez devesse ter ficado mesmo com aquela menina que dizia que te amava lá na sua cidade, e não ter celebridades disputando pra ver quem vai sentar em você primeiro. é triste, muito triste.
meu café com leite que, quando preparei, estava morno devido ao leite gelado e o café não muito quente, agora está frio como a água gelada que eu trouxe para o quarto e esquentou. o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.

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8 respostas para ménage à trois.

  1. Sarah disse:

    eu gostei muito desse texto… me passa uma coisa tão real.

    “está claramente perceptível que eu não sou um dos seres mais decididos do mundo.”
    \o

  2. Marden disse:

    Tempos assim acontecem com todos.
    O jeito é ir vivivendo.
    Realmente lembrou muito seus textos antigos.
    Ficou bom e suas comparações sempre são resenha.
    Devia escrever noir, man.

  3. nelsonnetto disse:

    poxa ficou bom!
    lembra os textos antigos mesmo, mas tem umas fagulhas do novo.

    mas acho que na hora desse menage sensacional você não pensaria nisso, você pensaria depois. eu que sempre acho q vou pensar nessas coisas acho que pensaria depois.

    e o tempo vai deixando tudo morno mesmo.

  4. Isabelle disse:

    Pois é… é impossível comer a scarlet e a Megan fox e pensar em qualquer outra coisa velho. Muito irreal isso.

  5. Lembrei tanto das cartas que vc me escreveu…sinto falta das suas coisas. Realmente gosto muito de todas elas.

    xD

  6. Laís disse:

    “o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.”

    meodeos. minha noite já estava bastante deprimida e eu leio uma verdade dessas. você tem manina de bem escrever verdades, pv.

    =*

  7. Laís disse:

    “o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.”

    meodeos. minha noite já estava bastante deprimida e eu leio uma verdade dessas. você tem mania de bem escrever verdades, pv.

    =*

  8. tati voronkoff disse:

    o tempo vai estragando tudo. a água, o café e a vida.

    mto bom o texto =)
    cada vez acho seus textos melhores

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