confissão.

as cartas estão guardadas dentro do guarda roupas, prontas para serem esquecidas por mim, mas nunca sendo. às vezes eu me pergunto onde estão as páginas que escrevi e mandei pelo mundo. me pergunto se elas foram esquecidas ou se existe a vontade de não mais lembrar o que elas diziam como existe aqui. mas eu lembro de muita coisa porque é assim que sou: alguém que não aprendeu a esquecer, que não gosta de esquecer, na verdade. acho que precisamos aprender a conviver com o que passou muito mais do que simplesmente fingir que nada ocorrera. já pensei muitas vezes em fazer a língua das labaredas lamber as palavras escritas naqueles papéis, os desenhos criados e pintados, cada envelope trabalhado. ainda guardo cada laço que ornamentava suas obras. espero o dia em que criarei coragem para fazer algo com elas… mostrar a alguém, jogar tudo fora, transformar tudo em cinza. e eu me pergunto que fim tiveram meus meses inteiros postos em palavras, meus pensamentos mais íntimos derramados em folhas de papel sujo por grafite. são quase uma da manhã e quem come sozinho na frente do computador pensando num patético passado de um ano atrás sou eu. quem pensa, às vezes, que há exatamente um ano, estava dedicando boa parte do seu tempo e de seus pensamentos a apenas um assunto, que se foi e não rendeu, sou eu. e sou eu quem se sente culpado por saber que não consegue fazer muito mais que textinhos de amores mal realizados, não correspondidos, fins tristes de coisas que não aconteceram porque nunca tiveram a oportunidade de acontecer de verdade. sou eu quem tenho coisas que não devia na parede, que vive com o passado no presente. seja nas paredes do quarto ou nas estantes do quarto de hóspedes ou ao lado da cama. o passado infesta minha vida. e o passado era cheio de sonhos.

sempre abro o guarda roupas e sento no chão para ver o que aquele espaço reservado para algumas tranqueiras me mostra. e é lá que estão as cartas. cartas que gostaria de reler, de pessoas que me fazem bem até hoje e algumas de quem me levou ao céu para soltar pouco depois que atingisse sua capacidade máxima. meu quarto cheira a passado e os sonhos que nele havia. hoje estava tomando banho e me veio a vontade de ser turista. sair pela cidade sem ter conhecimento de para onde ir ou que rua tomar ou onde comer uma boa comida sem correr o risco de uma grave intoxicação alimentar. senti falta das coisas que tive em janeiro: conhecer lugares novos por mim mesmo. ontem, ao brincar com minha carteira enquanto esperava por alguém, encontrei uma foto que deveria ter rasgado, queimado, matado. nela não havia um sorriso ou nada do tipo. era uma três por quatro datada do ano passado, dessas que se usa para fazer inscrições de vestibular. eu já deveria ter me desfeito dela, mas não consigo, ela está na minha carteira junto a outras fotos minhas. simbolizando uma coisa que já não existe há quase um ano. escrevo sobre uma coisa que não existe há mais tempo do que existiu. mas só escrevo porque a dor é universal e eterna, porque eu vivo do passado melhor do que vivo do presente e melhor do que especulo qualquer possível ou impossível futuro. senti uma vontade imensa de rasgar a foto ao meio e dizer que “ontem rasguei teu retrato, te matei e dormi”, mas seria uma mentira e uma coisa absurda. iria contra o que tento pregar de que não é assim que se supera as coisas, que descontar a frustração e raiva nas coisas que nos restou do relacionamento não é bom e que assim não aprenderemos nada. às vezes eu penso que ela sabe disso e torço para que ela não tenha rasgado ou dado ou jogado fora o livro que dei. no entanto, sei que ela já deve ter esquecido o que ele dizia e já não deve acreditar que aquelas palavras eram sinceras, apesar de serem. eu mesmo não acredito, hoje, em um quinto das palavras que ela me disse. mas acho que, ao escrever esse texto estou dizendo a ela para não crer nas minhas, já que prometi a ela que não haveria mais textos para ela. mas, ora, se ela ainda não percebeu que eu a enganei com isso – e eu não queria tê-la enganado, queria ter cumprido essa palavra, mas tudo o que senti foi maior que eu e, às vezes, eu precisava de inspiração d’algum lugar e isso parecia a coisa mais fácil a se fazer, como agora. preciso escrever porque há dez dias não escrevo e… esse é o assunto mais fácil sobre o que divagar: dor de cotovelo. e ela foi a minha dor de cotovelo mais recente. não sei se foi a que mais doeu até agora, sei que não vai ser a que mais vai doer na vida (queria eu que fosse, mas não, há muito o que ser machucado pela frente).

um dia conseguirei reler todas as cartas que ela me escreveu e rir de cada uma delas, da tolice que traziam e das doces mentiras, mas acho que hoje ainda não estou pronto para isso. prefiro que elas continuem onde estão, sem a luz do dia, sem meus olhos correndo por sua letra que me maravilhava por suas curvas. às vezes sinto falta de suas palavras, de sua alegria, de seu carinho. mas não de seu amor, não de amá-la. não do jeito que dizíamos. sinto falta ainda, como há um ano disse-lhe, de todos os momentos que não tive com ela, dos filmes não assistidos juntos, das tardes não passadas juntos conversando, das saidas à noite para qualquer lugar com som legal e pessoas legais. todas essas coisas que tenho com amigos, e não tive com ela, me fazem falta. assim como me fez falta há um ano o colo dela quando não podia tê-lo. quando pude tê-lo ela não quis me dar e hoje não mais o quero, fico feliz que ela tenha alguém que a faça feliz, sinceramente, feliz como ela não me deixou fazê-la, porque ela cria que eu não seria capaz. quem sabe, talvez, eu não fosse mesmo.

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4 respostas para confissão.

  1. isabelle disse:

    Chega a ser ridícula a falta de controle que temos com os “nossos” próprios sentimentos. Mas é um erro a colocação desse pronome possessivo, visto que na verdade ocorre que somos controlados por eles.
    Evidenciando a verdadeira relação de posse; somos controlados por algo criado por nós, o qual não se tem absoluto controle. Mas há quem negue e que diga que consegue burlar essa inversão. São os racionalistas de raça pura.

  2. Marden disse:

    Realmente é bom viver sem querer se livrar do passado.
    Mas ainda acho que você deveria ter mantido sua palavra.

  3. naneehss disse:

    uma frase exclui a outra, baby. opinião de alguém que também tem seus laços: ele gosta de você pra além das amarras.

  4. nelsonnetto disse:

    texto bom.
    pra quem escreve pela necessidade de n ter sobre o q falar a 10 dias melhor ainda.
    achei massa algumas colocações como sobre a caligrafia e o derramar de palavras no papel sujo. gosto dessas imagens.

    FH

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