estrela solitária.

é escuro e é noite e é uma das mais quentes do ano. uma daquelas em que as nuvens começam a se tornar densas no céu, preparando-se para desabar sobre todos, e abafam tudo o que está sob elas e escondem tudo que há acima delas. existem muitas noites assim, essa é só mais uma e eu poderia dizer que é nela que nossa história acontece, mas não é. há um homem de feições leves sentado num canto de um bar, o mesmo canto de todo dia, ele transmite, em seus traços, mesmo com a barba constantemente por fazer e o cabelo sempre precisando de um corte, um ar de confiança que contagia a todos que o vêem. é ali, em seu canto, que bebe até começar a ver embaçado, até começar a esquecer, até quase não suportar o peso de sua própria cabeça e quase cair no sono. mas ele nunca dorme. sempre sai do bar sozinho, depois de assistir a cada um de seus amigos ir embora – nenhum deles chega ali com ele, nenhum sai dali com ele – , cada rosto desconhecido entrando e saindo pela mesma porta pela qual ele sai caminhando enquanto o dono do bar gira suas chaves e tranca sua porta. no entanto, não se sabe o que ele faz enquanto o sol passeia pelo céu e as portas do local que lhe parece o lar estão fechadas. as pessoas, sempre elas, falam sobre os seus possíveis refúgios. essas pessoas falam demais, sempre, e essa é uma mania odiável que não parece estar nem um pouco perto de ser abandonada.

entre passos trôpegos nas idas e vindas do banheiro, o homem interage com os clientes do local contando casos engraçados de sua vida e piadas a todos que estiverem dispostos a ouvir. se apresenta a desconhecidos com cerimônia e pompa, meneando a cabeça para os homens e flertando com moças, que riem com seus galanteios e, depois de algumas recusas, conta histórias sobre suas amantes e suas grandes glórias do passado (um número surpreendentemente elevado para um homem que vive como ele vive, entre a escória da cidade, sempre bêbado). conquista muitos assim, com sua espontaneidade e alegria, conseguindo algumas doses de bebida na conta de quem oferecer. no entanto, ele nunca pediu a ninguém que lhe pagassem a bebida e, por muitas vezes, recusava que o fizessem, mas depois de insistirem por algum tempo com seus “ora, vamos”, “por favor”, “não me faça essa desfeita”, aceitava de bom grado. quando estava de bom humor dizia que queria celebrar com todos, isso acontecia mais ou menos uma vez a cada dois meses, e todos sabiam o que isso queria dizer: as bebidas daquela noite, para quem estava sentado com ele em sua mesa, seriam na conta dele. sempre foi uma dúvida constante, daqueles que sabem um pouco de sua situação, como ele arranjava o dinheiro para pagar por suas bebidas. ele ria, chamava o questionador de criança tola e dizia que era tudo muito simples e que ele nunca estava devendo nada a ninguém e que, na verdade, o dono do local devia a ele alguns favores e não havia ainda álcool no mundo que chegasse perto de pagar sua dívida. apesar dessa dívida que alegava que o dono do estabelecimento tinha para com ele, pagava sempre tudo o que consumia. todos duvidam do que ele falava e espalha-se por aí que ele é herdeiro de algum milionário desconhecido que deixou todo o seu dinheiro para ele. havia sempre, em seu bolso, dinheiro para saldar sua dívida no fim de cada noite. e não importava quão grande fosse a conta, havia sempre o suficiente para uma generosa gorjeta. perguntávamos a ele se ele não tinha medo de ser assaltado ao sair de casa com todo esse dinheiro no bolso (todos viam quando ele abria a carteira e tirava uma nota de cem do meio de, no mínimo, outras cinco) e ele dizia que não tinha medo de nada por ali e que ninguém iria se envolver com ele. advertiamo-lhe que o mundo estava mudado, que as coisas no seu tempo eram diferentes e que hoje em dia não dava mais pra andar por aí tão seguro de si. acho que tudo o que lhe dizíamos, no entanto, soava para ele como piada, porque ele ria e tomava um gole de sua bebida.

ninguém encontrava com ele durante o dia. alguns diziam que o viam pedindo dinheiro n’alguma esquina do centro da cidade, sentado no chão com um chapéu à sua frente. quando lhe diziam isso ele praguejava e dizia que as pessoas deviam ter mais o que fazer com suas vidas curtas e miúdas como a das moscas de frutas. ele dizia que havia pensado em abandonar tudo isso há muito tempo, por causa dessas coisas, partir para longe daqui e conhecer coisas mais interessantes. mas, ele dizia, aqui tinha os melhores drinques e as melhores comidas. e que de forma alguma ele queria cruzar com alguns daqueles seres. não sei de quem ele se referia, mas ele pareceu bem sério quando disse isso. o assunto do que fazia durante os dias nunca foi esclarecido. uma vez sentei na mesa dele e começamos a beber, só eu e ele, e conversar. contei-lhe sobre minha vida, meus dois filhos, meu trabalho, minha esposa e o amor que senti por ela e temo já não sentir e o medo do abandono e a insegurança que a vida me proporciona agora. falei-lhe do emprego e as frustrações que ele me traz, meus sonhos e esperanças todas que foram embora pela janela, achando que podiam voar e morrendo logo abaixo, depois da queda. então, depois que abri meu peito e enchi meu copo de lágrimas e whisky,  ele, um tanto afetado pelo álcool, seus olhos brilhando como os de um ébrio, me contou coisas que supostamente viu e viveu. eu não sei por que, mas tudo o que ele falava me parecia bastante real e possível – talvez fosse o álcool – , como o fato de eu estar ali respirando. ele me falou de jantares e de pessoas que não eram pessoas e me falou de como viu cidades de prata e de como a sombra dela era agoniante e desesperadora para os homens como eu (ele não se incluiu no gênero), me falou de como era a vida fora desse plano, falou-me de visitas ao deus baco, disse-me a sensação que é fazer amor com deusas e tentou me explicar alguns dos grandes segredos. fez uma lista de lugares que conheceu e que eu achava que eram lendas, mentiras criadas para encantar crianças e fazê-las sonharem com esses locais.

perguntei-lhe o que diabos ele fazia ali, no entanto. se ele havia estado em tantos lugares, por que continuar naquele mesmo bar, naquele mesmo canto, com aquelas mesmas pessoas?

ele segurou minha mão, disse meu nome e disse que era por causa de pessoas como eu. “por causa de pessoas como você, meu amigo, eu acho que vale a pena continuar por aqui, com essas bebidas maravilhosas, suportando o que vier.”

quando saí do bar naquela noite, o céu estava fechado e era escuro. ele ficou lá dentro. lá em cima as nuvens começam a ficar densas. está quente, abro dois botões da camisa e chamo um dos táxis que ficam ali na esquina. entro nele, digo meu endereço e vou embora. está abafado e quente. é impossível ver a lua ou as estrelas daqui de baixo, queria acreditar que elas também não nos vêem de lá de cima, mas elas vêem tudo.

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4 respostas para estrela solitária.

  1. E o que é ter uma vida mediana, ou achar que se tem. Ou achar que se terá?
    todas essas inseguranças que nos atormentam…
    engraçado, eu t
    o ouvindo ‘chorando e cantando’, e lendo isso…
    Tipo, bar, bebidas, frustrações…
    tudo casa.

    \o/

  2. Marden disse:

    Muito bom cara.
    Esse clima estilo Deuses Americanos é sempre muito bacana quando é bem feito assim.
    O jeito do narrador descrever o ambiente do bar e as lendas cercando o sujeito ficaram muito boas.

  3. Lud disse:

    eu praticamente vi tudo: personagens, ambientes. e senti tudo também. inclusive o calor. mas isso não é tão difícil, não é?

    muito bom! ^^

  4. nelson disse:

    cara!
    gostei!
    o ambiente e a narrativa ficaram fodas
    o texto ficou foda.
    gostei!
    FH

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