Escuro.

se ele pensasse bem e se esforçasse um pouco nisso, poderia lembrar perfeitamente da primeira vez que se sentiu verdadeiramente bem. ele devia ter pouco mais de três anos e estava na cama, dormindo um sono tranquilo. a madrugada começava a avançar e, lançando por sobre ele seus tentáculos macios e silenciosos, o ninava em suas cobertas. lembrava de sentir um leve desespero e medo tomando conta de sua mente infantil quando acordou e nada viu, mas logo se acalmou quando ouviu com clareza uma voz fria e distante, como nunca antes ouvira, lhe dizendo coisas que ele gostaria de ter guardado, mas não conseguiu. essa é a primeira lembrança de sua vida. não de um brinquedo ou uma brincadeira, não de sua mãe ou seu pai, seus avós sorrindo e lhe cercando de alegria, dando carinho e amor, mas da escuridão que o envolvera e tinha contado a ele seus segredos.

apesar do ocorrido, pode-se dizer que sua vida não foi extremamente diferente da que outras crianças de seu convívio tiveram. o que se poderia dizer dele é que era uma criança que não tinha medo de escuro. sempre se escondendo nos lugares mais escuros, onde sabia que seus colegas da escola e amigos da rua não o procurariam por terem medo da ausência de luz, medo do que as trevas podem vir a esconder, medo das fantasias contadas a todos sobre as criaturas das sombras. mas ele não se intimidava com aquelas histórias. ele sentia que as conhecia todas, não sabia de onde, não sabia o porquê, e sabia que nenhuma delas era verdade. que a escuridão era uma coisa natural, tanto quanto a luz do dia e o calor do sol. sabia que tudo o que os pais de seus amiguinhos contavam sobre monstros no escuro eram apenas histórias para enganá-las, mas ele não entendia muito bem os que levava a enganarem suas crias, por que eles queriam tanto que seus filhotes temessem algo? talvez o medo que eles próprios criaram quando eram criança, quando seus próprios genitores contavam as histórias sobre a noite e o escuro a eles, tenha crescido e agora esteja na hora de se multiplicar. o medo age como um de nós, precisa se espalhar pelo mundo. mas as histórias assim, sobre a morte no escuro, aquele que entra nas sombras e nunca volta, vêm desde os tempos em que os homens viviam em árvores e descê-las após o sol se pôr era suicídio, uma coisa que já não fazia sentido, já que as feras do mundo estavam domadas e viviam em casas iluminadas, sentadas em salas e fumando charutos, bebendo suas bebidas caras e assistindo a seus programas de televisão. seus colegas riam dele quando ele contava tudo isso, chamavam-lhe de esquisito quando ele defendia as sombras como se fossem suas amigas. por isso achava melhor não falar sobre isso e continuar brincando, enquanto ganhasse no esconde esconde, tudo estaria bem e haveria sempre motivos para sorrir.

a lembrança da voz, entretanto, era uma constante na sua vida. desde que completara sete anos, todos os dias, se perguntava se aquilo tudo aquilo havia sido real ou se fora apenas um sonho bobo de criança – um pesadelo, como diriam seus pais quando ele mencionou o estranho fato – e qual seria seu verdadeiro significado, se é que tudo nessa vida precisava de um significado. ele não sabia se isso era verdade, não acreditava muito que havia motivos bem explicados para tudo no mundo e podia jurar a todos que os maiores mistérios da humanidade ainda nem foram arranhados. quando o questionavam sobre os motivos de suas crenças apenas dava de ombros, não sabia explicar, acreditava no que acreditava porque lhe parecia lógico, óbvio, nada além disso, uma sensação de que aquela é a forma certa, apenas. mas sua infancia passou sem que a escuridão tornasse a chamá-lo para contar-lhe mais de seus mistérios.

então chegou sua adolescência e já não era mais tão fácil manter um sorriso no rosto. essa foi a fase em que mais buscara o isolamento proporcionado pela escuridão. e não era sem razão, sua pele oleosa lhe proporcionava espinhas que às vezes inflamavam e se tornavam gigantescas bolhas amareladas que tomavam seu rosto e o deformavam de maneiras que só rostos adolescentes podem ser deformados. ele teve sorte de essas serem coisas um tanto quanto normais para qualquer cidadão nesse período da vida. ele sempre presava pela discrição, o silêncio, a calma e o silêncio. não era uma pessoa difícil de lidar, não brigava com seus pais mais do que qualquer outro na sua faixa etária brigaria, não arranjava confusões no colégio e uma vez ou outra se apaixonava perdidamente por alguma garota cujo nome ele não fazia a mínima idéia. tudo normal para ele, mesmo depois da noite em que a noite falou com ele.

ele não conseguia dormir. estava na cama há três horas e meia e nada de conseguir fechar os olhos e dormir. havia pensamentos demais em sua cabeça para que ela ficasse leve o suficiente para alcançar o sonhar. sempre há, e não há masturbação que alivie certos tipos. eram exatamente esses malditos tipos que o assombravam naquela noite. claro que se ele fosse comparar seus problemas de antigamente com os de hoje em dia, ele imploraria para que todos eles voltassem, mas ele não pode fazer isso e os problemas todos parecem muito melhores vistos de longe no futuro, quando todos eles estão com uma solução óbvia esparramada na nossa frente. temia que a qualquer momento sua mãe ou seu pai abrissem a porta do seu quarto e gritassem com ele qualquer ordem envolvendo fechar os olhos e dormir. ele lembrava de invejar os adultos e sua facilidade em simplesmente se apagar de forma tão fácil, evitar os malditos fantasmas que vinham conversar. mal sabia ele que os fantasmas só fazem falar mais alto com o tempo e que adolescentes não têm verdadeiros fantasmas, não têm problemas, não têm nada com o que se preocupar além de meia dúzia de matérias escolares. foi enquanto tentava ficar atento a qualquer movimento do lado de fora do quarto que a escuridão entrou em seu quarto através de todas as brechas possíveis: porta, janela, a moldura do ar condicionado. assustou-se a princípio, mas logo se acalmou, suas lembranças, que lutavam para permanecer em sua mente como algo real, chegaram em sua mente como uma enxurrada, então pensou: finalmente.

o encontro esperado com aquela que sempre o deixara fascinado estava acontecendo finalmente e, dessa vez, ele teria idade o suficiente para fazer perguntas, para lembrar, para ter uma conversa normal com a escuridão, seja lá como uma conversa normal com ela seja.

observou, então, enquanto toda a escuridão ficava cada vez mais densa na sua frente, fazendo-o com que nada enxergasse e, ao mesmo tempo, sendo ela tudo aquilo que ele via, preenchendo completamente sua vista com sua forma aforma. o escuro não veio para ele como sempre pensara que viria: uma bela mulher vestindo roupas coladas negras, talvez feitas de vinil – um tanto fetichista, ele deveria admitir -, que criaria um trono de sombras densas e sentaria nele e, assim, pareceria que flutuaria no ar, porque o quarto todo estaria tomado pela mesma escuridão sobre o qual ela sentava; então, cruzaria as pernas sensualmente e falaria com um tom profundo e calmo, com gestos precisos e confiáveis, as coisas todas que ele esperava ouvir e que não sabia o que seriam, nem conseguia supor. mas ele logo notou que não havia uma personificação para o escuro, assim como não havia personificação para luz ou para bem ou para o mal. todas essas entidades não podem ser contidas em tão pouco espaço. então entendeu que seus pensamentos eram tolos e se envergonhou deles. aceitou que aquilo que o cegava era o que ele esperava que o fizesse desde seus três anos, desde quando tivera seu encontro com ela e fora ninado por seus braços confortáveis. aquilo era a escuridão e era com ela que ele falaria.

foi precisamente com ela que falou, com quem tivera a conversa mais importante e esclarecedora da sua vida inteira, a que mais marcou e cujos detalhes jamais serão perdidos, aquela que jamais escapará dos recônditos de sua mente; a mesma sobre a qual nunca falara com ninguém em todos os seus longos anos de vida, porque foi o que foi prometido naquele quarto envolvido pelas trevas. naquela noite ele fez perguntas – várias delas tolas e infantis, muitas delas perguntas que ele nem sabia que tinha, mas assim que as lançava percebia que sim, precisava de uma resposta para elas também – e obteve tudo o que sempre sonhou, cada confirmação ou negação de suas suspeitas, seguidas de simples e lógicas explicações, sem muita enrolação, sem a subjetividade que você esperaria de uma conversa com a escuridão. também lhe foram ditas coisas que ele não fazia idéia da existência, os mistérios que antes lhe parecia impossível terem suas superfícies arranhadas, arreganhavam-se para ele como as pernas de uma prostituta francesa muito bem paga. a conversa com as trevas, no entanto, também não era uma conversa comum – com palavras e todas essas coisas que estamos tão acostumados – havia a mistura de conceitos intrínsecos à natureza do homem com as novidades que ele ansiava por conhecer e havia, então, todo o encaixe das peças, até aquele preciso momento, soltas desse quebra cabeças que alguns teimam em chamar de vida. naquele dia, ele foi contemplado com a visão macroscópica da existência. a escuridão tomou sua mão e o levou onde apenas seletos homens tinham ido antes. então, como se tudo o que existisse fosse uma pintura, ele foi se afastando de onde estava, grudado à tela de pano, onde ele era uma pequena gotícula de tinta, e percebendo aos poucos, à medida em que se distanciava, os contornos e os jogos de luz e sombras da pintura inteira e as cores ricas e os detalhes belos daquele quadro singular até que ele conseguiu enxergá-lo em sua totalidade. e era lindo.

depois daquela noite, diferente do que se pode pensar, ele não passou a ver a vida de uma forma tão diferente da que era acostumado, mas passou a perceber boa parte das coisas que antes lhe passavam despercebidas. tudo fazia parte do grande plano do acaso. o reino do caos ao seu redor e as infinitas possibilidades começavam a se expandir em sua mente e ele era capaz de visualizar com perfeição todas as conseqüências das escolhas quando queria fazê-lo. mas percebeu que se o fizesse sempre a vida não teria a graça da imprevisibilidade que tem. então, boa parte das vezes, ele simplesmente esquecia – ou fingia esquecer, para assim se convencer de que realmente conseguira esquecer, mesmo não tendo esquecido – que era capaz de ver tudo o que queria, que sabia coisas que todos os outros não sabiam. e quando ele sentia que precisava, mais do que nunca, perceber as conseqüências futuras de seus atos – ou dos outros, dependendo dos casos – , ele buscava nas trevas seu consolo, sua paz e sua resposta.

então completou sua adolescência e passou sua vida adulta tendo conhecimentos que nenhum dos outros seres ao seu redor possuia. às vezes achava que aquilo que sabia não era de fato tão significativo assim. mas havia dias em que notava que, sem o entendimento de como toda aquela maquinaria funcionava, achava que não conseguiria seguir em frente sem perder parte importante de sua sanidade. quando era tomado por sentimentos de impotência e desespero, como ocorre com a maioria dos humanos – mesmo aqueles que entram em contato direto com as trevas, a luz ou qualquer outro dos grandes aspectos da realidade -, recorria aos mistérios a ele revelados e tentava se acalmar relembrando da pintura inteira vista de longe e de como ela era bela e fazia sentido. então tornava a seu lugar no quadro, a pequena gotícula negra que forma a sombra de uma poeira. o mínimo, o ínfimo, o quase inexistente, o detalhe importante que não poderia faltar. quando se sentia melhor, voltava à sua vida no meio de tantos outros, seguindo seus caminhos como qualquer outro seguiria.

ele se escondia nas sombras porque ali era seu lugar, seu lar, o local ao qual pertencia. era para os becos escuros que ele fugia quando queria se sentir em casa, quando precisava se sentir abraçado e acarinhado. e era  ali, pelos braços das trevas, que ele era envolvido e tudo o que sentia, preenchendo-o lentamente, até que ele sentisse uma paz de espírito gigantesca, era a escuridão. nada no mundo seria capaz de perturbá-lo quando ele se mesclava às sombras. nada poderia chegar perto de ser comparada àquilo. então ele percebia que tinha consigo tudo o que sonhava e que não precisava de mais nada. como o quadro, ele estava completo.

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5 respostas para Escuro.

  1. Tá aí uma coisa que me dá medo…treva. Eu sempre acabo achando que entro nela porque quero. Ou melhor, que não saio dela porque não quero sair, quando calho de entrar. Há um pouco disso em cada um de nós.

  2. Marden disse:

    Muito foda, man.
    Gostei muito dessa personificação sem ser personificada da escuridão.
    Esse estilo sandman dos seus ultimos textos tá muito bom.

  3. isabelle disse:

    Bem ao estilo gaiman mesmo. Muito bom.

  4. Lud disse:

    Putz, gostei, gostei muito. Do modo claro e peculiar de como a narrativa de desenrola, da escuridão desmistificada do medo e vinculada a algo muito maior… Está dos que mais gostei no blog, até hoje! ^^

    :*

    (e vc me deve umas duas visitas! ¬¬)

  5. nelson disse:

    texto foda, man.
    não tenho muito o que falar, mas gostei mesmo do texto. a escuridão como escuridão e até mais que isso ficou legal. achei bonito, véi.
    força e honra!

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