Carro. (texto de fevereiro, nunca publicado, semi-revisado, mas não muito)

eram 10 da noite ou coisa assim. ela entrou no bar balançando aqueles seus quadris largos de um jeito que poucas mulheres saberiam fazer. sua pele de uma tez amarelada que me lembrava café com leite, muito leite, era coberta por panos de tons claros, uma camiseta branca que deixava à vista as alças de seu sutiã também branco e uma saia longa da cor de sangue coagulado, um amarronzado meio estranho de se ver em roupas que deixava tudo com a aparência de sujo ou caindo aos pedaços. caminhava com pés leves, que arrastava mais que levantava, dizendo com sons onde estava e para onde ia por onde quer que andasse. ela era magra e alta, as pernas longas e grossas juntavam-se ali por baixo de sua cintura fina formando ancas largas. tinha pequenas mamas que poderiam caber, sem esforço algum nas palmas das mãos e, ainda assim, capazes de satisfazer qualquer homem que quisesse nelas se esbaldar. seu rosto tinha algo de não comum. ela era linda, mas não uma linda dessas ordinariamente lindas, havia um tanto de beleza nela que era indecífravel. havia tristeza e dor de uma vida escondidos por trás da negritude brilhante de seus olhos lindos, duas estrelas no meio da maldita escuridão, queimando como supernovas e me atraindo como se eu fosse um de seus planetas. seus olhos eram capazes de me sugar para dentro dela. seus lábios finos me fizeram pensar que talvez não existisse outra pessoa no mundo com lábios tão finos quanto os dela. e era basicamente tudo isso que me passava na cabeça quando ela entrou pela porta do bar, caminhou por todo ele e sentou ao meu lado no balcão, onde eu bebia sozinho. já ia pela terceira ou décima terceira garrafa quando veio e sentou sua bela bunda no banco ao lado do meu e pediu uma bebida qualquer ao garçon que trouxe rapidamente. então ela encarou o bar com uns olhos que me fizeram crer que ela via detalhes que ninguém mais seria capaz de ver. naquele exato momento eu saquei que ela sabia muito bem o que era sofrimento e uma pessoa assim a gente não pode deixar passar sem tentar puxar para nossas vidas.

“a próxima dose eu pago.” eu disse sem dirigir meus olhos aos seus. disse alto o suficiente para que ela e o garçon ouvissem. tomei um gole longo diretamente da garrafa, senti o amargo da cerveja na boca, quase o gosto da vida.

ela acenou levemente com a cabeça sem deixar claro se estava concordando comigo ou se apenas se perdeu dentro de seus pensamentos em algo mais distante que tudo aquilo. preferi acreditar que ela estava dizendo sim para mim, olhei-a bem através dos cabelos curtos e negros que lhe caiam sobre a face. fiquei encarando por um tempo até que minha garganta ficou seca e me voltei para minha bebida. não trocamos mais uma palavra até que ela terminou seu drink num longo gole, virou para o barman, levantou um dedo fino e ele não exitou em trazer a dose que prometi, mais da mesma porcaria descolorida que ela acabou de engolir. eu pensava que ela não diria nem um obrigado pela bebida ou coisa do tipo, estava calada como antes, olhando o copo ser preenchido por gelo e depois pela bebida. o silêncio entre nós dois começava a me aborrecer, há certas pessoas com quem manter o silêncio é um ato incômodo, porque ali, entre esses dois seres, há tanto potencial a ser explorado que ficar calado encarando o vazio por tempo demais parece simplesmente desperdício, não faz o menor sentido. mas naquele dia não seria eu quem diria qualquer coisa para puxar um papo qualquer, até porque papos quaisquer não pareceriam ser o suficiente para que ela me desse atenção. aquele corpão não cairia na falsa lábia que os bêbados costumam acreditar que possuem, muito menos os que costumam beber num bar de esquina qualquer. um peixe grande num rio pequeno, ela não se encaixava ali e eu, pescador de fim de semana, não tinha o equipamento necessário para trazê-la pro meu barco. faltava isca, uma boa vara, um bom anzol. ela escaparia e eu nunca mais a veria.

foi ela quem puxou assunto. virou para mim e, depois de um demorado gole em seu copo longo cheio de gelo, perguntou se eu não ia falar nada com ela. eu sorri e disse que falaria sim, mas estava me decidindo sobre o que eu falaria. não seria bom simplesmente virar para ela e falar que achava que ia chover porque isso não seria uma boa base para se construir uma linha de conversa, não tem a consistência necessária para uma boa noite de papo.

“preciso de algo que me faça parecer engraçado sem parecer idiota; inteligente sem ser arrogante. interessante a ponto de fazer você pensar…” ela não me deixou terminar a frase.

“eu quero dar pra esse cara loucamente.”

“para quem?” perguntei olhando ao redor e voltando meu olhar para ela com um sorriso de desculpa estampado nos lábios. “ok, piada errada, jogada errada. e…não, que faça ela pensar que eu sou alguém que ela não vai se arrepender de conversar porque conseguiu mantê-la sem se sentir entediada numa conversa por mais de 15 minutos.”

“e você acha que eu dou para caras que não são assim?” ela me olhava com um sorriso sacana no rosto. um sorriso que qualquer um pode ver facilmente numa atriz pornô, mas que só surte o devido efeito numa garota comum, que não trepa por dinheiro na frente de uma câmera e, até aquele momento, ela não havia se revelado como uma delas.

“todas dão. uma hora ou outra.” tomei um gole direto do gargalo.

seu sorriso morreu, ela engoliu mais da bebida, lambeu os lábios finos, agora umedecidos e resfriados pelo gelo e vodca, acho, gelada.

“por que pagou a bebida?” ela perguntou apontando para seu drink. “digo… se não quer me comer, por que pagou?” ela parecia realmente confusa.

“a verdade é que eu não consigo ver uma moça bonita e não oferecer um drink a ela. você é uma moça bonita e… eu quero sim te comer, em momento nenhum eu disse que não queria. você tem um rosto lindo que seria a moldura perfeita para o meu pau, peitos pequenos que eu adoraria passar noites inteiras sugando, um buxinho incrível que só se nota quando você senta e sua camiseta levanta um pouco por qualquer besteirinha, um movimento ou coisa assim e eu só penso em como eu adoraria mordê-lo, uma cintura fina boa de segurar e uma bunda que, meu deus, é uma das mais desejáveis que eu já vi e, devo confessar, quando você entrou, pensei: ‘essa garota tem que sentar ao meu lado e eu tenho que levá-la embora daqui. porque meus olhos precisam ver esse corpo fora desses panos, essa linda bunda nua, essa mulher de quatro, minhas mãos precisam estapear essa carne’ e, desde então, tenho pensado em como agir.”

“a bebida foi sua ação, então?”

“é…a melhor que pude imaginar. um clássico e todos sabemos que clássicos nunca morrem.” tomei mais um gole da cerveja, ela estava quase no fim e eu começava a ter dúvidas se eu conseguiria uma ereção se eu precisasse de uma naquela noite. achei que estava na hora de parar com a bebida, pelo menos por uns minutos.

“e pra onde a gente vai depois daqui?”

“pra onde o seu carro levar a gente.” eu terminei com a minha garrafa, finalmente “além do mais, não gosto de escolher lugares.”

ela riu e foi aí que, pela primeira vez, notei em seus dentes o brilho metálico tão típico em adolescentes e que nunca conseguirei me acostumar em adultas. e ela era mais velha, seus olhos me mostravam que ela era mais antiga que eu que, apesar de ostentar pêlos mal nascidos num rosto mal esculpido, não passava dos vinte e poucos anos, com poucas marcas do tempo, enquanto ela tinha toda a idade em seus olhos e não ao redor dele, como todas as outras pessoas.
saímos de lá no carro dela e eu pensei na sorte que era ela ter um carro bom já que eu, àquela altura da vida, ainda vivia de empréstimos, de amigos e táxis. ela disse que iríamos à sua casa e eu disse ótimo.

e estava ótimo. a casa dela era um apartamento, prédio alto num bairro nobre da cidade. ao ver a sala eu já sabia que ela não precisava sair pra beber em bares baratos para se envolver com estranhos e levá-los pro seu lar, seu ninho. tempos depois eu entendi o porquê de ela fazer aquilo, descobri que era algo que a excitava, o desconhecido, a estranheza do corpo novo. sua sala tinha dois sofás, nos quais esbarramos ao tentar passar, entre beijos, para outro cômodo no escuro. seguimos diretamente para o quarto, onde a luz da lua entrava através de janelas de vidro com cortinas abertas. lá fora, o mar refletia o céu negro e a cama de casal nos serviu de arena onde brincamos nus. e brincar não quer dizer fazer sexo, mas simplesmente brincar como duas crianças bobas, uma fugindo da outra, gritando enquanto tenta escapar do aperto de um, como no jogo de pega, se escondendo sob as cobertas como no esconde esconde. e isso nos rendia risadas e mais risadas. nós, vestidos com nada além de pele e pêlos, gargalhávamos sobre um colchão. morremos algumas vezes e, por breves segundos, ficamos num silêncio sério, um olhando para o outro para, logo em seguida, soltarmos um sorriso leve, calmo.

o que tivemos durou um tempo. a duração dessas coisas nunca parece ser suficiente quando  se vive seu fim. é engraçado lembrar de tudo o que aconteceu, os detalhes, porque nos faz perceber com damos valor a coisas que realmente não têm nenhum valor. é claro que sei que houveram momentos que nenhuma outra pessoa será capaz de me proporcionar, assim como sei que nunca mais farei coisas que fiz com ela, sei que há coisas que sentirei falta (o cheiro dela, meu deus, o cheiro daquela mulher e as coisas que fazia na cama…) e há coisas que me farão agradecer por não mais estar com ela. mas há riso em outras pessoas e esquecemos disso quando é nossa pele que é beijada pela chama.

foi descobrindo que não havia espaço para um nós em sua vida que tudo entrou em combustão. foi ali que descobri seu tesão pelo desconhecido, por desconhecidos, pelo novo. havia me descoberto demais para ela, entregado coisas demais e, na cabeça dela, não havia mais nada ser descoberto, eu era um livro lido e, aparentemente, ela já sabendo de todo o final, não era tão interessante assim. eu entendi, estava tudo bem, doeu, é claro, pensei que não fosse seguir em frente, pensei que fosse parar ali, estancar, mas não. segui. hoje a vida me mostra coisas que antes passavam desapercebidas a meus olhos, hoje vejo garotas no bar e elas são lindas, fabulosas. não penso mais em parecer interessante, só penso em como quero colocá-las no meu carro e ser chupado por elas enquanto dirijo até o motel mais próximo daqui para lá comê-las como se fossem a última boceta do deserto. hoje tenho um carro e não vou mais a apartamentos de desconhecidas.

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4 respostas para Carro. (texto de fevereiro, nunca publicado, semi-revisado, mas não muito)

  1. “eu era um livro lido e, aparentemente, ela já sabendo de todo o final, não era tão interessante assim” triste isso.
    Essas garotas tristes que pegam todo mundo me lembram a lux das virgens suicidas.

  2. Lud disse:

    mas nenhuma das meninas do bar que você leva ao motel no carro é como aquela desconhecida..

  3. nelson disse:

    “tomei um gole longo diretamente da garrafa, senti o amargo da cerveja na boca, quase o gosto da vida”

    “a duração dessas coisas nunca parece ser suficiente quando se vive seu fim”

    frases legais, texto foda.

    lembra a lux sim, ela.

    FH

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