"ontem eu sonhei com você."

todas as vezes que meus olhos cruzam com o dela, penso em todo o esforço que tenho que fazer para poder desviar o olhar. é difícil para mim não pensar em todas as posições sexuais que aquele corpo belo poderia ficar. porra, por ela eu decorava o kama sutra inteiro e poria em prática, inventaria milhões de coisas novas para usar com ela. é impossível olhar para seu corpo bronzeado e não me instigar ao ver a marca de biquíni em seus ombros, fazendo a minha imaginação trabalhar e matutar como é que estariam esbranquiçadas as outras partes que não foram tocadas pelo calor direto do sol. aí eu a vejo e me vêm à mente os pêlos que quase ninguém mais vê, escuros, esparços. então, quando tudo o que consigo imaginar é aquela mulher sem roupas, quase conseguindo visualizar, de verdade, ela tirando a roupa, lembro de tudo o que aquela mulher representa e quase me arrependo de metade dos meus pensamentos. quase.

lembro de uma terça feira, feriado, em que fomos à praia. pegamos o carro, eu, ela, meu amigo – namorado dela – e uma garota com quem eu estava na época. saímos de casa de manhã e fomos para uma praia um tanto deserta, para evitar possíveis farofeiros. praia, veja bem, é um programa excelente entre as 16 e 18 horas, com o sol baixando e as pessoas sumindo, mas ela havia insistido na praia pela manhã e meu amigo realizava sempre as vontades dela.

chamei a garota que estava comigo, que achou excelente – era uma mocinha que gostava de praia. eu e ela não eramos um exemplo de casal perfeito, mas seguíamos do jeito que dava. na verdade, acho que estávamos juntos apenas por pura comodidade. parecia tão fácil gostar e aceitar.

a viagem até a praia escolhida foi tranquila, conversas amenas sobre temas não polêmicos, o céu, o mar, astrologia, o livro novo de algum escritor qualquer que eu nunca ouvi falar, enquanto eu tentava ouvir as músicas que tocavam no rádio e ignorar o máximo que fosse possível daquelas vozes irritantes que penetravam minha cabeça. o mar estava lindo e chamativo, um mergulho seria tudo o que eu precisaria para fazer meu dia. eu e meu amigo deixamos as coisas no chão e fomos correndo como duas crianças até o mar, onde mergulhamos na água fria. enquanto nadávamos e falávamos as putarias que não ousaríamos mencionar na frente das nossas companheiras, elas arrumavam as coisas, passavam bronzeador ou protetor solar ou o que quer que seja que está dentro daqueles tubos caros e cheirosos. foi então que notei o corpo da namorada do meu amigo, suas curvas, sua cor, seus olhos brilhando lindamente com a luz do sol que incidia neles. as mulheres vieram em nossa direção depois de um tempo e, quando ela nadou, lembro de ter pensado que ela poderia parecer facilmente uma sereia. depois de irmos de um lado para o outro por algum tempo, resolvemos sair da água. ela pôs o braço no ombro do meu amigo e começaram a andar para fora do mar. minha garota fez a mesma coisa, enlacei sua cintura e seguimos o casal. meus olhos grudaram naquele rabo quente e eu podia ouví-lo dizer: “vem!” então pensei, com toda a sabedoria do mundo: puta merda, isso não é legal.

na noite daquele mesmo dia, depois de transarmos pela segunda vez, enquanto esperávamos para começar a terceira, minha garota me diz algo. algo sobre a namorada do meu amigo. eu sou sincero com ela. as mulheres não gostam da sinceridade.

“ela é gostosa pracaralho.” falo com o tom de voz que indica que aquilo não é um elogio, apenas uma constatação de fatos. ela não parece gostar nem um pouco de saber a verdade. mulheres não estão prontas para a verdade, elas não sabem lidar com ela. foi com essa sentença que destrui um sorriso que estava em seu rosto e, junto dele, nossa terceira trepada da noite, e todas as outras que viriam depois dela se foram ralo abaixo. ela começou a fazer um pequeno escândalo, começou a falar alto, a me chamar de cachorro, insensível, filho da mãe. mandou que eu saísse do quarto, do meu quarto. e eu, besta, saí. fiquei na sala vendo televisão até que ela saiu pela porta da sala, toda vestida, com uma bolsa – minha, por sinal – com suas coisas. eu nunca mais a vi, a bolsa, claro, cruzei com a moça umas duas ou três vezes depois disso. ela parecia bem, não me importei muito. depois de poucas noites depois de perder minha bolsa, joguei-me de volta ao mundo. e tudo ia muito bem até que aconteceu.

era uma terça feira. boas coisas não acontecem nas terças feiras, isso é um fato universalmente conhecido e reconhecido. terças feiras são dias que são capazes de borrar as cores de um arco-íris. alguns meses haviam se passado desde o dia da praia, e eu estava de férias, bebendo com uns amigos n’algum bar. então eu a vi do outro lado, numa mesa cheia de mulheres. ela estava linda. rosto com pouca maquiagem, cabelos castanhos, ondulados, soltos até o meio de suas costas. uma mulher natural no meio de tantas outras cujas faces tinham tanta maquiagem quanto o rosto de um palhaço. resolvi falar com ela, perguntar do meu amigo, há tempos não tinha notícias. caminhei até sua mesa, abri um sorriso e comecei.

“oi, rebeca, como vai? lembra de mim?”

“claro que lembro! amigo do estevão, né?” ela não parecia muito feliz ao dizer o nome dele, mas conseguiu fingir bem o suficiente para sorrir para mim e me dar dois beijinhos. eu pude sentir seu perfume, e era bom.

“esse mesmo. eu estou com uns amigos ali” apontei para a mesa ” e quando te vi pensei logo no estevão. faz tempo que não o vejo. por onde ele anda? ele está bem?” e foi exatamente aí que o sorriso dela morreu. as amigas dela me metralhavam com o olhar.

“bem… o estevão e eu… a gente brigou. faz um tempo que eu não falo com ele, não sei como ele está.”

isso me assustou, os dois pareciam um casal exemplar há poucos meses. o que diabos teria acontecido? eu não podia viver com essa curiosidade crescendo em mim.

“o que aconteceu!?” fingi um ar de surpresa maior do que a que sentia. as amigas delas continuavam me metralhando. uma sussurrou algo no ouvido da outra. provavelmente perguntavam quem eu era e por que diabos esse ser insensível está insistindo num assunto que ele sabe que não é bom para ela. mas ela parece não se importa em compartilhar comigo sua dor. ela me fala de como meu amigo era diferente do que ela esperava e de como ele tinha uma garota nova em cada local que ele ia e de como ela descobriu que havia uma marina na vida dele e que ela estava esperando por ele ansiosamente.

eu, em pé, ouvindo tudo isso, fiquei um pouco sem reação quanto à atitude do estevão. devo ter dito alguma coisa do tipo “eu sei que eu sou amigo dele, que essas” e apontei para as amigas dela “são as pessoas que você precisa, mas pode contar comigo. acho que o que o estevão fez foi muito errado, rebeca.” eu disse que ela podia me ligar, me procurar e tudo mais, se quisesse. dei meu número a ela e voltei pra minha mesa. achava que nunca mais encontraria com aquela mulher linda.

na quarta feira à tarde, enquanto eu via um filme que tinha alugado, o meu telefone tocou. era rebeca me chamando pra conversar. ela disse que estaria esperando por mim num restaurante que eu não conhecia. ela me deu o endereço e às 19 horas eu estava lá, esperando que ela entrasse pela porta a qualquer momento. fiquei surpreso comigo mesmo ao perceber que minhas mãos suavam e eu sentia um frio na barriga. eu estava nervoso com o que, afinal? e quando ela entrou eu percebi o motivo. ela entrou usando um vestido simples, preto, caminhou até a mesa onde eu acenava para ela, mostrou seus dentes claros num belo sorriso e me cumprimentou com um abraço e dois beijinhos, o velho protocolo. seu perfume era maravilhoso e me lembrava jardins por onde eu queria passear. com ela, talvez.

falamos besteiras por um tempo, ela me contou com mais detalhes todo o problema com estevão e disse que sentia falta dele e que havia tempos que não amava tanto alguém e ele vem e faz o que fez. eu disse que era duro, que a vida é uma maldita montanha russa e ela me disse que estava cansada de montanhas russas e que queria andar em outros brinquedos. então ela me perguntou por que é que ele não poderia andar com ela na roda gigante? eu fiquei sem resposta. eu andaria com ela onde quer que ela quisesse. jantamos enquanto falávamos sobre as possibilidades da noite de quarta feira na cidade e percebemos, com certa tristeza, que o melhor a se fazer seria entrar numa das poucas boates e tentar dançar, ignorando boa parte das músicas ruins. eu não sou bom com dança, meu corpo parece não ter sido feito para se movimentar de forma rítmica e harmônica. ela riu quando eu esclareci isso e disse que não tinha problema, ela só queria a minha companhia. e foi ali que eu notei que havia algo errado.

depois do jantar partimos para o primeiro lugar que ela sugeriu, entramos e ela começou a dançar olhando para mim. de vez em quando ela sumia e voltava com uma garrafa dessas bebidas alcoólicas com gosto de refrigerante. outras horas eu me afastava e ia comprar uma cerveja e aí voltava para onde ela estava. ela continuava a mover seu corpo de forma sensual, olhando para mim, algumas vezes até chegando perto o suficiente para que eu sentisse o sabor do seu hálito quente. foi num desses momentos em que ela se aproximava que eu não consegui não fazer nada, eu simplesmente me aproximei o suficiente para que ela notasse que eu queria ela. a merda estava feita, me expus. tive medo que ela interpretasse tudo de forma errônea, que eu só estava fazendo aquilo para me aproveitar ou coisas do tipo. no entanto, seu pensamento não estaria nem um pouco distante da realidade. me senti um canalha por aquilo. nos beijamos. foi bom.

os beijos começaram a se tornar cada vez mais molhados e demorados. da pista de dança para o meu apartamento foi uma coisa rápida. não lembro quem sugeriu, mas foi algo natural. ela disse que o cheiro de maconha estava deixando ela com vontade de um tapa e eu disse que lá em casa eu devia ter um pouco.  no carro, ela falava sobre a vez em que ela e umas amigas fumaram maconha e beberam demais e acabaram transando e alisava minha perna enquanto eu dirigia, colocava a mão até perto da virilha, perto do meu pau. chegamos e fomos direto para o quarto no maior silêncio que conseguimos. ela tirava minha camisa enquanto nos beijávamos. tranquei a porta do quarto para evitar algum possível intruso na manhã seguinte. esquecemos a erva e simplesmente seguimos o caminho natural que beijos molhados num quarto trancado seguem.

a manhã que nunca esquecerei na minha vida se seguiu àquela noite. é aquela manhã de quinta feira que eu queria que se repetisse por toda a eternidade. acordei de alguns sonhos estranhos – envolviam alguns astros da música sertaneja, uma pedreira japonesa e ela usando uma cauda de sereia – e a vi ao meu lado na cama. a cabeça no travesseiro, dormindo como um ser humano dorme. e eu achei aquilo lindo. seu corpo dourado nu na minha cama, a velha ereção matinal que impede que eu mije durante a noite. eu consegui me controlar e ir até o banheiro do meu quarto. dei uma mijada rápida no chuveiro – porque seria impossível baixar meu pau logo depois de ver aquela mulher linda nua. voltei para o quarto e ela estava acordando. olhei para aquele rabo lindo e ele me disse: “vem, que hoje eu sou só pra você!” e eu fui.

hoje eu sei o que significa tentação. depois daquela noite e manhã, rebeca se foi. procurei-a mais algumas vezes. naquela mesma quinta, liguei chamando para sairmos. ela inventou alguma desculpa qualquer, estava claro que não queria mais me ver. não me sentia bem com aquilo, minhas tripas pareciam que iam dar nós. tudo o que eu conseguia pensar era nela e no que ela estaria fazendo. os dias passavam devagar e as madrugadas insones pareciam ter trinta e sete horas, até que um dia, enquanto andava distraído na rua, no fim das férias, encontrei com o estevão. perguntei como ele estava, disse que fazia muito tempo mesmo que eu não o via, tempo demais. ele concordou e me disse que estava bem, me explicou que esteve um tempo mal por causa da rebeca que terminou com ele há um tempo, mas que ele havia conseguido reconquistá-la e que agora era fiel e estava extremamente feliz por tê-la consigo novamente. provavelmente contou toda a história de como foi que fez para ganhá-la de volta. eu não ouvi mais nada. o mundo girou naquele momento.

desde então, todas as manhãs têm sido antecedidas pelo mesmo sonho daquela noite. hoje, quando encontro com estevão e ela, sinto uma enorme vergonha de mim mesmo, da fraqueza que ela me fez sentir. sempre tenho que me controlar para não olhá-la nos olhos tempo demais e me entregar mais do que fiz. toda vez que eu a vejo, lembro de sua frase naquela quinta, tento não sucumbir à vontade que me bate de dizer a ela que  “ontem eu sonhei com você e pensar em você me dá tanta saudade…” e tem sido assim desde aquele dia. então eu rezo, rezo mesmo, pedindo para que tudo aquilo se repita, para que ela perceba que o melhor pra si sou eu e todas essas tolas ilusões. por enquanto, eu resisto à tentação com essas fantasias. mas sinto que alguma hora não conseguirei me livrar do mal.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

7 respostas para "ontem eu sonhei com você."

  1. isabelle disse:

    Esta coisa de montanha russa e roda gigante me lembrou alguma coisa…O que será? =x
    Ficou muito bom o texto

  2. Sarah disse:

    Gostei desse texto, xu! De verdade!
    “parecia tão fácil gostar e aceitar.”
    às vezes parece mesmo! 😡
    Tinha que ser Rebeca, ne?!

    aah, o final… o final ficou muito bom!

  3. Não gostoi de sentir essas expectativas.Gosto do jeito que vc escreve, de como um ‘trepada’ no meio do seu texto não estraga todo o resto…não sei, é como conversar com amigos.

    =*

  4. Marden disse:

    Ficou muito bom, man.
    Tudo muito bem descrito do jeito certo. A narrativa ficou foda.

  5. nelsonnetto disse:

    Caralhooo!
    muito bom!
    nostálgico!
    genial!
    gostei muito velho, na moral!

    FH

  6. Tony disse:

    Esse ficou foda. Ansioso pelo inspirado em “Detalhes.”

  7. NEIDA ROCHA disse:

    Sonhei que estava nua e tinha o corpo dourado.
    Podes me dar uma explicação para esse significado?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s