o teu perdão.

“talvez você não acredite em nada disso. e eu nem peço que você o faça, porque acho que cabe a cada um de nós escolher nossas crenças. no entanto, respeitar essa individualização de pensamentos não quer dizer que eu deva me privar dos direitos de te achar ridícula e demonstrar isso todas as vezes que eu puder, através das minhas gargalhadas e olhares – se você não acredita no que estou falando. sabe, mulher, acho que você seria capaz de me olhar bem fundo nos meus olhos com os seus, depois de toda uma noite juntos trepando feito dois animais no cio- ou fazendo amor, como você prefere chamar nossas noites de conjugação carnal – e me perguntar, enquanto estamos suados, cansados, sugando todo o ar que nossos pulmões puderem, se eu realmente gosto de você, se eu sinto o mínimo de amor por ti. você também é capaz de dizer que não me conhece nem um pouco, enquanto eu penso que você é a pessoa que mais sabe sobre mim que eu conheça. você sabe minhas vontades e meus medos, sabe meus sonhos todos e meus pesadelos. você é a pessoa que pode me reduzir a pó numa só sentença ou que pode me fazer ser menos pozinho. mas você sempre consegue me surpreender ao descrer nas coisas que falo. como se eu fosse o maior mentiroso da face da terra – eu acho  que às vezes você deve realmente acreditar que eu sou e eu não entendo realmente os motivos de você pensar isso. eu rio sempre, porque é tudo o que eu posso fazer em relação ao que você acha ou deixa de achar quanto aos meus sentimentos e pensamentos direcionados a ti. você, com seu cabelo de todas as cores, tua boca de vários sabores, me faz pensar que o louco de tudo isso sou eu, quando, na verdade, sabemos direitinho quem é. você me diz que tem medo de me perder nesses meus surtos de loucura, só que quando vamos analisar os fatos, quem foge sempre é você e eu que tenho que ir atrás, correndo descalço no asfalto quente feito um louco fugindo do hospício ou um ladrão escapando da polícia, galopando na estrada como um filme romântico clichê, esperando que haja um engarrafamento n’alguma ponte antes de você chegar na auto estrada e ultrapassar todos os limites de velocidade existentes – porque sabemos que seu pé é um tanto pesado e que  a velocidade te deixa tão excitada quanto um beijo e uma lambida no teu pescoço. você até me diz que não faz sentido eu correr atrás, já que você é quem não quer mais nada, mas se eu não for, não encontrarei mais um bom motivo para seguir a diante. é sempre assim. nada disso é justo, mas quem foi que disse que seria? o conceito de justiça foi criado por nós homens e, desde então, tentamos aplicá-lo às coisas naturais e básicas do universo, como a vida, mas quem disse que elas seguiriam tais regras e leis? quem disse que  os próprios sentimentos,  que deveriam ser subordinados a nós, já que foram criados e alimentados por nós com todos os pensamentos e esperanças que temos, o fazem? eles acabam nos subordinando a eles e nos fazendo de gato e sapato. é muito complicado explicar toda essa baboseira, por isso que eu nem ouso tentar. eu simplesmente sigo, faço sempre o que me dá na telha e termino sempre te ferindo sem querer e me ferindo porque te feri e me arrependendo por te ferir e me ferindo mais ainda para que você veja que estou realmente arrependido e que jamais foi minha intensão causar o mal inicial, mas às vezes acho que não é essa a forma correta de se fazer as coisas e você me diz que não é, que eu ajo feito uma criança, me pondo de castigo como se assim eu fosse consertar tudo o que fiz, quando na verdade termino não mudando em nada o ocorrido. mas acho que quando você me diz essas coisas todas, você percebe que meu arrependimento nos meus olhos e nos meus gestos infantis é real e consegue, de alguma forma que eu não entendo, me perdoar. entenda que essa coisa toda que temos não faz o menor sentido, é extremamente irracional, mulher, meu bem, meu amor – ou o que quer que venha na cabeça para te chamar nas horas em que estamos a sós – mas quem disse que eu preciso de razão quando tenho você? quando tenho você, é somente isso que quero ter, para sempre, você: uma vida ao seu lado, uma morte ao seu lado, o que quer que seja que venha depois, se vier algo depois, como você acredita que vem e eu teimo em dizer que não para te ver ficando rosa, vermelha, roxa de raiva e eu me por a rir, mas que na verdade eu torço para que exista, já que se assim for, estarei mais e mais tempo ao seu lado – mas, veja bem, eu não acho que haja nada esperando por nós do lado de lá. para ser sincero, eu nem acredito que tenha um lado de lá, não faz a menor diferença, no fim das contas porque eu quero que você entenda uma coisa: eu quero e vou te amar até o fim, até o universo inteiro se expandir e se encolher, até as malditas estrelas se apagarem, até o tempo conhecer a eternidade, até que o último átomo se canse de existir e se despeça de seus prótons e nêutrons e elétrons e todas as suas subpartículas que eu não conheci porque meu ensino médio só me permitiu chegar até aí. agora olhe ao redor,  veja as pessoas putas da vida dentro dos carros. está um baita calor, um trânsito infernal. olhe para mim agora e entenda o que fiz, perceba que isso só aconteceu porque foi para você. então faça esse favor para mim, mulher, e saia desse carro, suba nesse cavalo e vamos embora daqui, porque estou cansado e quero tomar um banho contigo e dar umazinha antes de dormir ao teu lado.”

 

(texto originalmente publicado aqui e aumentado no dia 9 de janeiro)

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2 respostas para o teu perdão.

  1. Tony disse:

    Gostei pra caralho. Sinto que eu precisava ler isso exatamente hoje. FH!

  2. Marden disse:

    Muito bom, esses pensamentos Pv Custer.
    Já tinha gostado do outro e essa ampliação deixou ainda melhor.
    Gosto do modo como você usou a base desse final de Preacher para criar todo esse mar de pensamentos.
    Acho que só precisa de paragrafos, mais pelo formato do blog do que por uma necessidade do texto.

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