nova vida.

quando era jovem eu sonhava com as coisas que um dia teria na minha vida. todas as aventuras e os lugares fantásticos que eu sempre ouvi falar nas histórias contadas pelos meus pais e, principalmente, aquelas que eu escutava nos bares quando fugia de casa escondido à noite para ver os tipos esquisitos que circulavam pela cidade.

eu era uma criança tola, imaginativa, fantasiosa. via coisas nas sombras que nunca estiveram lá de verdade. meu pai, com cerca de vinte e oito anos, cabelos pretos e olhos quase da cor de piche, era dono de uma mercearia e minha mãe, de pele morena, olhos pretos, cabelos cacheados e um olhar de constante preocupação, cuidava da casa com minhas três irmãs mais velhas. eramos sete irmãos e eu era o mais novo de todos. nos torneios de luta de brincadeira, organizados por meus irmãos e que contava com a participação dos vizinhos e alguns primos que moravam perto, eu sempre perdia e era desclassificado logo no início. não que me faltasse massa, eu sempre fui um tanto acima do peso, mas a diferença de idade pesava muito mais do que meu corpo nessas horas e eu só consegui minha primeira vitória ao completar 10 anos. mas a essa altura as brincadeiras dos meus irmãos já não envolviam combater um ao outro no braço, mas competir entre si para ver quem conquistava as melhores garotas.

minhas irmãs sairam de casa para morarem com seus respectivos maridos. lea casou aos dezessete , quando eu tinha oito e engravidou no ano seguinte dando a luz a gemeos e morrendo após o parto. mamãe ficou sentimental por algum tempo e papai seguiu a vida e mandou que todos o fizessem porque era o que havia a se fazer; mia casou-se no mesmo ano, aos quinze anos de idade e engravidou dois anos após o casamento – achavamos todos que ela não seria capaz de gerar bebês, mas a verdade é que havia casado sem que o primeiro sangue tivesse escorrido; cassandra casou-se aos dezenove, quando eu tinha dezesseis e engravidou três meses depois da festa, dando a luz a uma bela menina. todas elas eram lindas e virgens quando saíram de casa, transpiravam inocência e beleza – e foi com elas que ficou toda a beleza da casa, enquanto eu e meus irmãos tinhamos que nos virar apenas com conversa sorrisos e um pouco de charme.

a adolescência foi um momento de certas dificuldades para mim, a língua começava a desejar seu par feminino e meu pênis se enrijecia com uma facilidade tamanha que às vezes me deixava constrangido e triste por não ter em quem introduzí-lo. mas as coisas estavam prestes a mudar. foi numa noite de quando eu tinha meus treze anos… meus irmãos mais velhos se reuniram e me arrastaram para o prostíbulo favorito deles, onde me pagaram a rameira mais barata que havia (“para que desperdiçar uma boa mulher com um garoto iniciante?” – eles disseram). foi uma noite da qual nunca esquecerei. as sensações espetaculares, aquele calor, a umidade, agradeci a todos os deuses por terem feito aquilo daquele jeito. não aguentei muito tempo e jorrei meu líquido dentro da mulher. naquela noite dormi com um sorriso no rosto. algum tempo depois daquela noite, algumas bolhas apareceram no meu membro, mas foram embora depois de algumas semanas esfregando bastante com água, sabão e vinagre de limão.

sobre meus três irmãos mais velhos, que me levaram ao local onde iniciei minha vida adulta, não há muito o que se falar. os três casaram cedo dando início a suas próprias famílias e negócios, de forma que, quando alcancei os dezesseis anos e vi minha última irmã casar, fiquei só na casa com meus pais. nessa época terminei meus estudos – da família, eu havia sido o único a apresentar algum interesse pelos caminhos do conhecimento. papai continuava com sua mercearia – se havia sustentado nove pessoas com ela, podia muito bem sustentar somente três – e mamãe agora que a casa esvaziara e o trabalho diminuira drasticamente, já não tinha mais com o que gastar seu tempo, de modo que me importunava quase todas as horas do dia. é de conhecimento geral que uma mãe, ao ver seu filho sossegado em seu canto, sente dentro de si tamaho incomodo que não consegue acalmar-se. além de estudar, eu trabalhava como mensageiro de um dos meus professores, no entanto, no meu coração, a vontade de viajar pelo mundo e conhecer tudo o que ele pode ser e oferecer se reavivava a cada dia, crescendo e se tornando maior do que a da minha infância.

certa noite, fugindo das conversas irritantes da minha mãe, encontrei refúgio na taverna que eu frequentava quando tinha cinco anos e tudo o que queria era ouvir histórias de outros lugares. quase treze anos depois, eu já não queria escutá-las apenas, minha vontade era ser parte de uma delas. estava eu tomando um caneco de cerveja quente quando um homem alto de cabelos curtos e negros e porte físico atlético-forte começou a se gabar de ter participado das maiores aventuras que qualquer um poderia imaginar. é claro que isso parece uma conversa pra boi dormir – ele começara a contá-la exatamente como contavam quando eu era criança -, mas havia algo no jeito do homem que a falava que o fazia parecer completamente confiável. talvez fosse sua capa um tanto desbotada e suas botas de viagem completamente gastas, apesar do aspecto limpo de sua pele e seus cabelos. eu não sei bem o que foi, mas ao ouvir a história do homem, levantei-me, fui para fora do bar, urinei numa das paredes de madeira do lado de fora, entrei novamente e prestei bastante atenção a ele. em determinado ponto da história, ele apresentou um amigo seu, magro, cabelos longos presos às costas, pálido e com olheiras que pareciam de alguém que não dormia nunca. ele dizia que esse era um dos seus companheiros de grupo de aventuras. observei-os bem e esperei que terminassem o falatório.

quando a história acabou, depois da minha quinta caneca de cerveja, caminhei até o homem forte que se encontrava afastado do seu companheiro. ele me olhou nos olhos e senti que estava sendo analisado. o sangue correu para minhas bochecha e isso me deixou constrangido, porque sei que ele notou. tentei falar alguma coisa, mas minha voz não saiu. ele sorriu para mim.

“tenha calma, amigo, eu não vou machucar você. vamos lá, fale o que quer…” ele era amigável e caloroso, me senti menos intimidado.

“b-bem, senhor.” disse eu numa voz baixa e tímida ” e-eu g-gostaria de saber se o senhor me aceitaria como acompanhante do seu grupo de aventuras.”

ele pareceu um pouco surpreso.

“ora, veja só! não recebo muitas dessas propostas.” ele coçou a nuca “dio, venha aqui!” disse gesticulando para o homem magro do outro lado da taverna. mais uma vez eu senti o sangue corando minha face.

o homem se aproximou de nós, me encarou com seus olhos cinzentos e profundos que se encontravam no meio daquelas olheiras escuras e eu senti um frio gelando minha espinha, parecia que ele podia ler cada um dos meus pensamentos.

“pois não, alter?” disse o homem com uma voz fria e calma como um lago sem vento. era a primeira vez que ouvia o nome do contador de histórias.

“bem, o jovem amigo aqui” ele colocou a mão no meu ombro e me olhou “qual o seu nome mesmo, amigo?”

“hã… meu nome é damien.” meu olhar se deslocava do homem forte para o magro e dele de volta para o outro.

“bem, o damien aqui quer se juntar ao grupo, o que você acha, hein?” ele dizia tudo com um bom humor que me fazia desconfiar que eu estivesse servindo de alguma piada para os dois. dio encarou alter e depois me olhou por um tempo, calado.

“bem, por mim tudo bem, temos que falar com a outra metade do grupo.”

“é verdade” disse alter “damien, o que é que você sabe fazer?” os olhares dos dois se voltaram para mim. a taverna inteira continuava com suas conversas altas e eu não conseguia pensar em nada extraordinário que eu soubesse fazer.

“bem… sei ler, escrever, entendo um pouco das artes da cura e da culinária, além de saber avaliar um pouco gemas e pedras preciosas – essas coisas eu aprendi em livros, não garanto muito a prática. graças aos tomos eu aprendi sobre história e geografia e tenho um pouco de conhecimento de macenaria e entendo um pouco sobre a forja de armas e armaduras, mas não sou muito bom com o manuseio de espadas. entendo de portas e fechaduras – já tive que desmontá-las e remontá-las algumas vezes na minha casa…”

“calma menino” disse alter rindo “não precisa perder o fôlego. falaremos com nossos amigos. eles estão descansando na estalagem. iremos falar com eles agora e dentro de meia hora estaremos de volta com a resposta. fique aqui.” ele sorriu para mim, encarou dio nos olhos e saiu pela porta. os olhos cinzentos pousaram sobre mim mais uma vez, de cima a baixo e seguiu o homem corpulento. estava prestes a viver a meia hora mais demorada da minha vida.

as pessoas ao redor não se importavam que minha vida poderia mudar completamente naqueles minutos por vir, tudo o que elas faziam era continuarem com suas vidinhas, bebendo, falando alto, jogando dardos no alvo pendurado na parede, perdendo dinheiro, ganhando dinheiro, gargalhando, o mundo continuava ali dentro e eu não era parte dele porque tudo poderia mudar drasticamente, e eu esperava ansiosamente por isso. tomei um outro caneco de cerveja e acabei correndo para a porta para vomitar do lado de fora. estava nervoso demais. entrei novamente e fiquei sentado numa cadeira em frente ao balcão do taberneiro. não bebi mais nada. cada segundo parecia meia hora e um século havia passado até que os dois homens voltaram a aparecer no bar, agora acompanhados por uma mulher ruiva de olhos verdes e pele bronzeada, usando um vestido leve e florido que grudava em seu corpo bem fornido e cheio de curvas e um homem careca e barbado de quase dois metros de altura que parecia algum tipo de sacerdote vestindo roupas que pareciam de dormir. os quatro se aproximaram de mim.

“damien” disse alter “esse é ostaf e essa moça linda é dara. eles são o resto do grupo.”

naquele exato momento eu não queria saber de nada daquilo, só queria saber a resposta.

“prazer, eu sou damien.” eu tentei sorrir para os dois, mas temo ter falhado drasticamente na tentativa.

“bem, damien.” disse a mulher. sua voz era suave e bela. ” soubemos que você gostaria de se juntar a nós. o que te levou a essa decisão?”

fui pego um tanto desprevinido com essa pergunta, pensei que eles fossem me dizer diretamente a resposta. eu precisava saber!

“bem, dara… desde pequeno eu sempre quis me juntar a um grupo de aventureiros e agora que tenho idade o suficiente para sair por aí – tenho dezessete anos e oito meses – gostaria de realizar esse sonho.”

“filho…” disse o homem que parece sacerdote ” você sabe que essa vida não é fácil, não é? que requer vários sacrifícios e que noites como essa, em tavernas, contando histórias, são resultado de dias na estrada, dormindo no chão duro e longe de casa há muito tempo, não sabe?”

“sim, eu sei, senhor. é exatamente isso que sempre desejei. não o chão duro, não as tavernas, mas a estrada, o companheirismo e a aventura.”

os quatro se olharam.

“veja bem…” dio começou a falar “no momento nós achamos que nosso grupo está com o número perfeito.”

comecei a sentir um desânimo me assolando, tomando conta de mim por dentro, estava prestes a ruir, tinha medo que fosse chorar a qualquer momento.

“mas…” continuou ele, senti um aperto no peito quando ouvi essa palavra saindo de seus lábios “achamos que você, especialmente, poderia ser uma aquisição boa para o grupo. seja bem vindo, damien. partiremos amanhã pela manhã. esteja na estalagem quando o galo cantar com suas malas. você tem montaria?”

fiquei estupefato com a notícia. estava exultante e não sabia como reagir. fiquei parado por um tempo. a taverna inteira pareceu se calar, mas isso não aconteceu de verdade, foi apenas perspectiva.

“filho…” senti a mão de ostaf em meu ombro e seus olhos castanhos encontraram os meus “você tem montaria?”

“oh” disse eu voltando à realidade “não, não. quer dizer… meu pai tem alguns cavalos, dois ou três para fazer algumas entregas da mercearia. talvez eu possa pedir a ele um deles para que eu possa montá-lo e viajar com vocês.”

“bom. faça isso.” falou dio. “nos encontramos na ‘estalagem do sol poente’ amanhã quando o galo cantar. até mais, damien.”

“até.” disse eu, excitado com tudo o que havia me acontecido.

“tchau.” me disseram o resto do grupo, saindo da taverna todos juntos.

naquela noite cheguei em casa, arrumei minhas coisas e disse a papai e mamãe que estava saindo para conhecer o mundo. meu pai falou para eu tomar cuidado, concordou em me passar um de seus cavalos. já a mãe não foi tão condescendente, fez um pouco de manha, disse que eu estava abandonando ela, disse que eu era seu bebê e que não podia ir embora assim, mas o pai explicou a ela que já estava na idade de eu sair de casa como os outros fizeram. ela parecia inconsolável, mas eu disse que essa era minha escolha e que pela manhã estaria indo embora. voltaria quando desse e que tentaria mandar alguma mensagem para ela assim que encontrasse um serviço de mensageiro confiável. fui dormir com ela dizendo que não aprovava aquilo e que eu só queria causar desgraça a ela com esse meu mau comportamento, mas, antes do cantar do galo ela estava me acordando com um beijo e um abraço, dizedno que me amava e me entregando minhas coisas todas arrumadas na porta de casa.

cheguei na estalagem montando o meu cavalo e todos já estavam na porta esperando por mim. o galo cantou. eu sorri. disse um bom dia a todos e me falaram que rumariamos para o sul, ouviram falar de um homem que comanda um vilarejo rico com mão de ferro. o sol se levantava no leste e o galo cantou mais uma vez. era uma vida nova que se iniciava para mim naquela manhã. e eu estava pronto para ela.

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2 respostas para nova vida.

  1. Isabelle disse:

    Quero jogar RPG :~~

  2. Marden disse:

    Fodão, man!
    Os detalhes e as descrições ficaram muito bons.
    Essas são coisas que só o Rpg pode nos proporcionar.

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