não adianta.

às vezes você vai se olhar no espelho e, ao mirar sua imagem refletida, vai tentar fingir confiança e dizer para si mesma: “eu já não penso mais nele.” então, perceberá que ao fazê-lo você está pensando em mim e todas as lembranças possíveis de vir à tua cabeça virão. aí você quase irá chorar porque nota que todos esses meses que você lutou para não sentir minha falta foram em vão e que agora você se sente mais só do que nunca. as lágrimas começam a brotar no canto dos olhos da imagem no espelho e escorrem pela sua bochecha lentamente até que você toma coragem e as enxuga com a palma da mão. ao sentar na cama atrás de ti, tornas-te inconsolável e cai no choro incontrolável. apóias o rosto nas mãos e os soluços tomam teu corpo, que se agita como uma epilética. deitas na cama.

ao fechar os olhos, no entanto, você sente o familiar cheiro das flores que eu te trazia todos os dias e que você colocava no criado mudo que ficava à cabeceira da nossa cama, que agora é só tua. então você vira a cabeça, esperançosa, em direção ao móvel onde deveria haver o vaso, mas você não encontra nada: sem lírios, sem cartão que diz que eu te amo, sem o porta retrato com a foto de nós dois abraçados na beira de um lago congelado, completamente agasalhados, rosto com rosto, sorrisos gigantescos dados para aqueles teus amigos que faziam alguma piada. você, não enxerga nada disso, apenas vê as horas: 23:42.  você resolve levantar porque a cama começa a te trazer todas as recordações que você não queria ter nesse momento e você quer fugir delas.

caminhas até varanda, passando distraída pela sala, para olhar o movimento. a noite é calma e isso te faz pensar que é algo bom. fecha os olhos e sente que o vento frio toca a tua pele e você se sente lavada, acha que seus fantasmas foram levados todos pra longe de você. então, ao levantar as pálpebras e o conjunto íris pupila se ajustar à luminosidade, você enxerga de longe um homem de cabelo volumoso. então sentes dentro de ti uma pontada de saudades e não faz a mínima idéia do motivo. você olha o céu, vê a lua crescente e se vira para entrar na sala. súbito, você lembra de todas as vezes que te falei de quando deixei meu cabelo crescer e usei um black power por uns meses. agora você sabe dos motivos de se sentir daquele jeito. caminhas até o sofá e liga a televisão para evitar novos pensamentos.

entre uma passagem de canal e outro você cai num daqueles que exibem pornografia em horário nobre, então, ao ouvir todos os gemidos falsos das atrizes, se lembra de todos os orgasmos que eu fui capaz de te dar sem você quase nunca pedir. então vai lembrar das nossas primeiras vezes, os primeiros beijos, as primeiras cópulas, os primeiros eu te amos e você lembra da tarde em que, depois de fazermos sexo por quase duas horas, eu virei para você e disse “eu te amo e amo e amo e alguém como eu, que te ame tanto, você nunca irá encontrar e isso não é nenhuma praga ou coisa do tipo, é apenas a mais pura constatação de fatos porque… bem… porque eu sempre amo o máximo que se deve amar, mesmo quando não se deve fazê-lo. e eu te digo isso tudo e digo que eu sou um tolo e que nesse exato momento você pode me foder como ninguém poderia fazer mais no mundo inteiro. e você pode nem acreditar em tudo o que eu digo – e nem espero que o faça – porque eu falo as coisas de uma forma diferente, estranha, semantica e gramaticalmente erradas. mas eu te digo tudo isso, meu bem, com a mais profunda e bonita sinceridade, sem a mínima ostentação. eu te amo e acho que o meu amor é o maior que se poderia haver. eu não sou um dos milhares de últimos românticos e você sabe disso muito bem porque… bem… porque eu nem sou tão romântico assim… mas é isso que eu tenho a te dizer agora, depois dessas horas entrando e saindo de você. eu te amo.”  e você vai pensar que essa foi a coisa mais linda que alguém já disse para você e que eu estava certíssimo quanto a isso, porque você sabe do esforço que fez para não dizer meu nome a todas as outras vozes que te falaram ao ouvido durante as tuas relações sexuais, sabe que elas só disseram nada perto de tudo o que eu disse, você sabe que o suposto prazer que eles te dão não é nada perto do que eu te proporcionei. então você resolve desligar a televisão e voltar para o quarto porque você precisa de uma noite de sono e não de fantasmas do passado te assombrando com esses pensamentos.

no caminho para o quarto você ouve um automóvel passando veloz na tua rua e lembra de quando você tinha aquele carro barulhento que mal se movia, mas que nos levava para onde queríamos com um pouco de vontade e um tiquinho de esforço. de repente vem à tua mente as lembranças daquele piquenique que fizemos num campo duma cidade de interior que visitamos só porque achamos que ela tinha um nome esquisito e curioso. então fomos lá e não encontramos nada além daquela vastidão campestre. lembra da textura da minha calça favorita, desbotada de tanto uso. você lembra dos sorrisos, dos carinhos, da alegria e sente falta de tudo aquilo.

então, ao entrar no quarto, você abre o teu guarda roupas à procura de algo meu. encontras um álbum de retratos antigo, que você abre ansiosa, desejando me encontrar nalguma daquelas imagens, mas em nenhuma delas estou. você sente um imenso arrependimento de ter rasgado e queimado todas as minhas lembranças físicas: fotografias, presentes, cartas. o silêncio no cômodo é quebrado pelos teus soluços. você se levanta, deita na cama com o rosto no travesseiro, que abafa teus lamentos e cai no sono, mas não sem antes pensar que na verdade, por mais que você tente, me esquecer será impossível, que embora o tempo passe e leve embora muitos dos detalhes que formam as lembranças, como cheiros e sabores, ele jamais conseguirá apagar por completo tudo o que nós dois fomos, porque sua passagem não deixa de ser um detalhe que enriquece ainda mais cada uma das nossas memórias.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

4 respostas para não adianta.

  1. Tony disse:

    sensacional. o foda é vc saber que a mulher tá assim por vc. talvez eu possa conhecer o sentimento, mas acho que é a empolgaçao e a veia RC falando mais alto.

  2. isabelle disse:

    É muita presunção, gosto não disso. =x

  3. Marden disse:

    Muito bom, man.
    Ficaram muito bacanas as descrições de detalhes que trazem lembranças.
    Luas crescente e black power…

  4. Lah disse:

    cara, eu acho que adianta.
    um dia adianta.

    =*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s