a casa.

estamos fugindo deles desde que tudo isso começou, há sete meses. não sabemos como e nem o porquê. é como nos filmes e os menos preparados se vão primeiro. é uma piada da natureza que nos faz enxergar que realmente só os mais aptos sobrevivem, a prova de que darwin estava completamente certo. os criacionistas e outros crentes foram os primeiros a morrerem, rezando dentro das igrejas que estavam despreparadas para aguentar os ataques. eles falavam alguma coisa sobre o fim dos tempos e que o livro sagrado dizia tudo. mas se realmente dizia tudo, não eram eles que deveriam estar aqui, contando a história, e não eu? acho que isso é uma das mais lindas ironias já vividas por mim. depois que os mais fracos foram eliminados – e foi tudo tão rápido que contar o que ocorreu de verdade é impossível, só dá para imaginar que alguém infectou alguém que infectou alguém e como tudo isso é muito fácil de ocorrer – uma simples mordida -, logo todos estavam infectados. era difícil viver lá fora, no começo principalmente. posso dizer que os que estão aqui dentro, na casa, são os dez maiores sobreviventes que já conheci, criaturas espertas nas qual eu deveria confiar, mas não confio. e não o faço simplesmente porque seria uma estupidez sem tamanho fazê-lo. de todos que aqui compartilham um teto, nessa mansão onde nos escondemos de todos lá fora e nos sentimos seguros por causa dos muros altos de pedra e um portão de ferro blindado, eu conhecia poucos e não o suficiente para saber o quanto minha vida importa para eles. afinal de contas, depois de perder todos os amigos e família, perder um conhecido não faz diferença.

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estamos todos mortos. não faz diferença se sobrevivemos a tudo o que passamos. estamos todos mortos, é nosso destino, não dá para escapar, eu sei disso, tenho certeza. essa casa não conseguirá ser um local seguro para sempre, há muitos deles lá fora e mesmo havendo poucos de nós aqui, a comida não durará para sempre. eu olho para o rosto desses desconhecidos e penso qual deles irá enlouquecer primeiro, qual irá, no meio da noite puxar uma faca e matar a todos nós, qual irá pensar que dividir a comida não é mais um ato de solidariedade, mas apenas um ato de suicídio. me pergunto todas as noites onde está o deus por quem eu rezava, por que diabos ele não faz alguma coisa agora e nos salva todos. minha mãe costumava dizer que não devemos deixar para deus o que podemos fazer, mas acho que agora eu não posso fazer nada a não ser temer. e onde ele está? ele não desce dos céus soltando bolas de fogo e relâmpagos nesses monstros que nos espreitam lá fora. nada disso. assisti a minha mãe ser devorada pouco depois dela rezar para que deus nos protegesse dentro de casa. mas numa tentativa de fuga de casa, pouco antes de eu encontrar a todos que aqui estão e chegar nesse lugar, ela foi mordida pelo meu irmão. desde então eu tenho me perguntado se todo o tempo que gastei idolatrando e orando, sendo uma boa serva do senhor, serviu de alguma coisa.

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estou feliz por ter achado todas essas pessoas, assim eu não me sinto tão sozinho. sinto falta da mamãe e do papai. se não fosse pela minha mana mais velha eu não estaria aqui hoje. me sinto bem porque aqui dentro a gente pode esperar enquanto tudo lá fora se acalma e volta ao normal. tenho saudades de brincar com alguém, minha irmã nunca brinca comigo, ela sempre está preocupada com alguma coisa e nunca tem tempo pra mim. não tem mais ninguém para brincar aqui dentro, é um saco. queria ir lá fora pra poder correr no jardim e jogar bola, mas todo mundo diz que é perigoso demais. aqui dentro é muito chato, não tem energia, então não tem videogame, nem tv, nem computador, nem nada! quando chega a noite tudo fica escuro e, quando vamos dormir, ouvimos o barulho lá de fora, que vem dos muros, não é legal, me dá muito medo. minha irmã disse para eu não ter medo porque alguma hora eles iam sair dali, mas eu acho que ela está mentindo, às vezes eu penso que a gente nunca vai sair daqui.

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eu olho para ele e fico pensando em tudo o que ele nunca vai ter. ele nunca vai dar um beijo, nunca vai fazer sexo, nunca vai poder crescer e passar pelas coisas que as pessoas normalmente passam. desde que tudo isso começou, sabe-se lá como, eu tenho tentado salvar nós dois. foi quando encontrei esse pessoal, eram menos quando me juntei a eles, depois fomos crescendo e chegamos a quase quarenta pessoas, mas ao longo do caminho fomos os perdendo para aquelas coisas. há um cara aqui dentro que me assusta, ele já estava no grupo quando eu me reuni. sempre noto que ele fica me olhando estranho com seus olhos injetados no rosto magro, a barba por fazer, o cabelo branco e escasso, ele deve ter uns cinquenta e poucos anos, a idade do meu pai, talvez, mas aparenta ser bem mais velho devido o mal cuidado que é tão comum entre todos aqui os sobreviventes, que largaram mão de coisas como aparência para se importar mais com continuar respirando. procuro me afastar dele o máximo possível, interagindo apenas quando necessário, mas não sei até quando poderei continuar assim. um dia, quando não conseguia dormir, deitada ao lado do meu irmão, notei que ele estava parado no escuro ao lado da porta. ele estava com as mãos dentro da calça, ou foi essa a impressão que tive com a pouca luz que vinha das velas na casa. não comentei nada com ninguém sobre isso, mas acho que devia, só não sei em quem confiar.

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é quase o décimo dia de todos nós aqui na casa. os dias aqui dentro têm sido fáceis se compararmos com a situação lá fora. não há sinal de energia elétrica desde o segundo mês do ocorrido e a água é pouca, mas suficiente para mais dez dias, no mínimo. a comida é bastante, havia um belo estoque aqui dentro, é uma casa rica, de algum político influente. chegar aqui foi fácil, o problema vai ser sair com todos os monstros do lado de fora. mas espero que demos um jeito nisso até quando for completamente preciso. talvez pulemos os muros para o vizinho e eles nem notem, talvez ao fazer isso nos condenemos à morte. pensaremos em algo, se chegamos aqui, somos espertos. antes de ontem houveram alguns problemas na casa. uma discussão entre uma garota de seus vinte e poucos anos com um cara um tanto esquisito. ela dizia que ele estava a seguindo para todo o canto com um olhar estranho e disse também que já havia pego ele se masturbando enquanto olhava para ela durante uma noite. havia um homem de bigode, de cerca de quarenta anos, que apoiava ela, dizendo que ele não devia fazer uma coisa assim e que todos nós aqui dentro deviamos tentar uma convivência harmônica porque só tinhamos uns aos outros. depois disso tentei conversar com o homem que foi acusado, mas ele só fez me olhar e sair de perto. uma mulher viu o ocorrido e disse para deixar para lá, cada um com seus problemas, logo todo mundo estaria morto.

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já houve a primeira baixa aqui dentro. hoje, quando fizemos a distribuição de comida pela manhã, percebemos que um casal havia sumido pela noite. começamos a desconfiar uns dos outros. não sei quem os outros acham que fez isso, mas eu acredito que tenha sido o homem acusado de perseguir uma outra garota aqui na casa. ele é bem estranho e tem umas atitudes suspeitas. não sei o que aconteceu com os dois, não encontramos corpos na ronda pelos jardins da casa, mas encontramos umas pegadas nos fundos, levando até a casa ao lado. foi por causa delas que não expulsamos o cara daqui de dentro e o condenamos a morte lá fora, porque talvez o casal tenha tido a vontade de se aventurar lá, a genial idéia de cometer suicídio, porque andar no meio daqueles animais que se tornaram nossos entes queridos e conhecidos é pedir para morrer de uma das maneiras mais cruéis e dolorosas possível. eu ria de coisas ridículas como essas quando as via nos filmes e nos livros, mas agora tudo se tornou realidade e eu tenho medo porque agora acho que não exista um depois daqui, que o máximo que poderemos chamar de pós vida é o que vemos agora: esse errar em busca de seres humanos, com o único e enorme desejo de saciar a fome que se tem ao devorá-los por inteiro.

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os dias só fazem ficar mais e mais chatos aqui dentro. eu queria comer batata frita e sanduíche, queria que a mamãe me levasse na casa da vovó, onde eu passava o tempo brincando e correndo, queria que o papai me levasse para tomar sorvete. eu sinto falta de sorvete, de ver desenhos e filmes de super heróis. eu queria meus bonecos. não tem brinquedo nenhum nessa casa, e ela é tão grande. eu sinto fome de vez em quando, fome como eu nunca havia sentido antes. aqui dentro a gente só come duas vezes por dia, de manhã e de noite, aí dormimos e continuamos a escutar as coisas lá fora batendo no portão e tentando entrar. um dia desses encontraram um deles no jardim, depois de cortarem a cabeça dele, viram que ele era uma pessoa que antes estava aqui dentro. um moço legal, de bigode, que sempre conversava comigo e com a mana sobre coisas legais. ele falava sobre futebol e vôlei, fórmula 1 e outros esportes que eu gostava de acompanhar. eu falei a ele da vez em que meu pai me levou pra ver um jogo no estádio e dos gols que aconteceram e de como foi legal estar ali e ele me disse que sempre ia ver as partidas na arquibancada e que levava o radinho de pilha dele e escutava. eu perguntei a ele pelo rádio, se ele estava com ele ali para podermos escutar algum jogo lá fora e ele me disse que tinha perdido ele fazia tempo. foi o melhor dia aqui dentro, o moço ela legal e agora não está mais aqui.

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eu tenho certeza que foi ele, o cara que vivia me seguindo, tenho certeza que foi ele quem matou o seu ari. eu ainda não sei como ele fez isso e nem o porquê, mas não confio nele, nem um pouco. desde que eu falei ao seu ari, um homem muito bom, que logo encantou meu irmão com suas conversas sobre esportes, sobre o ocorrido naquela noite em que o vi se masturbando enquanto me olhava e tomou uma repreensão dele, o cara estranho tem ficado longe de mim, não o tenho visto mais, apenas nas manhãs, na hora da divisão da comida. aqui dentro, agora, somos apenas sete e um deles é esse cara completamente bizarra que me dá calafrios só de olhar. os dois sumiços da semana passada nos deixaram com um pouco mais de comida e um tanto de preocupação, desconfiei do cara, lógico. não me parece que mais ninguém aqui dentro seja capaz de fazer alguma coisa contra os outros, não nesse ponto. começamos a nos conhecer bem melhor agora e, com exceção do esquisitão, todos nos tornamos amigos, ou algo assim. desconfio até que há um casal que se formou aqui dentro. acho que não é bem amor o que eles devem sentir. na verdade, acho que eles estão juntos por causa da mistura de medo da morte com o impulso sexual que nunca abandona os animais. eu sinto falta de carinho, de sexo, sinto inveja dos dois, mas eu olho para meu irmão e penso que existem coisas mais importantes com o que se procupar agora, nossa sobrevivência vem em primeiro lugar.

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a cada dia que passa a tensão aumenta aqui dentro. há pessoas convencidas de que o fernando é quem anda empurrando pessoas para fora da casa e condenando-as à morte certa, mas não há provas o suficiente para condenarmos ele. nada aponta para ele, todos os sumiços parecem ter sido decisão de quem foi embora, suicídio, talvez não tenham aguentado a pressão, talvez tenham percebido que nunca mais na vida verão as pessoas que amam e que tudo o que eles acreditavam tenha se provado uma enorme mentira e suas psiques tenham se quebrado em milhares de pedaços e os tornado extremamente frágeis e fracos. talvez, no fim das contas eles não tivessem chegado até aqui por serem mais fortes e espertos, como eu acreditava, mas por pura sorte e acaso. sendo assim, talvez até tenha sido melhor que eles tenham ido. mas eu não sei… talvez haja mesmo um assassino entre nós e eu não consigo imaginar quem seja. talvez tenha sido até mesmo a mel… não, não acho que a mel tenha matado alguém, mesmo em seu estado abalado, não creio que ela tenha sido capaz de matar alguém. a comida está perto do fim, as refeições são cada vez mais escassas, tendo dias em que apenas comemos uma vez. todos aqui já emagreceram bastante e isso é preocupante, estamos fracos e não sei se seremos capazes de fugir daqui rápido o suficiente e com firmeza e segurança quando precisarmos.

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mais duas pessoas sumiram. agora somos apenas cinco. a quase certeza que tenho é que fernando é quem está mandando todas as pessoas para fora da casa. não sei como ele faz isso, ele não parece forte o suficiente para jogá-las através dos muros, mas se tivesse que condenar alguém, seria ele. só o vemos pelas manhãs, quando temos que dividir a comida do dia, depois ele some pela casa. quando alguém pergunta onde ele fica, responde que está na biblioteca da casa lendo alguma coisa. e é bem verdade, todas as vezes que alguém vai na biblioteca/escritório, lá está ele, sempre lendo. mas não há mais de quem desconfiar! paulo foi o único que manteve algum contato com fernando, eles conversaram bastante e acho que se identificaram. eles se respeitam e não interferem na vida um do outro, creio que é por esse motivo que ambos se dão tão bem, porque eles não parecem se incomodar com o que o outro está fazendo ou nem ao menos dar o menor valor às vidas que se perderam. para eles, talvez, tudo o que importa é que eles tenham sobrevivido até agora. mas isso tudo não passa de uma ilusão! a sobrevivência é temporária, o fim está próximo e, por mais que eu goste do paulo, por mais noites que tenhamos passado juntos tentando fazer silêncio enquanto fazemos sexo para não acordar as outras pessoas da casa, a morte está mais próxima de todos a cada segundo e nada do que fizermos vai anular isso, só temos que aceitá-la.

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as pessoas continuam saindo da casa. todo mundo está procupado com isso. às vezes eu me assusto com as pessoas daqui de dentro. saudades do papai e da mamãe, muitas, queria que eles estivessem aqui comigo e com a mana. outro dia a tia mel veio conversar comigo e aí a gente ficou brincando a tarde toda. foi legal, mas não é como as coisas eram lá fora. aqui dentro ninguém parece gostar de rir, acho que isso lembra como foi boa a vida antes de tudo o que aconteceu acontecer, não sei. um dia desses eu encontrei a mana chorando num canto. eu perguntei se ela estava bem, ela sorriu, enxugou as lágrimas com as mãos e disse que sim, que tudo tava bem e que eu devia ir pro quarto. eu tava pensando comigo mesmo e percebi que nunca mais vi o moço que a mana disse que seguia ela, quando eu encontrei com ele, ele tava na biblioteca, lendo um livro sem figuras. perguntei o que ele tava lendo, mas ele só olhou pra mim e não respondeu. depois disso eu fui embora dali porque não tinha nada com desenhos legais. acho que ninguém aqui da casa gosta do moço, minha irmã diz que ele é mau e que é pra tomar cuidado com ele. eu não acho que ele seja malvado. ele só é calado, ele devia largar aqueles livros só com letras e brincar um pouco.

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os últimos dois dias foram horríveis, a comida está quase no fim e a mel morreu. encontramos seu corpo no jardim da frente ontem de manhã. seu pescoço estava quebrado e ela estava nos degraus iniciais que dão na porta. na noite anterior à sua morte, depois de transarmos, ela disse que iria lá fora pegar um ar. eu disse que era perigoso, mas não me ofereci para acompanhá-la, uma falha sem tamanho. o que parece é que ela tropeçou e caiu com o pescoço no degrau. os fatos apontam para isso, mas começo a desconfiar do meu amigo fernando. todas as vezes que anunciamos um sumiço ou morte ele não esboça nenhuma reação, não parece sentir surpresa ou medo ou raiva ou qualquer outro sentimento. completamente apático. agora somos eu, ele, o menino e sua irmã, que vivem isolados de todos no quarto deles. a comida da casa ainda vai ser suficiente para uma semana se continuarmos com uma refeição por dia, depois disso teremos que buscar outros locais. estamos aqui há quase oito semanas. e a água e comida têm rendido devido às baixas da casa, se antes eu já estava atento, agora devo zelar completamente pela minha vida.

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a tia mel foi embora agora e eu não sei o motivo, mas encontraram ela na porta da casa. eu gostava muito dela, ela brincava comigo e me contava histórias legais e me ensinava piadas engraçadas. a minha irmã está com cada vez mais medo e eu fico tentando dizer a ela que ela não precisa ficar com tanto medo porque eu protejo ela. aí ela me ri, soluça, chora e aí me abraça e fica assim por um tempo até que eu tento sair do aperto dos braços dela e dos beijos que ela fica dando na minha cara. ela fica me babando com uns beijos, eca. essas coisas me lembram a mamãe e o grude que ela era. eu sinto falta dela, mas não disso, não gostava de quando ela apertava meu rosto e essas coisas, já sou um homem, eu dizia, era vergonhoso aquilo. ela me dizia que eu ainda era o bebê dela. eu sinto falta de ser o bebê da minha mãe. um dia desses eu estava andando pela casa e vi uma revista em que o papai aparecia, senti muita falta dele e percebi que eu não lembrava da voz dele e da mamãe. eu mostrei pra a mana a revista com a foto dele de terno e gravata e ela começou a lacrimejar. acho que ela sente muita saudade deles também. queria que tudo voltasse a ser como era antes logo, está demorando demais.

****

agora somos só eu, meu irmão e o louco assassino. hoje pela manhã, ao descer as escadas, vi os pés do paulo pendendo no ar, girando de um lado para o outro, uma corda no pescoço o mantinha pendurado ao lustre da sala, sua cabeça estava roxa. não consegui tirá-lo de lá. estou desesperada! tenho certeza que o homem bizarro vai nos matar assim que tiver a oportunidade e ela virá rapidamente, a não ser que eu aja primeiro. tenho que dar um jeito nele logo, não podemos ser vítimas desse lunático, tenho que salvar meu irmão, tenho que fazer isso porque é o que irmãs mais velhas fazem, porque é o que meus pais iriam gostar que eu fizesse! estou trancada com ele no nosso quarto e penso que eu devia tentar dar a ele uma vida normal, ou o mais próximo disso que fosse possível atualmente, mas não sei se serei capaz, sei que para isso tenho que fazer o monstro assassino pagar por todas as mortes que cometeu aqui dentro e deus sabe se houveram outros lá fora! e será hoje à noite, me esgueirarei na biblioteca, que é onde ele vive e o matarei. tenho que proteger meu irmão desse pervertido, salvar nossas peles e nos manter vivos.

****

onze semanas nessa casa, tentando me isolar o máximo possível de todos para poder me salvar, perdendo amigos sem motivos aparentes, sentindo falta da minha família, minha esposa e filha – que se parecia muito com a garota que contou a todo mundo que eu me masturbava enquanto a observava da porta do seu quarto, mas na verdade eu estava segurando a foto da minha filha dentro do meu bolso e derramando lágrimas ao lembrar dela, que vi sendo devorada viva na minha frente enquanto eu nada podia fazer a não ser correr. tenho lido bastante para tentar entender o que está acontecendo lá fora, mas não há nada aqui nessa biblioteca que indique algum motivo para a maldição que nos acometeu. dos sobreviventes iniciais, só restaram eu, a garota e seu irmão assassino, e tenho certeza que eles virão aqui hoje. ela pensa que eu sou o matador e fará de tudo para que ela e ele se manterem vivos. devo me cuidar para sobreviver não somente a eles, mas aos predadores que esperam lá fora. o número deles já diminuiu consideravelmente, é verdade, muitos morreram de fome, muitos comeram uns aos outros, mas ainda há um número ameaçador lá na porta. hoje à noite tenho certeza que ela virá me visitar pela primeira vez. não será algo amigável, no entanto.

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minha mana mandou eu ficar esperando no quarto. ela me disse para ficar aqui dentro por toda a noite e que era pra eu não sentir medo em nenhum momento porque ela ia nos salvar e então saiu e trancou a porta, girando a chave na fechadura, mas eu já tinha achado antes uma chave extra pra todos os quartos da casa e escondi comigo, ninguém nunca achou. eu sei o que ela vai fazer nessa tentativa “heróica” de salvar a gente, sei o que ela pensa que precisa fazer. eu acho tudo isso engraçado, porque sei também que ela não vai conseguir, ela é fraca demais para muitas coisas desde que os monstros apareceram, vive chorando nos cantos, se lamentando pelas perdas que tivemos. eu sinto falta do papai e da mamãe, é claro, mas eu acho que se estou aqui é pra continuar vivendo e não vou ficar me lamentando pelas coisas do passado e nem ficar passando fome por causa de pessoas que eu nem conheço que estão acabando com a minha comida. eu mesmo devia fazer o que ela planeja. ela diz que vai me defender, vai fazer a coisa certa para nos manter vivos, mas eu é quem devia proteger ela.

****

deixei meu irmão trancado no quarto para protegê-lo, para que ele não veja o que farei para nos manter vivos por um tempo que pode ser curto demais ou longo o bastante, eu não sei. eu disse a ele que logo logo tudo isso iria passar e que poderíamos voltar a viver lá fora. eu me entristeço por ter que contar uma mentira dessas a ele, mas eu não sei como manter as esperanças sem mentir descaradamente. acho que mesmo ele já percebeu que as coisas não vão melhorar pra a gente e que nada vai voltar a ser o que era antes. se não fosse por ele, talvez eu já tivesse me matado há muito tempo, talvez eu nem tivesse chegado aqui. ele tem me dado a força que preciso. ó, deus, eu preciso conseguir terminar com tudo isso agora. dê-me forças, ó senhor, para conseguir pegar esse assassino e enviá-lo direto para o inferno.

****

a noite passada foi extremamente confusa. estava decidida a dar um fim na vida do homem que eu acreditava ser o monstro assassino de todas as pessoas da casa. cheguei ao local onde ele passou quase todas as horas da nossa estadia nesse lugar, a biblioteca, pouco depois do sol se pôr e a escuridão dominar a casa. na minha cabeça eu pedia forças a qualquer entidade sobrenatural capaz de me apoiar nessas horas, mas agora acho que tudo o que fiz foi bobagem, rezar tanto foi em vão. quando abri as portas do aposento em que ele se encontrava, avistei-o lendo algum livro à luz de velas, olhou-me quando entrei pela porta, mas parecia não se preocupar com minha presença ali. aproximei-me dele devagar, segurando firmemente a faca com que pretendia assassiná-lo. tentarei reproduzir com o máximo de precisão o que houve lá dentro, por mais confuso e irreal que tenha me parecido.

“venha, se aproxime.” ele me disse sem levantar o olhar, que se mantinha nas folhas do livro. falou comigo com uma calma que me deixou mais nervosa por estar ali, faca na mão, pensando em fazê-lo sangrar até a morte. então fechou o volume que tinha em mãos e dirigiu o olhar para mim “sente-se e diga em que posso ser útil a você.”

eu simplesmente não pude acreditar no que ele estava falando! ele achava que poderia ser de alguma utilidade para mim! não pude me conter e sorri. um riso amargo que naquela luz deve ter feito eu parecer alguma louca.

“ser útil?” eu perguntei num tom de voz que eu mesma estranhei. era arranhado e esganiçado. “em que você pode ser útil, seu assassino!? você pode ser útil morto!” e avancei para cima dele, que pulou para trás numa esquiva rápida para a idade dele. a verdade é que eu nunca ataquei alguém e devo ter sido lamentável ao fazê-lo, de forma que um velho poderia ter feito o mesmo que ele fez. a luz de vela bruxuleava, quase ficamos sem ela com o meu ataque irracional.

“vamos pensar um pouco…” ele disse estendendo as mãos espalmadas na minha direção, tentando me dizer para ter paciência “você acredita que eu tenha acabado com todos que estão aqui na casa, não é mesmo? você acha que eu os condenei à morte um por um de várias formas, não é?” ele me dizia isso como se houvesse um outro que poderia ter feito aquilo, como se não fosse óbvio que entre os três sobreviventes ele seria o único capaz de fazê-lo.

“não há nada a ser pensado, seu assassino! você matou todos eles! e o que eles fizeram a você? te ajudaram a se manter vivo enquanto todos ao redor estavam morrendo! você se aproveitou da boa vontade de todos e da cooperação e matou todos quando achou que nenhum deles lhe servia mais de alguma coisa! você foi um porco louco e egoísta! e agora vai pagar por tudo o que fez no inferno!” mais uma vez eu pulei para cima dele com a faca em punho, mas ele conseguiu segurar minha mão. caimos no chão, ele por cima de mim, tentando me separar da faca. com a luta no chão, ele tentando me desarmar e eu tentando me manter com a faca – e falhando – o pé de um de nós bateu na mesa onde a vela estava, fazendo-a cair no chão e se apagar. naquele momento, a única fonte de luz no aposento provinha da fraca lua que se mantinha no céu lá de fora.

“você não entende que eu não fiz nada disso que você diz que sou culpado? não percebe que nós dois somos inocentes e logo seremos vítimas? não entende que” ele foi interrompido por uma pancada recebida na cabeça, que o fez rolar para o lado e urrar de dor. olhei para meu salvador e era meu irmão. do alto de seus sete anos, havia me salvado das mentiras do assassino, que começava a se levantar ao meu lado, e garantido nossa sobrevivência. tateei pelo chão em busca da faca para poder terminar com o que pretendia, mas fui distraída pelo grito do meu irmão, que acabara de cair no chão, largando o pedaço de madeira que trazia consigo e sendo puxado pelo louco.

“largue ele!” ordenei. o homem naquele momento agarrava meu irmão, que gritava alto, agitando as pernas no ar, impossibilitado de se movimentar.

“você não entende.” a voz dele estava fraca “você não entende que o verdadeiro assassino o tempo todo foi seu irmão…”

eu não podia acreditar no que ele estava falando. como podia ele acreditar que uma criança teria matado todos da casa? como ele poderia pensar que um inocente menino poderia ter feito isso?

“você é louco! louco! não tente pôr a culpa no meu irmão! ele estava comigo todo o tempo! quem matou todos foi você e agora tenta dizer que foi uma pobre criança? seu monstro! largue ele agora!”

ele continuava segurando meu irmão com força, enquanto este se debatia em seus braços nas tentativas de escapar do apresamento.

“entenda, menina, que o verdadeiro mal aqui é ele! foi ele que, usando a aparente inocência, trouxe a morte e maldade para dentro do nosso local seguro. foi ele quem fez tudo isso! não deixarei que você morra tentando salvar o verdadeiro monstro aqui. não deixarei que essa criatura vil escape ilesa, sem pagar as consequências de seus atos! ele deve morrer para que assim nos salvemos, entenda que eu nunca fiz mal a ninguém, perceba que ele foi o arquiteto de todo esse plano.”

“cale a boca! cale a boca!” parti para cima dele para tentar liberar meu irmão, mordi-lhe o braço, fazendo-o urrar de dor e liberar o pequeno de seus braços. “corra, mano! corra!”

meu irmão não correu, ele pegou a faca que estava aos seus pés e enfiou na barriga do homem que tentava lhe imobilizar novamente. fiquei parada, só olhando aquela cena: um menino de oito anos enfiando uma faca num homem.

“mano, corra!”

ele continuou parado, observando o homem que se ajoelhava de dor. pegou a faca e enfiou mais uma vez no tórax que sujeito. ele estava frio e parecia não se importar com o que fazia, parecia que matar, para ele, era tão natural quanto brincar com seus brinquedos, parecia que tudo aquilo era uma brincadeira para ele. então eu vi em seu rosto um sorriso e um brilho maléfico em seu olhar e senti um frio na espinha que fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem. e então pensei que o que o homem falou talvez não fosse a mentira, essa frieza toda talvez provenha do fato de já ter matado antes. ó, deus, ó deus, por que não existes? por que não existes para parar com tudo isso, para fazer as crianças não mais matarem? por quê? o homem me encarou nos olhos enquanto sangrava, enquanto meu irmão continuava a enfiar o metal frio em suas entranhas.

me esgueirei por trás do pequeno, que se fazia grande perante o homem quase morto, e acertei-o com o mesmo pedaço de madeira com que ele acertou o homem na cabeça quando pensei que ele tentava me salvar. ele caiu no chão. dei mais alguns golpes, até que a madeira se quebrou em seu corpo já deformado de tantos golpes. aos meus pés, dois corpos ensanguentados, dois mortos. só eu havia sobrevivido, então. todo o meu trabalho para salvar meu irmão havia sido em vão e ele terminou morrendo pelas minhas próprias mãos. ele, o assassino. ele, o assassino? comecei a repensar em todas as noites e as dúvidas voltaram à minha mente. talvez eu tenha errado, talvez meu irmão só estivesse salvando minha vida, talvez ele tenha feito aquilo tudo por medo de perder a única coisa que o lembrava da vida lá fora. ó deus, eu havia me tornado um monstro! então resolvi sair da casa. haveria de morrer lá fora, devorada pelos monstros.

fazia silêncio, abri os portões de ferro da casa depois de muito esforço, pus os pés na rua e não havia nada. as centenas de corpos apodrecidos estavam caídas no chão, mortos de fome. há quanto tempo poderíamos sair da casa? não sei. não encontro ninguém ao redor, nenhum movimento, nada vivo ou morto-vivo. ajoelho no chão, me arrependendo de tudo o que fiz. então, me pergunto: e agora, o que fazer? parece fácil pegar a faca que meu irmão usou e cortar meu pescoço, parece muito fácil, mas eu não sei se é isso que eu realmente quero. o sol começa a nascer. eu quero ver se ainda existe alguém na cidade, quero ser capaz de dizer que sobrevivi ao fim do mundo. é um egoísmo imenso, um egocentrismo sem tamanho, mas é a verdade. eu não quero morrer, não agora que parece que tudo chegou ao fim. então eu acho que vou seguir em frente, vou comer a comida que restou, descansar um pouco em paz, tentar não pensar no que aconteceu e seguir em frente, porque é uma nova vida num mundo novo, e eu acho que estou pronta para ele.

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5 respostas para a casa.

  1. Marden disse:

    Muito bom, man.
    Exterminio 1,5… heh
    O lance dos varios narradores ficou bacana.
    O pivete ser o matador foi meio estranho, mas esses são tempos estranhos mesmo…

  2. isabelle disse:

    Oo Porra, que foda… olha aí as inspirações de Resident Evil.

  3. nelson disse:

    muito bom, cara.
    até gostei do pirralho assassino, embora n tenha visto motivos reais.
    mto grande o texto, mas os vários narradores deixaram ele muito fluente.

    FH

  4. Lud disse:

    o pirralho assassino foi uma boa sacada, só faltava ter exposto um pouco os motivos do garoto.
    mto bem escrito e fluido. nem um pouco entediante. gostei 🙂

  5. nelsonnetto disse:

    comentando de novo só porque gostei do pivete sendo o assassino e tudo ficou lindo assim ❤

    FH

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