frustrações. (um texto ruim de madrugada)

com todo o tempo que tenho passado acordado, tenho esquecido um pouco do que é que eu tanto falava quando era mais novo. aliás, o problema não é o que eu falava, que eu posso muito bem lembrar, mas é como eu falava, como eu sentia, como era toda aquela coisa juvenil de se sentir certo no mundo errado, de se sentir errado no mundo errado, de achar o mundo todo errado porque ele é errado e não há quem diga que não é porque todos sabem que é. eu não lembro como é sentir raiva de desejar coisas que não se podia ter, não me recordo de como antes eu me sentia com a minha relação de amor/ódio de ficar só no meu canto, calado, pensando. não lembro como é querer passar boa parte do tempo só. hoje eu sempre procuro alguma companhia e mesmo quando eu não procuro, encontro alguém pra não me deixar só. minha avó costuma dizer que não fica só porque isso a faria pensar e a essa altura da vida, tudo o que ela menos quer é isso. eu acho que entendo ela, mas eu gosto tanto de pensar. às vezes, mesmo acompanhado eu paro e fico um tempo em silêncio para poder pensar na vida, no universo e em tudo mais. eu ainda continuo com essas histórias, com esses mesmos sonhos de conseguir pensar, mas eu já não acredito que seja capaz de encontrar soluções aplicáveis a problemas maiores que eu, maiores que o mundo em si. me frustro por inúmeras coisas todos os dias: por não gostar de estudar, por não conseguir aprender, por não me interessar por nada que possa construir alguma coisa para mim algum dia, por não ter dinheiro, por não ser um orgulho para ninguém, nem para mim mesmo. mas são cada vez mais raros os dias em que eu me revolto com isso, que não aceito que essa é uma parte normal da vida e que uma hora ou outra todos passarão por ela e seguirão. talvez eu esteja em um dos conflitos que erikson propôs, talvez eu esteja fazendo uma tempestade em copo d’água. mas eu sei que nada disso é, de fato, importante. não é importante para ninguém o que eu gosto ou desgosto, quem amo ou quem acho que deveria sumir porque o fato de que essa pessoa existe me deixa triste por todas as pessoas que um dia entrarão em contato com ela; não é importante os sonhos que tenho e os que deixei de ter, nem o que eu penso sobre uma coisa ou deixo de pensar. esse texto inteiro não faz a menor diferença. tanto podia estar aqui como não estar e isso é uma verdade indubitável. eu queria saber usar palavras difíceis em textos, queria colocar conceitos complicados que eu saiba, com aqueles termos que ninguém entenderia e eu pareceria uma pessoa que sabe das coisas, mas eu não sei. eu não entendo conceitos simples, esqueço palavras que acabei de ler e elas bem podem ser paralelepípedos – e eu lembro da primeira vez que minha mãe me disse essa palavra, eu estava no ônibus quando ela me disse “paralelepípedo” – ou interleucinas e prostaglandinas. eu esqueço assim que as leio e não importa quanta atenção eu preste, eu sempre vou esquecer algum pedaço do todo. é assim que eu sou e tenho sido desde que nasci. eu não entendo de muita coisa, talvez eu possa dizer que conheça alguns livros e alguns quadrinhos, mas isso não vai me fazer ser melhor em nada, não vai me sustentar quando eu precisar de um sustento. talvez seja verdade que nenhuma cultura é inútil, mas não é com todas que se pode conseguir dinheiro. é necessário conhecimentos aparentemente inúteis, é preciso horas e horas de potenciais boas leituras desperdiçadas por causa de livros explicando em dezenas de páginas que seu coração bombeia sangue no seu corpo. eu me frustro com isso, me sinto um derrotado ao perceber que tudo o que sei não parece valer muito, na verdade, parece valer absolutamente nada. estou cansado de escrever esse pseudo texto de revolta, onde culpo tudo que não gosto, onde digo que não há muito que preste nesse mundo. mas eu devo dizer que mesmo escrevendo todas essas merdas, me sinto extremamente grato por cada coisa que tenho, até as que odeio. me sinto grato por acordar para me sentir um burro todas as segundas e quintas, por me sentir um incompetente nervoso todas as terças e sextas, por me sentir um irresponsável completo todas as quartas, sábados e domingos. sou grato por todas as vezes que me desespero pensando na saudade que sinto das pessoas com quem eu queria estar: meu pai, minha mãe, minha avó, minha namorada, meus amigos, minha casa, meu quarto, minhas coisas, meus livros. sou grato por ter um lugar que detesto estar porque assim percebo o quão importante é estar onde se gosta, onde se quer, onde se sente bem. eu me canso muitas vezes de toda a minha repetição e gostaria sinceramente de ser capaz de parar com isso, mas acredito que seja algo muito maior que eu, muito maior que tudo o que há, porque é só parar um pouco tudo o que está fazendo e pensar sobre todas as vezes em que você já fez algo e perceber que a vida é uma grande repetição onde todos os dias você acorda, se frustra, levanta, se frustra, vive a vida, se frustra, deita, se frustra, dorme e é nos sonhos que muitas vezes podemos fugir de frustrações, mas não é sempre, então é possível frustrar-se ou não. é assim que é tudo o que é, tudo o que há e tudo o que continuará sendo: um ciclo ininterrupto de frustrações e incapacidades e cada uma delas é uma forma de crescer e se entender, de perceber que mesmo com todas as merdas que podem acontecer, tudo ainda é grande demais para ser jogado numa cova de sete palmos antes que se tenha provado do sabor da vida. eu tenho esse enorme desejo de entender que, mesmo sendo sempre frustrado, nunca me abandonou. então, quero entender até que não seja capaz de viver.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

3 respostas para frustrações. (um texto ruim de madrugada)

  1. Tony disse:

    você descreveu muitas pessoas com esse texto. eu sou uma delas. gostei muito e me deixou afim de escrever.

  2. Isabelle disse:

    Tmb acho uma droga minha repetição. :/

  3. Mina disse:

    É, sei como é isso. Eu mudo tanto e tanto, mas mesmo assim acho que vou continuar me descrevendo como frustrada pro resto da vida…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s