k.

certa manhã, ao acordar de sonhos eróticos, com o membro sexual ereto e uma vontade gigantesca de urinar, k. percebeu que não havia se transformado no banquinho da bicicleta ou na calcinha daquela menina, como havia pedido tantas vezes antes. estava frustrado e queria voltar a dormir seu sono tranquilo, onde ele era um homem rico e poderoso e estava acabando de receber um boquete da megan fox e prestes a meter o pau na natalie portman, mas nada disso parecia ser possível devido ao enorme barulho que se fazia do lado de fora do seu quarto.

a vida havia de continuar para k. e não tinha nada que ele pudesse fazer para evitar sem que ela deixasse de continuar como ele conhecia, ou seja, a alternativa a tudo aquilo era a boa e velha faca correndo rua a baixo e não ao redor do mundo como é poetizado em tantas fotos de meninas que se acham os seres mais sofridos da terra quando, na verdade, estão apenas começando a prova do sofrimento real que é viver. k. sabia que aquela escolha não era a coisa mais inteligente a se fazer se ele quisesse continuar com as coisas que precisava fazer: respirar o ar da manhã e tossir fortemente devido a seu vício em cigarros que ele teima em jamais abandonar, comer as maravilhas da culinária gordurosa que promete matar todo mundo lenta e deliciosamente, cagar em grandes quantidades toda essa comida ingerida e sentir suas tripas vazias, tomar o café que constitui seu maior vício – maior até que o tabaco, enfim, todas as coisas essenciais para uma boa vida não saudável. k. sabia que o segredo de morrer era morrer aos poucos, cada dia um pouco, como tudo que existe, e não simplesmente preparar uma seringa cheia de KCl e aplicar na veia.

k. levantou-se, tossiu, foi ao banheiro dar um fim naquela ereção matinal, escarrou um material esverdeado na privada e começou a urinar com o pau meia bomba, o que era o suficiente para iniciar uma boa urinada. k. se deliciava com as pequenas coisas da vida: controlar seus esfíncteres era um luxo que adorava. sabia que quando chegasse o dia em que seus músculos formadores dos esfíncteres saíssem de seu controle, sua vida estaria completamente desgraçada, então vivia cada minuto feliz por ter esse controle tão importante. depois de balançar algumas vezes e deixar que o último pingo fosse na cueca, porque sempre é e não há muito que possa se fazer quanto a isso, foi até a cozinha, pôs um copo de leite no microondas e jogou uma porção de cereal num prato fundo. olhou o mundo lá fora através da janela da cozinha e lá embaixo o mundo corria dentro de carros e ônibus e motos e coisas que fazem muito mais barulho do que k. gostaria que existisse no mundo. foi para a sala e ligou a tv.

k. gostava dos programas matinais, adorava ver a grade infantil que as emissoras preparam, com todas aquelas apresentadoras deliciosas usando saias minúsculas, exibindo suas coxas grossas e falando como se as crianças fossem todas retardadas ou coisa do tipo. k. se imaginava calando a boca de todas elas, se imaginava comendo todas elas por trás, ao vivo, enquanto elas pediam mais e toda a população assistia àquilo tudo. k. também gostava de alguns desenhos que eram exibidos, mas achava que muitos deles eram responsáveis pelo real retardo de algumas crianças facilmente influenciáveis.

depois de algum tempo na frente do televisor, k. percebe que, naquele calor, o que ele precisa mais do que um ar condicionado é de um banho. volta ao banheiro, pendura sua toalha no local onde se pendura a cortina do chuveiro, pendura também sua cueca, que será lavada agora, abre a água, que desce fraca e irrita. tomar banho, para k. é um exercício de paciência, por isso, para relaxar, com alguma frequência resolve que está na hora de prestar uma homenagem a alguma das apresentadoras da tv; é sempre uma vitória cada vez que ele sai do chuveiro com seu objetivo concretizado e ele sai do banheiro com um sorriso de satisfação em direção ao quarto, onde veste sua calça de linho, leve e confortável. volta para a sala e volta a ver qualquer coisa que estiver passando na tela. abre um livro e começa a ler, mas quase sempre se distrai com alguma coisa que está passando, algum som que lhe chama atenção. k. gosta de livros e acha que deveria se comprometer mais com eles, se esforçar para estudar, para ler mesmo, por recreação, k. não costuma fazer tanto isso. o barulho de vida acontecendo lá fora continua, cada vez mais alto e k. sabe que alguma hora ele terá de se juntar a ele, ser uma parte desse som horripilante que tanto assusta a quem o escuta.

k. assiste às notícias com tamanha imparcialidade que provavelmente deve ser invejado pelos jornalistas que deveriam tê-la. para k., as pessoas que matam e as que morrem são parte de tudo o que acontece na vida e não há muito a se fazer. não adianta lamentar em nada, porque ele sabe que se não fossem aquelas, seriam outras: as pessoas continuarão matando e morrendo enquanto existirem pessoas para matar e para morrer. e então, quando a última pessoa sobrar viva, depois de matar todas as outras, depois de ver morrer todas as que não matou, é bem capaz que ela se mate para completar a grande missão de matar e morrer e assim acabar com a parte humana da história do planeta. k. assiste à programas que mostram corpos se deteriorando com uma indiferença digna de assassinos seriais. ele sabe que não há como mudar tudo aquilo e que alguma hora nenhum daqueles corpos importarão, sabe que em algumas horas encontrarão mais cinco morto, que um avião cairá em algum lugar e será esquecido porque houve um terremoto num outro canto e uma ilha habitada quase desapareceu.

k. desliga a televisão com uma cara de tédio, vai ao quarto, pega sua carteira, veste uma camisa de botão, calça seu sapato e decse as escadas, sentindo o calor das pessoas lá embaixo, “o inferno são os outros”, sartre disse e ele sabe disso – todo mundo sabe -, e o inferno fica cada vez mais perto. chega ao térreo do prédio onde mora, sai pelo portão e vê que todos ao redor seguem cegamente suas vidas, não se importante com os outros que fazem o mesmo. então, k. põe seu rabo entre as pernas e segue como um cão. como um cão!

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3 respostas para k.

  1. Tony disse:

    eu percebi pequenas, pequenas mesmo, alusões as nossas (e com outras pessoas tb) últimas conversas sobre a vida, o universo e tudo mais.

    texto foda.

    gostei bastante do k.
    parece um bom amigo.

  2. Isabelle disse:

    finalmente entendi pra que serve a tv.

  3. Marden disse:

    Muito bom esse distanciamento da vida, vendo ela pela janela e pela tv.

    Só num peguei bem o final, mas o resto ficou bom.

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