sul.

“me decidi. eu vou pro sul. depois de muito pensar em tudo o que cerca essa quase mitologia que é essa coisa que chamamos de nós dois, acho que o melhor a ser feito é me dar um tempo para pensar em tudo o que se poderia pensar, ou quase isso. então, eu decidi num arroubo de pensamento: vou pro sul. pra qual lugar? eu ainda não sei exatamente. talvez eu vá ao gunga, começarei tudo por lá – afinal, tudo precisa de um início e esse é um maravilhoso. aproveitarei o sol e o mar e continuarei meu caminho até nossa primeira capital, marechal, onde vou comer uma dessas comidas que adoro, mas que nunca comi em tua companhia por causa dos teus eosinófilos, tua cara inchada, tua quase falta de ar. vou continuar lá por um tempo, ver o francês e sua piscina natural calminha e limpa e, seguindo a natureza linda, irei pra a barra de são miguel, onde nenhum santo me protegerá dos pecados e me entregarei a todas as delícias que vierem para mim. de lá, depois de tantos dias de praia, me lavando com a água salgada de iemanjá, não sei pra onde vou. pode ser que eu vá a penedo, ver o rio, ver a história, os pescadores do velho chico, então eles me levarão até piaçabuçú, que eu nunca tive a oportunidade de conhecer, mas sei que você, mesmo sem nunca ter pisado nessa cidade, tem conhecidos cuja família é de lá, não é? não é você? alguém que conheço tem conhecido com parentesco nesse lugar. enfim… me diz: de penedo tem como ir pra lá, pra piaçabuçú? ótimo, ótimo. de piaçabuçú – que nome legal de dizer, não é? adoro os nomes das cidades – eu vou pra sergipe, onde verei todas aquelas mulheres e me sentirei linda por algum tempo, até pensar em você – porque não tenho planos de pensar em você enquanto estiver pegando um sol ou observando a vida acontecer das formas que não conheço através dos pescadores e as mulheres rendeiras das beiras de rios e as broeiras das beiras de estrada e todas essas profissões que exercem mais esforço do que eu já precisei fazer durante toda a minha vida (e que você também, não me negue isso, porque te conheço o suficiente para saber que, de nós dois, eu sou quem mais teve que se esforçar para conseguir as coisas que tem).

eu vou pro sul, sabe? pretendo passar pouco tempo em sergipe, apenas o suficiente para me sentir bem, dois ou três dias, e de lá partirei para salvador. vou curtir o carnaval de lá, mesmo sem gostar do carnaval, sem gostar da música, do clima, do aperto. mas sinto que terminarei por gostar de tudo isso enquanto estiver por lá. a pele na pele, o suor, as risadas, o sexo. sim, vou pra lá e vou trepar, mas não vou fazer só isso. sexo eu fazia tanto com você, não era? e sim, era bom, às vezes ótimo, realmente fantástico. porra, era excelente e só você me fazia gozar mesmo! mas agora eu vou provar novas coisas e sair de perto de você e acho que tendo essa oportunidade de procurar novas coisas pra me preencher, não devo perdê-las. ainda mais quando o risco de ganhar prazer de uma forma que ainda não tive é tão grande.

eu tenho que experimentar, meu bem, mas é porque eu vou pro sul, entendeu? acho que não, que você não faz a menor idéia, mas é bonito você mentindo e dizendo que sabe. quando você mente , você fica de outra cor, sabia? seu rosto se cora, dá pra ver que o sangue sobe. é bonito, é engraçado, é charmoso. enquanto eu estiver na estrada, indo pro sul, eu vou prestar bastante atenção nas novas paisagens que se abrirão para mim nos horizontes e aos meus pés, às milhares de novidades que entrarão em meus olhos através da pupila, atravessando os humores vítreo e aquoso, a retina o nervo óptico… as imagens me parecerão tolas, uma planta que não tem aqui, uma ponte nova sobre um rio desconhecido, mas essas coisas todas marcarão a minha vida como nunca pensei que fossem capaz de fazê-lo. algumas horas, no entanto, eu sentirei falta de tudo o que já me é conhecido e familiar, terei medo do novo, vou ligar pra alguém daqui, perguntar como as coisas estão e me segurar para não perguntar sobre você. então desligarei o telefone, olharei para o céu e me sentirei em casa – porque ele é azul e à noite as estrelas brilham – a parte boa de se sentir assim, pelo menos.

depois do carnaval, continuarei indo pro sul e passarei algum domingo em ilhéus. da bahia, rumo ao sudoeste, que ainda é sul e me deixo visitar as ladeiras de minas gerais, onde descansarei de tanto mar. aproveitarei para conhecer as cachoeiras tão famosas que vi nas novelas e programas de televisão. então conhecerei aquele monte de lugares históricos e grandiosos. verei os traços do passado, esse que você acha tão chato e sem empolgação porque diz que sem guerras não se faz uma nação e que nossas batalhas, na realidade, não valeram nada. você é cheio dessas coisas bestas de revoltado, essas manias de contestar até mesmo as coisas mais naturais cuja explicação todos conhecem.

eu, enquanto estiver na estrada indo pro sul, lerei todos os livros que você nunca quis ler, ou até quis, mas nunca teve o tempo ou a coragem necessários para começar a leitura deles. vou viajar fisicamente através do espaço e do tempo e dos fatos. quero estar em balzac, em tolstói, em mann, vou me encontrar em victor hugo, em dickens, em proust, vou ler as poesias que você nunca quis ler, meireles, hust, lêdo ivo, jorge de lima, homero. eu quero estar em cada uma das milhares de páginas de prosa e verso que você nunca sujou com tuas mãos. quero ter essa limpeza do teu toque, me livrar dele completamente, ir pro sul.

vou ver o rio de janeiro em maio. ouvi dizer que é mais bonito que pacotes prateados de cigarro amassados e jogados em becos com poças d’água límpidas como fontes de rios. vou ver refinarias da petrobrás de noite e filhotes de zebra no zoológico. verei também as praias das novelas, viverei um pouquinho da mentira, porque vou pro sul e devo aproveitar, não é mesmo?

verei as coisas que você nunca se interessou em ver: os nomes das ruas, das pessoas, a vida acontecendo de verdade. quero ver essas coisas, você entende? quero a naturalidade de um dia a dia, um cotidiano, uma rotina, essas coisas que você sempre menosprezou e disse que não precisava ver para entender, que não queria ter uma coisa dessas porque isso só faria você se tornar mais um no meio de tantos, dizendo que tudo é a massa e que se movem e agem de forma semelhante e previsível, como bandos de animais, esquecendo que é isso que nós todos somos: um bando de animais. e que você, sem perceber que ao falar todas essas coisas é só mais um no meio de tantos seres odiáveis, se encaixa perfeitamente no meio de todos. uma vez eu li num lugar algo que me fez pensar em você: ‘é triste quando a gente percebe que não somos especiais, que somos apenas mais um no meio de tantos.’ mas acho que ser mais um não me faz alguém menor, diferente do que você pensa. acredito que aceitar nossa condição é um avanço fabuloso e que você deveria tentar dar esse passo.

eu olho pra você agora, enquanto te digo que vou pro sul, e penso que ir pra lá e algo bom pra você. lembra de quando você foi embora pro leste além mar? você disse: ‘essa é uma oportunidade pra a vida, meu bem.’ você me chamou de ‘meu bem’, entrou no avião e foi embora. fiquei sem te ver por anos. o quê? foram 14 meses? para mim pareceram 14 anos. engraçado como einstein estava certo com algo tão complicado. o que quero dizer é que agora é minha vez de sair. só que eu vou pro sul e quero que você aceite como eu fiz quando você alisou meu cabelo com tua mão, olhou bem fundo nos meus olhos, me abraçou apertado, beijou meus lábios e foi pro leste viver a vida que se abria para você por lá. mas agora, quem vai abrir a vida sou eu, quando for pro sul, porque eu vou. já te disse!

vou ver a maior cidade da américa do sul, me disseram que eu preciso e acredito que seja bem verdade. vou andar nas ruas que só existem na minha mente e me perder nelas. paulista, augusta, vou ter a liberdade, o brasil inteiro será meu quando estiver lá. então, alguma hora eu vou cansar de ter tudo nas minhas mãos, o país, o mundo, o universo, porque, ao ter todas essas coisas, consequentemente, terei você novamente – já tive? – e me enojarei de mim e fugirei pro sul. vou para os interiores do paraná ver as fazendas de café e tomar de todas e cada uma delas um pouco dessa bebida maravilhosa. vou pra curitiba, ver as coisas como deveriam ser, a cidade modelo, vou ver as águas de iguaçú descendo sem parar, derramando seus litros e litros. infelizmente é bem menos que gostaria de fazer você derramar ao sentir minha falta enquanto eu estiver no sul. então vou pro paraguai, comprar as coisas falsas mais verdadeiras que as palavras que saem da tua boca suja. quero encher minha cara com whisky vagabundo em caixas falsificadas de boas marcas, enxarcar-me dos perfumes falsos, doces e fortes, para que todos ao meu redor sintam meu cheiro e meu suor. quero pendurar no pescoço e nas orelhas as jóias falsas e bonitas como as tuas juras de amor ao pé do ouvido. quero, então, voltar e ir pro sul, floripa e suas praias, onde sentirei inveja daqueles corpos maravilhosos, daquelas peles douradas, e então sentirei falta de quando eu era a mulher mais linda no estado de sergipe. de lá, das praias das meninas de santa catarina, partirei pro rio grande, o de lá de baixo, e verei o porto alegre, poá, e as mulheres lindas continuarão a desfilar em todos os lugares em que eu pise, visitarei os interiores de onde saem as modelos a serem descobertas.

então eu vou pro sul, meu bem, ver o uruguai e o que quer que haja lá para ser visto. você sabe o que tem? é claro que sabe, você sempre diz que sabe as coisas. quero ir dançar tango na argentina. e vou. verei a casa rosada e beberei todo o vinho que me for permitido, muito vinho, tanto que conhecerei a verdade. in vino veritas, meu bem. então participarei das festas organizadas em homenagem ao deus do vinho, serão maravilhosos os bacanais, dormirei com argentinos de cabelos longos e negros e com argentinas brancas dos olhos claros e cabelos também escuros. vou dormir com todos e pensar em como é bom tudo aquilo, como é bom estar ali, com todos eles dentro de mim e como eu gostaria que você sentisse ciumes de todos e cada um deles. queria que você quisesse machucá-los só por isso, por eles estarem onde você esteve tantas vezes, mas acho que jamais seria assim. você não tem os sentimentos desenvolvidos o suficiente para saber exatamente sobre o que estou falando. apenas entenda que eu vou pro sul dançar tango argentino usando um vestido longo preto como a noite e uma rosa vermelha como sangue entre os lábios.

então eu irei pra patagônia, vou pra a terra do fogo, verei os pinguins e imaginarei o sabor de suas carnes. então eu vou pro sul, pra te esquecer na branquidão do gelo, pra me esquecer na solidão. vou pro sul até não dar mais e então irei pro sul de lugar nenhum, aquele que o velho buk falou, sabe? eu vou pro sul, meu bem, e um dia talvez volte. um dia eu volto, quem sabe… a verdade é só que agora eu preciso ir pro sul, ele me espera. você não precisa me esperar voltar, não precisa me ligar ou tentar me escrever, não precisa nem fingir que pensou em fazer qualquer uma dessas coisas que acabei de falar. livrar-me-ei das coisas que me prendem, das amarras, dessa algema que você colocou em mim e nunca abriu com a chave. dessa vez terei que impor minha força para me libertar. entenderei o que é ser livre.

você pode ir pra onde quiser e bem entender, jamais te impedirei. adeus, meu bem, eu vou pro sul.”

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6 respostas para sul.

  1. Isabelle disse:

    Poxa.. fiquei com vontade de ir pro sul =x

  2. Lívia Vasconcelos disse:

    Tem verdadeno vinho, isos eu garanto. E no sul…o sulé bom demais. =x
    eu adoro como vc usa adjetivos e vai descrevendo coisa e coisa, e não fica chato…tem gente que mete adjetivos e complementos em tudo, em casa frase, fica feio. Em você fica envolvente, impulsiona pra próxima frase. eu gosto.

    =*

  3. nelsonnetto disse:

    cara, não sei se sua intenção era fazer um texto foda, mas vc conseguiu.

    “então desligarei o telefone, olharei para o céu e me sentirei em casa – porque ele é azul e à noite as estrelas brilham – a parte boa de se sentir assim, pelo menos.”

    isso foi muito legal.
    simples e foda como um céu azul e as estrelas.

    “vou ver o rio de janeiro em maio. ouvi dizer que é mais bonito que pacotes prateados de cigarro amassados e jogados em becos com poças d’água límpidas como fontes de rios.”

    achei do caralho a imagem!

    “uma vez eu li num lugar algo que me fez pensar em você: ‘é triste quando a gente percebe que não somos especiais, que somos apenas mais um no meio de tantos.’”

    achei foda como ela sempre vacila em querer esquecer, lembrando de esquecer.

    acho que todos somos substiituíveis.

    “fiquei sem te ver por anos. o quê? foram 14 meses? para mim pareceram 14 anos. engraçado como einstein estava certo com algo tão complicado.”

    genial.

    “então, alguma hora eu vou cansar de ter tudo nas minhas mãos, o país, o mundo, o universo, porque, ao ter todas essas coisas, consequentemente, terei você novamente – já tive? – e me enojarei de mim e fugirei pro sul.”

    muito foda!
    também achei foda o quanto ela chega a ser feminina, não sei se copiei algo que retrate isso, mas tiha que comentar.

    “verei a casa rosada e beberei todo o vinho que me for permitido, muito vinho, tanto que conhecerei a verdade”

    acho que cheguei perto disso.

    e o parágrafo das leituras achei foda também.

    enfim, man.
    texto fodão!
    gostei muito.
    FH

  4. nelsonnetto disse:

    caralho…
    acho que exagerei um pouco.

  5. Marden disse:

    Poxa, depois dessa analise do Nelson não sobra muito preu dizer.

    Digo que concordo com ele, especialmente na parte da feminilidade da narradora.

    E reintero que ficou foda, man!

  6. Mina disse:

    Eu gosto do monte de referências que você bota nos seus textos, não sei se já te disse isso. Gosto de pensar que outras pessoas têm a chance de te conhecer melhor mesmo quando o texto não tem nada de auto-biográfico, saca? Dá pra te conhecer pelos autores mencionados, a referência ao Ferreira Gullar, Mutantes e a maior cidade da américa do sul…

    Foda.

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