Artemis.

quando a conheci, ela era uma mulher rasa como um pires, de predileções fúteis e um gosto indubitavelmente ruim. agradava-lhe tudo o que me desagradava, ou quase tudo, das cores aos sons. enquanto eu gostava das cores neutras, do preto e branco, ela gostava das cores chamativas, aquelas que logo são captadas quando nossos olhos repousam no objeto: o vermelho, o amarelo, o rosa. enquanto eu passava o dia escutando aos clássicos rock do século XX, ela escutava tudo o que estivesse tocando nas rádios populares, escutava a música que me dava arrapios de terror. mas o que mais me doía era saber que com ela eu jamais poderia discutir minha grande paixão: os livros. ela simplesmente tinha desprezo por eles. não consigo entender como consegui me apaixonar por aquela mulher.

seu sorriso era claro e caloroso, como a luz do sol. seus dentes incrivelmente proporcionais, nem grandes demais e nem pequenos demais, faziam com que fosse um dos mais lindos que já vi. eu me sentia incrivelmente bem quando a via sorrindo, o que me fazia ter vontade de sempre fazê-la rir. isso era um problema sério, porque tenho quase certeza que ela me achava completamente sem graça e, das minhas ironias, meu recurso linguístico favorito, ela entendia poucas, além de não apreciar o sarcasmo nas minhas palavras e o humor negro que cercava boa parte das minhas piadas favoritas. ela era uma garota ingênua e nem um pouco inocente. ela era, no bom generalês, uma moça completamente comum e sem atrativos que não fossem seu rosto lindo e aquele corpo maravilhoso, que será detalhado mais adiante. seus lábios eram grossos, e rosados, úmidos e me deixavam com uma vontade absurda de não fazer mais nada no mundo além de provar daquela suculenta boca.

seus olhos eram da cor de mel escorrendo, algo nem muito claro nem muito escuro, reluzente sob o efeito da luz branca que incide no líquido espesso. emoldurados por cílios longos e sempre bem feitas sobrancelhas, seu olhar seduzia por parecer ser mais do que verdadeiramente é, por parecer analisar a alma do ser observado. quando encontrei aqueles lindos globos me observando pela primeira vez, me questionei o motivo, a razão daquela linda mulher me observar. me questionei sobre como ela parecia me entender como nunca fui entendido, senti que ela poderia muito bem me acalentar em seus braços, me aquecer entre as pernas, me dar o colo quando eu precisasse e tudo estaria bem desde que eu a tivesse comigo. depois descobri que tudo o que lhe passou pela cabeça foi: “como esse cara é estranho e como usa umas camisas com estampas estranhas.”

seu rosto era completamente harmônico, e seus cabelos longos e negros  de fios finos e delicados, caíam-lhe pelas costas até chegarem à sua cintura fina. seus traços eram completamente femininos, finos e delicados, mas fortes e firmes.

seus quadris eram largos e ela era dona de duas belas pernas, bem torneadas a muitos exercícios nas academias que eu abomino. ela estudava educação física, seja lá como se estude a educação física, os resultados dos exercícios físicos eram explicitados naquele corpo de músculos rígidos, onde a gordura só estava onde realmente deveria estar: mamas e quadris, mas sem se excederem de forma alguma. era uma mulher digna de capa de revistas. e eu não faço a menor idéia de como começamos a nos relacionar.

sei que um belo dia, numa festa na qual eu não queria estar, ouvindo as músicas que o que eu não gostava de ouvir, dançando o que não queria dançar (na verdade, só o fato de eu estar me movendo numa pista de dança quer dizer que eu já não suportava o lugar) e bebendo mais do que deveria beber (para que tudo fique suportável) , me vi com o nariz enfiado no cangote dessa mulher. seu cheiro era de suor e exalava um perfume bom como poucos suores conseguem fazer. das caixas de som saiam barulhos eletrônicos, muitas batidas compassadas por minuto, mais do que seria humanamente possível, mais do que o saudável, ao redor de mim e dela as pessoas pulam e se debatem, os braços se agitam, enquanto eu estou com minha cabeça apoiada num dos ombros dela, com meus braços ao redor do pescoço dela, enquanto ela me abraça e descança a cabeça em mim. não falamos nada, não fazemos nada, a não ser dar um passo para um lado e para o outro até que, ao fim do que as pessoas ao redor chamam de música, nós nos olhamos e nossos lábios resolvem se encontrar.

naquela noite nos beijamos por muito tempo, nos encostamos numa parede escura do bar e ficamos lá até que um amigo meu me encontrou e me levou embora sob a ameaça de não ter mais carona para casa. achei justo e fui embora. não troquei números, nem e-mails e não sabiamos de quem eramos amigos nas redes sociais da vida. coisas da vida.

depois de uma semana, nos encontramos novamente. ela lembrava de mim como se não tivesse sofrido de blackout alcoólico na manhã seguinte, enquanto eu tentava me lembrar dela além da parede no escuro e da língua quente passeando na minha boca. eu estava no aniversário de um colega de trabalho e ela veio falar comigo, dizendo meu nome e tudo mais. eu sorri para ela e conversei com ela esperando que saber seu nome não fosse necessário. por sorte, uma amiga dela a chamou e ouvi seu nome, levemente familiar.

conversamos por um tempo, eu não tinha uma gota de álcool no meu sangue naquela noite, meu nível de tolerância para pessoas superficiais e rasas estava no nível mais baixo e manter uma conversa com ela era um tanto supliciante, mas era um sacrifício que chegava a valer a pena simplesmente pela presença e o cheiro daquela obra prima da natureza, que se erguia em seus dois pilares maravilhosos bem na minha frente. ela parecia feliz por me ver e eu tentava forçar meu sorriso falso mais sincero possível, aqueles que me doem os músculos da face ao tentar fazer com que parecessem reais sem expor meus dentes inferiores. acho que consegui isso quando ela não resistiu minha tentativa de beijá-la e nossas bocas se encontraram e nossas línguas se tocaram mais uma vez. dessa vez, no entanto, trocamos telefones, emails, perfis de redes sociais. na verdade, naquela festa marcamos de almoçar no outro dia juntos e ver um filme no cinema, qualquer filme, qualquer hora, o sentido daquilo estava explícito e a proposição foi minha: sou um cara clássico que apela para os velhos clichês do almoço/cinema, um programa de respeito que muitas moças de hoje em dia não fazem a menor idéia que existe.

na tarde seguinte eu quase não acordei para o almoço marcado. cheguei no local combinado a pé, suado, e atrasado. estava usando uma das minhas camisas favoritas, preta com uma estampa que faz referência a um filme inglês de comédia dos anos 70, um jeans um tanto surrado e meu único tênis confortável. ela vestia um vestido roxo com detalhes verdes, algumas jóias no pescoço e orelhas e um anel no polegar. lembrei que meus amigos dizem que mulheres com anel no polegar curte anal e esperei que fosse verdade, porque era ela quem estava sentada numa cadeira, esperando que eu chegasse para almoçar com ela e entrarmos numa sala escura, onde sentaríamos num canto e colocaríamos as mãos sobre as genitálias um do outro. sentei na cadeira em frente à dela, perguntei o que ela queria comer e ela disse uma daquelas comidas saudáveis que eu jamais teria coragem e ousadia de colocar na minha boca com medo de estragar minhas papilas gustativas. eu pedi a coisa menos saudável e mais apetitosa do cardápio. conversamos coisas bestas como o dia de ontem, o retorno da festa, o sono, o tempo, ela me falou um pouco sobre o curso que fazia, eu falei um pouco do meu trabalho, dos tempos da faculdade, então a comida chegou e falamos sobre nossos hábitos e ela não pareceu achar graça nenhuma no fato de eu desprezar todas as tentativas de dietas saudáveis que existem e discordou completamente quando eu disse que simplesmente não valia a pena viver até os 120 anos se para isso eu não poderia comer o que é gostoso e viver uma vida de sedentário fazendo apenas o que gosto. ela pareceu bastante chocada com isso. então eu ri desse abismo que se abriu entre nós e ela achou que eu estava rindo do que eu estava dizendo e voltou a falar as mesmas coisas que me entravam num ouvido e saiam pelo outro. então levantamos e fomos, no carro dela, para o cinema.

escolhemos qualquer filme, o primeiro que começasse, e terminou sendo uma comédia romântica mela cueca onde tudo dá certo no final. as grandes inverdades da vida estão nessas películas. não que tenhamos prestado atenção à tela. nossas mãos passearam sobre nossos corpos e parte íntimas e meus dedos chegaram a tocar a carne entre suas coxas, sentindo seu calor e umidade.

eu não voltei para casa naquele dia. depois do cinema, ela me chamou para um encontro das amigas dela, onde eu seria um completo estranho e acabaria por conhecer quatro das pessoas mais vazias que já conheci na minha vida. as amigas dela eram lindas, verdadeiras belezas, semelhantes a ela, embrulhos semelhantes, recheios idem. aquele jantar foi o maior exercício mental ao qual precisei me submeter. foram três horas de sorrisos falsos, acenos com a cabeça, brincadeiras fúteis, tentativas falhas de puxar algum assunto interessante e me ver sufocado por conversas sobre festas ruins, shows ruins, amigas falsas, amigos falsos, academia, paqueras com homens bombados que fingem que são heteros quando na verdade gostam mesmo é de suar com outros homens.

foi suar com ela o que fiz depois daquela tortura. e foi ótimo. sua boca no meu corpo, minha língua sentindo o sabor salgado de sua pele, do corpo todo, todas essas coisas que acontecem no caminho do encontro dos nossos órgãos sexuais, o caminho sensual das preliminares. a visão do seu corpo nu era gloriosa, seus pêlos crespos bem aparados, sua bunda firme me chamando, seu calor…

dessa noite em diante, passamos a nos comunicar muito mais. não sei precisar quando me vi preso a ela. e quando digo preso não é como numa prisão, mas apenas sentindo a necessidade diária dela, sentindo-me apaixonado. não sei pelo que me apaixonei, achei que seria impossível isso acontecer, não acreditava que aquela mulher que não lia porque ia malhar, que ouvia não as músicas boas, mas as músicas para dançar, que gostava de comidas saudáveis e de cuidar do corpo mais do que cuidar da mente fosse me fazer pensar nela todos os dia. mas aconteceu, fui pego.

ficamos juntos por sete meses. o fim chegou quando me dei conta que eu não sabia o motivo de estar apaixonado por ela e a paixão simplesmente foi embora. o encanto acabou bem como ele começou. percebi que em momento nenhum daquele relacionamento eu me diverti verdadeiramente quando estávamos fora do quarto. ela seria uma ótima amante, uma ótima transa eventual, mas ela havia se tornado minha namorada, minha paixão.

eu disse que quando a conheci ela era rasa como um pires. queria poder dizer que quando a deixei ela havia melhorado, havia se interessado por coisas boas, mas estaria mentindo. a única diferença é que agora ela engole ao invés de cuspir.

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2 respostas para Artemis.

  1. Marden disse:

    Bacana, man.

    As descrições ficaram muito boas, especialmente dos agoniantes exercicios mentais.

    Pois é, as vezes não se pode evitar ser pego numa armadilha dessas.

    Ah e a frase final encerrou com chave de ouro.

  2. Lud disse:

    fatão, a frase final encerrou com chave de ouro MESMO. :)))

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