MEU lixo.

carlos escreve todos os dias. ensinaram-lhe que para escrever bem deve-se escrever todos os dias em uma boa quantidade. carlos, todas as noites, escreve em seu blog cerca de quinhentas palavras sobre temas diversos. de futebols e carros a textos ficcionais tratando sobre a vida, o universo e tudo mais. carlos se comunica com outras pessoas ao redor do mundo que têm gostos semelhantes aos dele e fazem as mesmas coisas, tratam dos mesmos assuntos e escrevem todos os dias em quantidades admiráveis. carlos acha que um dia alguém deveria chamá-lo para publicar um livro com suas idéias, acredita ser capaz de expô-las bem em um ou mais volumes. carlos se ilude achando que suas palavras são bonitas. ele é mais um no meio de tantos que produz a cultura do mundo através de palavras mal escritas que dizem muito pouco, e tentam ser mais do que verdadeiramente são.

fernanda acha que ver o mundo através das lentes de sua câmera de dez mil reais é ver o mundo através da arte. fernanda leu o manual de duzentas e quinze páginas que explicava detalhadamente cada uma das funções de sua máquina fotográfica. ela já fez cursos sobre fotografia, mas nunca aprendeu os efeitos de luz e sombra. fernanda nunca revelou um filme de máquina, nunca entrou numa sala escura. ela sabe usar o photoshop e usa e abusa desses recursos quando bem entende. fernanda tira fotos de seus amigos, do céu, do mar, de folhas e de pedras. fernanda deita no chão para fotografar estátuas de baixo para cima e os resultados esdrúxulos de suas incursões fotográficas são vistas na sua página/portfólio on line. fernanda não tem qualidade, não tem o olho e todas as suas fotos parecem boas porque a câmera é boa e só. fernanda é uma das milhares de pessoas que acreditam que suas fotos caseiras podem e deveriam ser expostas para o mundo em galerias e não em álbuns pessoais.

marcelo e madalena são irmãos. marcelo aprendeu a tocar violão há dois meses, aos dezessete anos; madalena sempre gostou de cantar no chuveiro e hoje, aos vinte, acredita que está pronta para mostrar ao mundo seu suposto talento musical em vídeos caseiros gravados no quarto do computador. nos vídeos onde ela dança porcamente na frente de uma câmera parada, enquanto seu irmão toca um ré mi fá com uma batida estranha e sem compasso, ela consegue cantar fora do tom, fora do tempo e fora de qualquer ritmo que ela esteja propondo cantar. tudo isso enquanto se ouve a respiração ofegante devido ao esforço da dança. no fundo do vídeo, seu irmão sofre para fazer a pestana do fá e demora demais para passar de um acorde para o outro. eles acreditam piamente que o som que fazem, uma mistura de axé com forró com letra de funk carioca, será o próximo sucesso da música popular brasileira. o medo é que eles acertem essa previsão.

sabrina ouve bob dylan, johnny cash, neil diamond, crosby, still, nash com e sem young, o mesmo young em outros momentos; lê os escritores da geração beat: neal cassidy, kerouak, burroughs; lê bukowski, fante, henry miller, anaïs nin; lia clarice e lygia, caio fernando abreu. tinha contas nos álbuns on line, onde postava as fotos em preto e branco dos seus tênis quadriculados guardados no seu armário; ela também tem um blog onde expõe pensamentos dpressivos e sensações de solidão para que todos comentem sobre sua infelicidade. ocasionalmente, sabrina coloca trechos de caio fernando abreu e clarice lispector, entre aspas, em seus textos e faz disso uma postagem. acredita que por causa das supostas boas influencias culturais e do dito bom gosto, é capaz de produzir tão bem quanto suas “influências”. sabrina se engana e consigo leva várias amigas com gostos semelhantes. juntas organizam saraus onde recitam seus poemas mal escritos, fazem shows onde tocam mal seus instrumentos e cantam suas letras de músicas que deveriam seguir uma linha entre o folk americano e o rock n roll, mas que terminam caindo no lugar comum de todas as músicas from uk.

os relatos supracitados são histórias de ficção, personagens que não existem como os descrevi, ou melhor, que estão vivos entre nós e você pode encontrá-los facilmente, mas são ficção pelo fato de eu não conhecê-los bem o suficiente para descrevê-los como fiz, usando, assim, recursos da minha imaginação para criá-los e apresentá-los. entre todos os casos – carlos, fernanda, marcelo e madalena, sabrina – há uma linha comum que os amarra num só grupo de novos fazedores da atual cultura: a internet.

com o acesso à internet, todos os dias centenas de milhares de usuários dos blogs, flickr, youtube e redes sociais em geral, divulgam, através dessas ferramentas, o que seria sua produção cultural. através de fotos tiradas por suas câmeras caras semiprofissionais, suas músicas de batidas repetitivas, letras vazias e ritmos completamente descompassados, seus textos inundados de palavras rebuscadas e difíceis, que dizem absolutamente nada relevante sobre a vida, em todos os possíveis aspectos que seja possível em muitas palavras não falar sobre coisa alguma, conseguem mostrar ao mundo sua irrelevância e inundar o planeta com suas inutilidades. e todas essas imagens tiradas na função preto e branco da máquina digital, todas as poses pseudoespontâneas, todos os poeres e nasceres do sol, cada um dos textos que tentam ser intimistas falando sobre os sentimentos de angústia e a sensação de solidão no meio da multidão entram como cultura mesmo quando, na verdade, não são muita coisa. para ser cultura não precisa de muita coisa, na verdade, nada é necessário para se produzir cultura, apenas a vontade de criar qualquer coisa. a cultura, atualmente, tem muito pouco significado. a massificação, a deselitização, a globalização proporcionaram uma cultura global onde há a perda da identidade cultural e da cultura polarizada. a mesma coisa que deu a todos as oportunidades de expor suas visões, deu ao povo a capacidade de fazer qualquer coisa e a liberdade de chamá-la de cultura. e não é que elas sejam menos cultura, mas me irrito porque o filtro entre a cultura boa e a ruim é algo extremamente íntimo e pessoal e a massa, através de sua filtração, escolhe o lixo para ser exposto como a cultura domintante.

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4 respostas para MEU lixo.

  1. Tony disse:

    exato. e quando acabar, nós que temos gostos estranhos. foda, viu.

  2. Marden disse:

    Assino embaixo, man.

  3. tati disse:

    putaquepariucaraleo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
    eu super morri de ri com teu texto agora. MUITO bom. ri demais vei. muito engraçado e bem escrito. e eu nao sei se seria comico se nao fosse tragico ou seria tragico se nao fosse comigo. eh tragicomico. hehehe. o massa é que esses seus personagens somos eu, vc, e nossos outros amiguinhos blogueiros e fotografeiros e musiqueiros. hehehee. tragico 😡

  4. Isabelle disse:

    As possibilidades e facilidades da tecnologia realmente multiplicaram o número de “artistas”. Agora temos acesso a tudo, seja bom ou ruim – não há uma pré-seleção de mercado pq a veiculação passa a ser gratuita pela internet. Há tmb a questão de incentivo e retorno; o que você cria pode ser analisado abertamente por algum tipo de público.
    De qualquer maneira acho positivo o aumento de conteúdo “artístico” mesmo que não seja dos melhores.

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