quem?

havia uma mulher. sempre houve uma mulher. em toda história do mundo, há sempre um desses magníficos seres. de adão e eva a eu e ela, a vida do homem tem sempre o incrível peso da presença e leveza das mulheres. lembro bem dos olhos dessa mulher pousando sobre meu corpo, sempre me analisando como se eu fosse uma conta de matemática errada e ela quisesse encontrar onde estava o erro responsável pelo resultado final para poder corrigí-lo enquanto há tempo. não havia mais tempo, mas ela não sabia disso à época. seus olhos eram da cor do mar num dia de sol e me faziam sentir nu e desconcertado. eu me esforçava para não transparecer nada do que sentia naquele exato momento: a tensão, o medo de sua análise, o frio na barriga que me dava de saber que ela estava olhando para mim. momentos como esse parecem ter sua própria lógica no tempo, parecem pesar os segundos, fazendo-o com que se arraste ao invés de continuar caminhando como sempre faz.

então vi seus lábios se movendo, seus músculos da face se contraindo e formando um sorriso. seus dentes se expunham para mim. aquela boca, aquele sorriso, dentes, língua, eram meus e eu sabia disso. foi naquele momento, numa mesa de um restaurante, lendo um livro enquanto a esperava chegar para nosso encontro, que ela apareceu, sorriu e se entregou a mim e eu percebi que não haveria nenhuma outra mulher para mim, naquela hora. eu tinha vinte e poucos anos naqueles tempos, ela tinha seus dezessete, com um rosto de catorze e um corpo de vinte e cinco (o ápice corporal de uma mulher). era dona de uma bunda linda, dura e grande, que sempre fazia minha cueca ficar apertada.

foi numa noite de setembro, ela e eu no meu quarto, na velha casa, as roupas soltas pelo chão, nós no meio dos lençóis desarrumados da minha antiga cama de solteiro, que ela me disse para ter paciência, que ela não queria que doesse. eu, com a cabeça entre suas coxas, sentindo o gosto de sua labia minora em minha boca, lhe disse que faria o melhor para que se sentisse bem, para que houvesse conforto e que tentaria fazer de tudo para acontecer da forma menos traumática possível. ela não pareceu acreditar nas minhas palavras, mas me beijou a boca e recostou na cama. se entregou sorrindo, pedindo pra ir com calma. eu fui. bem devagar, fui a penetrando, como nenhum outro homem fez antes, seu calor a me envolver. houve certa resistência inicialmente, seu rosto com expressão de dor me fez sentir uma mescla de cuidado e pena e prazer. senti seu sangue escorrendo e manchando o lençol sob nossos corpos. os movimentos foram suaves, tentei fazer com que sentisse o mínimo de desconforto com a nova experiência e ela disse que adiantou, por menos que eu tenha acreditado. apesar de todas essas coisas, aquela foi uma noite, diferente das muitas primeiras vezes, ótima para ambos. noites depois já fodiamos como dois cães loucos no cio.

eu só queria que todos os dias de hoje fossem iguais àqueles que passei com ela. queria mais uma vez sentir seus movimentos de quadril e cintura sobre o meu corpo, suas mãos delicadas e pequenas e sua boca quente e macia envolvendo meu membro túrgido; sentir suas coxas e sua bunda com minhas mãos, morder suas nádegas, lubrificar bem seu ânus, passear por sua vulva com minha língua e sentir seu sabor ácido e finalmente sentir o calor daquele canal vaginal, enquanto minha glande bate inúmeras vezes naquele colo de útero. todas essas pequenas coisas me fizeram um mal que nenhuma outra mulher conseguirá fazer: me fizeram sonhar em ter um futuro ao lado de alguém, onde eu trabalharia de oito a doze horas por dia, faria plantões noturnos, lavando meu rosto para acordar entre uma emendada de noite com dia, ralaria até a exaustão só para poder dar tudo o que eu acreditava que ela merecesse.

foi isso o que fiz enquanto ela esteve comigo. enquanto estive com ela, a vida era uma grande festa. ela, com seus cabelos vermelhos, fazendo-me sorrir até nos momentos mais inapropriados, dizia ao meu ouvido, no meio de funerais, que queria sair dali para poder transar comigo entre as árvores mais distantes do cemitério, falava enquanto o padre proferia a omilia que ela, que me arrastou até ali, preferia ir ao confessionário comigo para realizarmos aquela cena de detroit rock city que acho tão fabulosa e que meio que virou uma fantasia sexual minha, sussurrava que precisava de mim dentro dela urgentemente enquanto jantavamos e morriamos de tédio na casa dos primos dela, numa comemoração de aniversário. enquanto fomos um casal, fomos o melhor casal que eu poderia ser com alguém. aquele tipo de dupla que você vê e sabe que há uma algo mágico em vê-los juntos e sabe que é errado haver uma separação entre os dois. enquanto estivemos juntos fomos algo que o mundo jamais verá novamente.

não importava se eu estivesse cansado, quando eu voltava para casa depois das doze ou mais horas de trabalho seguidos, ela subia em cima de mim (nesses tempos nós já morávamos juntos, eu trabalhando, ela estudando as coisas da faculdade dela) e caiamos no chão, nos arrastavamos para a cama e trepavamos feito dois macacos. com ela eu sentia que minha vida era como a lua de mel que passamos no havaí. rolando no chão, com a areia tocando nossas peles salgadas e seu sorriso sempre presente me fazendo me sentir bem por ser capaz de fazê-la feliz por alguns momentos. não importava se eu estava triste em casa, depois de perder um paciente ou de levar um esporro de um dos diretores do hospital, depois de uma maldita ameaça de processo por ter salvo a vida de uma pessoa, ela sempre conseguia chegar ao meu lado e me fazer sorrir. ela sempre arranjava um jeito de me fazer parar de dizer que não estava bem, com sua mão procurando sempre o zíper da minha calça e seus olhos sempre grudados nos meus.

foi depois do segundo filho, da nossa segunda criança. foi depois do nascimento de ivan, que ela deixou de estar no mundo dos vivos, o único mundo que existe para mim. foi uma gravidez complicada, o pré natal de risco extremo, sua pressão estava elevada demais, na hora ela entrou em eclâmpsia. não conseguiram salvá-la. sofia, nossa filha, tinha cinco anos quando ela morreu. nós, eu e ela, minha mulher, nos conhecíamos há dez. tão nova ela foi embora. ela que era minha, a melhor. que tinha a bunda mais linda que eu já vi na minha vida, com o melhor sabor e os melhores movimentos, o melhor calor. seu funeral foi o primeiro funeral triste que fui em toda a minha vida. tantas mãos nos meus ombros tantos olhares de sinto muito e tantos pêsames, mas tudo o que eu queria era sua mão no meu ombro, seu hálito quente chegando em minha face e seu sussurro me chamando para transar debaixo de uma mangueira no final do cemitério.

a muitas pessoas resolveram ser professores, resolveram me ensinar o bê a bá, queriam que eu aprendesse letra por letra de cada uma das coisas que achavam que era importante em si, mas para ser ditado, não adianta ir à escola. as palavras estão em qualquer livro, basta a nós nos interessar e aprendê-las. a vida resolveu me dar uma lição tirando a única coisa que me fez pensar, ao longo de quase quarenta anos, que a vida valia a pena. hoje, com mais de sessenta anos, com filhos criados e netos por nascer, eu aprendi muito mais com as coisas que a vida me fez do que com as que as pessoas ao redor tanto tentaram me mandar. desde que minha mulher foi embora, desde que a vida levou minha melhor amiga para longe de mim, eu tenho feito perguntas a todos. e ninguém soube realmente responder a uma dessas, não sem parecerem um bando de falsos autosuficientes, um bando de imbecis que não entendem que não adianta, que quem segurar, cairá junto.

então, quem me segura, se eu cair?

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3 respostas para quem?

  1. Isabelle disse:

    Eu achei muito bom o texto, até a mulher morrer. Culpa sua que me deu um livro da Clarice Lispector, lá tem um conto onde a mulher tá sem fazer nada e começa a criar uma história. ela começa: “Era uma vez um rapaz cego cego que…Cego por quê?(…)Agora é que saba por que Deus, podendo tanto, inventava pessoas aleijadas, cegas, ruins. Só por distração.”

  2. Marden disse:

    Porque quem faz falta é quem não vai na bola, man.

    Foda, man.

  3. nelsonnetto disse:

    “…sempre me analisando como se eu fosse uma conta de matemática errada e ela quisesse encontrar onde estava o erro responsável pelo resultado final para poder corrigí-lo enquanto há tempo.”

    achei isso foda
    e…

    todo o resto também!

    nostálgico e foda!

    tô escolhendo uma pra fazer o meu.
    shaiushuaihsiashiuas

    FH

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