A mesa.

“então, ela estava lá sentada, tá entendendo? e eu cheguei perto dela e senti o perfume dela e vi que ela tava bebendo uma bebida rosa… então falei pra ela que eu estava olhando ela fazia um tempo. sabe o que ela me disse?”

“o que?”

“ela perguntou se além de olhar eu não queria pegar! caralho!”

“caralho!”

“eu fiquei sem acreditar naquilo, sabe? mas eu disse que seria algo realmente bom, afinal, ela era tão linda, cara. olhos castanhos claros e cabelo preto bem longo, preso num penteado modernoso e bonitinho. e ela tinha uma bundinha linda que parecia maravilhosa de se pegar.”

“você disse isso a ela?”

“eu? não! claro que não. se não ela não deixaria que eu pegasse. a gente foi pra um canto da festa, onde tinha pouca luz e muito som, e começamos a nos beijar feito dois loucos desconhecidos, que é bem isso que a gente era, né verdade?”

“é sim.”

os dois riram. sentados no bar, bebendo cerveja, comendo batatas fritas e tiras de carne macia. para eles a juventude parece eterna e tudo o que há de bom no mundo é conversar sobre mulher, comer filé com fritas e beber entre uma desconhecida e outra.

a lua brilhava alta no céu, cheia como estômago de gordo depois de uma refeição. eram quase oito da noite e eles esperavam a chegada de mais amigos. era a segunda garrafa de cerveja da mesa, mas a conversa ainda ia na primeira mulher. muitas outras viriam, ainda.

“e aí?” perguntou o amigo que ouvia a história, espetando uma batata e uma tira de carne e colocando-as na boca.

“então, pouco depois de a gente se agarrar pesado no escuro – e sim, a bunda dela era ótima de pegar – eu perguntei o nome dela. a gente tava indo pegar mais bebida pra, acho, se agarra ainda mais. clarice, o nome. puta merda, clarice!”

“o que tem?”

“ela começou a falar sobre o maldito nome dela, cara. começou a falar como os pais dela adoravam a escritora e… nossa, deu uma dor no esquerdo de tanto ela falar, sabe? mas eu consegui ignorar boa parte do que ela falava, afinal, ela era tão bonitinha. aí ela continou falando e falando e falando e aí me disse alguma coisa que chamou atenção.”

“o que?”

“ela disse algo sobre o namorado dela achar que lispector é dona das melhores obras literárias do século.”

“puta merda! a mulher tinha namorado?”

“pois é! e ainda tinha um com mal gosto.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda! e aí, sabe o que eu fiz? tomei minha cerveja, paguei a conta e fui embora. eu não fico com menina que tem namorado, cara. isso é simplesmente errado. ou ela namora ou ela não namora. pra que namorar alguém se você vai ficar com outras pessoas? o namoro não é uma coisa mais séria, mais comportada e com algumas regras e pressupostos básicos? pra que se submeter a essas coisas, como a monogamia, se você não tá com vontade disso?”

“exatamente! não entendo essa galera que diz que quer namorar e, na primeira chance que tem, aproveita pra trair. não é muito mais fácil e honesto simplesmente não começar?”

“acho que tudo isso é motivado por uma única coisa: o medo.”

“o medo.”

“além da falta de respeito pela outra pessoa. me chame de antiquado, mas eu não gosto desses namoros modernos que as pessoas têm hoje em dia, onde um namora dois que namora três.”

“é um samba do criolo doido, todo mundo é de todo mundo e todo mundo é de ninguém e só reclamam quando não conseguem pegar ninguém. como na música do mamonas, sabe? acredito que são pessoas que têm idéias mal definidas sobre o que é o ficar e o que é o estar junto, o namorar. gosto de pensar que elas só precisam de um tempo para esclarecer e espairecer.”

“é… espero que algum dia elas parem e pensem que talvez a melhor coisa para elas não é um relacionamento, ou até que descubram que é, mas que não é nem um pouco legal você usar e magoar pessoas para conseguir isso. e esse papo todo está me deixando com sede e vontade de mais cerveja.”

“e é por isso que estamos aqui!”

o amigo que contava a história levanta a mão e chama o garçom, que vem à mesa já com uma nova cerveja em mãos. um rosto familiar aparece na rua, caminhando lentamente, se aproximando da mesa. é um jovem de cabelos longos e sem barba, ele sorri e coloca a mão nos ombros de ambos. eles o cumprimentam enquanto o recém chegado senta á mesa.

“quais as novas, caras?”

“bem… acho que a mais recente é que eu tava numa festa e fiquei com uma doidinha com namorado.”

“mulher é foda…” diz o recém chegado.

“mulher é foda.” diz o dono da história.

“mulher é foda.” só nos resta um. “e como andam as coisas com você e a carol, carlos?”

o jovem dos cabelos longos se ajeitou na mesa, ergueu o dedo para que o garçom visse, gesticulou que queria um copo, filou um gole do copo do dono da história, que logo logo será batizado.

“estamos bem, cara. acho. eu nunca sei bem como estão as coisas com a gente. quando acho que estamos bem, ela arranja algo para me fazer sentir mal, quando estamos mal, transamos feito dois loucos, como se fosse a única coisa que nos une e aí nos sentimos bem e acho que está tudo bem quando, na verdade, as coisas ainda estão más na cabeça dela. mulher é foda.”

“mulher é foda…”

“mulher é foda…”

o graçom trouxe o copo para carlos, que se serviu e a seus amigos, tomou um gole longo.

“e você, marco, como foi essa história da mulher com namorado?”

“então, eu estava num show ruim de uma banda ruim que uns amigos da faculdade gostam, então encontrei essa garota. que basicamente disse que queria se agarrar. então fomos, né? clarice. falou sobre lispector e sobre o namorado.”

“porra! só falou merda, hein?”

a risada foi alta. as outras mesas do bar viraram suas cabeças na direção da mesa onde estavam os três. duas pessoas se aproximaram deles, rostos conhecidos. cumprimentaram todos e sentaram. fizeram o mesmo gesto de carlos, pedindo copos.

“como é que vocês estão, caras?” perguntou o ainda sem nome.

“estou bem, otto, e você?”

“é, otto, tudo tranquilo. mas e você, como é que tá? tua vó melhorou?”

“melhorou sim, neto. já saiu do hospital e tudo. valeu.”

“que nada, cara. gente fina ela. mande um beijo.”

“tá certo.”

“então, quais as novas?” perguntou o recém chegado ainda desconhecido. pegou seu copo e tentou se servir de cerveja, mas só conseguiu um dedo de copo. pediu mais duas garrafas para a mesa.

“porra, júnior, o marco tava contando aqui de uma doidinha que queria dar pra ele nu
ma festa.” disse carlos entre risos.

“porra! e aí, cara, comeu?”

“não é bem assim, cara. a menina gostava de lispector.”

“mas que gosto seboso.”

“pois é… eu nem sabia, mas perguntei o nome, clarice, e ela começou a me falar disso. e o pior… ela tinha namorado.”

“porra! que safada! caralho, mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

“mulher é foda.”

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6 respostas para A mesa.

  1. nelsonnetto disse:

    “não é bem assim, cara. a menina gostava de lispector.”

    “eca!”

    pegou mal isso.

    mas eu gostei do texto.

    mulher é foda.

  2. Tony disse:

    mulher é foda.

    e são bem assim mesmo as conversas. algumas partes não tão comuns você descreveu, outras são bastante.

  3. isabelle disse:

    Mulher não é foda. Seus textos deturpam a realidade. Homens traem muito mais que mulheres e o normal da vida é a mulher ser a vitima e não o homem. HUMPF!

  4. Marden disse:

    Muito bom o texto, man.
    Lembrou os nossos papos que vem desde o colegio.

    Mulher é foda.

  5. Marden disse:

    Ah é e nelson tá certo, o eca ficou pegando mal.

  6. livia disse:

    haha me senti na mesa. muito bom! mas concordo.. ALGUMAS mulheres são foda. haha

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