como encontrar a liberdade (ou como se livrar da culpa e do pecado).

quando acordou eram quase três da tarde. o quarto estava abafado e sua testa estava molhada de suor, apesar do ventilador quase grudado à sua cabeça, os lençóis estavam jogados no chão e ele ainda estava calçado. tinha poucas lembranças dos sonhos que tivera, achava que envolviam liberdade, correr pelo céu que resplandecia lindamente ao seu redor enquanto estrelas brilhavam, mas não tinha certeza. queria o sentimento de liberdade, nem que fosse apenas nos sonhos. o cheiro dela entrava em suas narinas e vinha de todos os lugares da casa: do travesseiro, do lençol, do colchão, do chuveiro, do sanitário, da pia, do ralo, da escova de dentes e do creme dental, da estante de livros e dos cadernos velhos, da televisão e dos filmes em fitas, dos seus discos de música, das suas roupas. ela estava ali e ele sentia medo de jamais ser capaz de se livrar dela para sempre. ainda era capaz de sentir o calor dela se derramando sobre si, enxarcando-o, depois secando e formando uma crosta marrom em sua pele. quando chegou em casa deitou na cama sem lavar seu corpo. ainda sentia em sua boca o sabor do último beijo.

*****

o sol se punha preguiçosamente naquela tarde de segunda vazia. estava passeando entre os canais da televisão sem prestar atenção a nenhum deles especificamente. queria algo que o fizesse esquecer a vida lá fora. na verdade, queria algo que o fizesse esquecer o email, o telefone, as fotos. queria algo que o fizesse esquecer do mundo inteiro, mas especialmente dela. no entanto, é como um amigo próximo costumava lhe dizer: quanto mais se tenta esquecer, mais se consegue lembrar. por pouco não vira as imagens que lhe foram enviadas, quase as ignorara como faz com tudo o mais na vida, mas naquele dia não, naquele dia ele viu e pensou em como seria melhor não ter visto. queria não acreditar naquilo, mas sabia que era verdade, a triste e amarga realidade. sua namorada, sua mulher, sua amada, sua amante, ela. ela beijando outro homem, ela amando outro cara, ela namorando outro cara, ela amando outro cara. ela e outro cara. queria esquecer o que viu, queria não pensar em maneiras de acabar com ela, de fazê-la sofrer. queria não pensar em amordaçá-la, amarrá-la a uma cadeira enquanto riscava sua pele com pedaços de vidro, queria não pensar em como arrancaria seu útero com uma colher entortada, queria não pensar em métodos de tortura medieval, queria não pensar em fogueiras e em gritos de dor. queria ser capaz de ser frio, preciso. controlou-se para não derramar lágrimas. ela chegou em casa por volta das seis, eles viram televisão, um ou dois episódios de seriados de comédia até que ela desligou o aparelhou e foram para o quarto, onde fizeram sexo até que ela caísse no sono. na cama, depois de horas pensando, sem conseguir pregar o olho, olhou para ela e soube exatamente o que deveria fazer.

*****

preparou o jantar como ela gostava, comprou o melhor azeite, o melhor espaguete, os melhores temperos, o melhor corte de filé. abriu uma garrafa de um vinho bom, indicado por um amigo entendedor de bebidas – ele não sabia nada sobre elas, só beber. criou um ambiente confortável e relaxante, acolhedor e romântico. escolheu as músicas a dedo, nenhuma delas poderia estar errada, cada uma deveria ter seu significado e ela deveria gostar de cada uma delas. fez tudo para que se sentisse bem ao fazer o que precisava fazer. fez tudo para que ela não soubesse de nada até que a hora de saber de tudo chegasse.

*****

tudo o que se ouvia naquela rua eram seus sapatos pretos tocando pesadamente o asfalto molhado. o homem alto, cabelos desgrenhados, pele morena e pálida, vestindo roupas escuras e folgadas, caminhava na noite como se ela tivesse sido feita para ele, como se fossem conhecidos de séculos e, ao longo do tempo, tornaram-se grandes amantes.a verdade era que ele havia entendido que a única coisa que poderia amar realmente era a noite, que ela jamais o faria mal. o odor característico daquele bairro penetrava suas narinas: urina e dejetos, alimentos podres e vômito, carniça animal e humana, tudo isso era facilmente encontrado pelas esquinas dali se misturando como se fossem uma coisa só. e talvez fossem.

eram quase duas da manhã de uma quarta feira. andava só, com um leve sorriso de realização no rosto e a lembrança de uma noite que jamais se apagará.

*****

sinatra cantava nas caixas de som enquanto o eles bailavam sozinhos no meio da sala. dançavam juntinhos depois de um jantar a luz de velas e algumas taças de vinho. era uma terça feira, por volta das nove da noite. ela usava um vestido preto que exibia suas belas pernas e sorria a cada passo para lá e para cá que davam ao embalo da música. seu sorriso era lindo, dentes longos e brancos como marfim eram sustentados por suas gengivas róseas e úmidas. seu esmalte se iluminava belamente à luz das velas.

em seus braços, sentia o calor que emanava dela enquanto a segurava com força contra seu corpo. os cabelos longos escorriam-lhe pelas costas, cobrindo os dedos que se punham na nuca da belíssima mulher longilínea, esguia e de pele clara. aproximou sua boca da orelha esquerda dela e articulou palavras facilmente audíveis.

“eu te amo, meu bem.” sua voz era firme e clara.

ela sorriu para ele e disse que também o amava. disse isso num tom calmo e suave, quase automaticamente, como se seu amor viesse apenas do amor dele. deu-lhe um beijo rápido nos lábios.

ele repetiu a declaração, desta vez olhando-a nos olhos.

“eu te amo.” e fixou a mão em sua nuca, fazendo com que ela não fosse capaz de desviar o olhar do dele. seu outro braço a envolvia e puxava contra seu corpo, imobilizando-a. “você é uma vadia que não merece nada além de uma morte lenta e dolorosa, mas eu te amo.”

enfiou sua língua bem fundo na garganta dela, sentiu o gosto da última refeição, sentiu o sabor salgado de lágrimas se misturando ao sabor ferroso.

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5 respostas para como encontrar a liberdade (ou como se livrar da culpa e do pecado).

  1. Isabelle disse:

    amor = obsessão = perigo

  2. Vadjias merecem morrer mesmo, tenho dito.

  3. Marden disse:

    Die, die, die, my darling.

    Esse texto só me lembrou essa velha canção de amor do misfits.

    Muito bom man.

    Ps: Liberdade é correr pelo céu. FOOOODA!

  4. nelson disse:

    “disse isso num tom calmo e suave, quase automaticamente, como se seu amor viesse apenas do amor dele. deu-lhe um beijo rápido nos lábios.”

    gostei disso.

    bom texto!
    gostei do final.

    FH

  5. livia disse:

    rapaz, gostei demais desse teu blog. muito bom! verei sempre :]

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