amanhecer.

eram cinco da manhã e o sol começava a subir preguiçosamente no céu. o lusco fusco da manhã era toda a iluminação do quarto, onde corpos deitados nus pareciam objetos abandonados sobre o colchão desforrado e duro da cama – de madeira, carvalho – que se sustentava sobre quatro pernas grossas e pesadas. lençóis vermelhos e verdes estavam largados no chão, amassados, manchados de fluidos, abandonados ao lado de cinzeiros e bitucas de cigarro e garrafas de vinho vazias. o homem e a mulher que dormem juntos têm seus corpos nus e indefesos, como se tivessem acabado de emergir do útero de suas genitoras, inocentes em seus sonhos. a quem observar, pode parece que todo o potencial para fazer o mal que há nos dois seres é mera especulação, mentira até. eram delicados e frágeis ao ponto de enganar os olhos mais descuidados, as pessoas mais otimistas. os sons que reinavam no aposento eram o completamente humanos: o leve ressonar, o som de ar inflando e esvaziando pulmões cheios de sangue, tendões rangendo ocasionalmente a cada movimento involuntário feito durante o sono, um ou outro gemido leve. a natureza inumana parecia não existir, os pássaros pareciam nunca terem existido, a noite parecia ter calado toda a existência. se compararmos os sons que já ecoaram nessas paredes, o silêncio reina como o faz em poucos lugares do mundo.

posso dizer que descrever o que acontecera na noite anterior não é algo difícil de forma geral, mas entrar em detalhes específicos de determinados assuntos é impossível até mesmo para o mais perfeito descritor – coisa que este limitado e inimaginativo narrador não é. houveram pequenas coisas demais, palavras sussurradas demais, movimentos rápidos e finos completamente imperceptíveis ao olhar humano. no entanto, acima de tudo, pode-se dizer que a noite que antecedeu o atual momento que se observa foi rica em bebida, cigarro, risinhos, gargalhadas, carícias, gemidos e fluidos.

o corpo na cama assumia uma forma estranha, as pernas um tanto abertas – uma delas, a esquerda, estava completamente estirada na cama, com seu lado externo tocando completamente a cama, já seu membro direito se elevava, dobrando o joelho, como se estivesse sentada. tal posição revelava um pouco do sexo que a natureza resolveu esconder entre as pernas. vislumbrava-se os grandes lábios coberto por pequenos e escaços pêlos – ainda crescendo em diversos pontos depois de sua última depilação, provavelmente há cinco dias ou uma semana – e escureciam seu monte púbico. sua pele branca ainda estava avermelhada em determinados pontos do lado de suas coxas e nádegas, seu cabelo negro, assanhado, se espalhava pelo travesseiro e se derramava em alguns pontos da cama. seu corpo tomava o máximo de espaço que conseguia no colchão. seu braço direito se cruzava sobre si e se enfiava sob sua cabeça enquanto o membro esquerdo se estendia rente ao corpo. o lençol desarrumado sobre a cama lhe cobria uma de suas pernas. seu corpo exalava um odor doce e bom. seu corpo ou seu rosto não aparentavam mais de vinte e cinco anos, a idade que tinha.

o corpo pesado afundava no colchão ao lado dela. se encolhendo, procurava atingir o mais perto da posição fetal que lhe era possível. as mãos unidas o faziam parecer se encontrar em algum tipo de posição de prece. os joelhos e pernas unidas e nuas, cheias de pêlos, próximas ao tronco gordo o tornavam simplesmente ridículo. seu membro murcho se escondia entre suas pernas e só se era capaz de vislumbrar um minúsculo pedaço entre um movimento involuntário e outro. sua barriga era marcada pelas dobras que a gordura lhe proporcionou ao longo dos anos, seu rosto era um pouco enrugado e a barba crescia em alguns pontos, revelando uma barbeada mal feita e inúmeras falhas na disposição dos seus pêlos faciais. suas costas tinham arranhões recentes, ainda avermelhados, marcas de unhas da noite anterior. ele cheirava a fumaça de cigarro e álcool, os suores da noite anterior o fizeram cheirar um pouco azedo, seu hálito recende a vômito, apesar de não ter vomitado em nenhum momento.

o sol começava a ficar mais e mais forte, ultrapassando a fina barreira criada pelas cortinas de pano escuro. os raios incidiam diretamente sobre os dois, esquentando suas peles e iluminando seus rostos. ele foi o primeiro a se incomodar com aquilo. moveu-se sobre a cama, procurou esconder seus olhos com os braços, com as mãos, com o travesseiro, mas nada parecia lhe agradar, nenhuma posição lhe era confortável. até que abriu os olhos e a viu ao seu lado. uma visão linda para se começar o dia. as lembranças da noite anterior lhe surgiam à mente conforme seus olhos iam passeando ao longo do corpo que repousava silenciosamente ao lado do seu. um sorriso apareceu nos lábios grossos, revelando dentes amarelados. seu olhar era cheio de ternura. fechou os olhos e, quando os abriu, começou a se movimentar lentamente, se sentando na ponta da cama, evitando qualquer movimento brusco que fosse capaz de acordá-la. sentiu sua cabeça pulsando rápida e dolorosamente, colocou as mãos na testa e, massageando as têmporas, permaneceu nessa posição por alguns minutos.

ela abriu os olhos e o viu sentado com as mãos na cabeça.

“tá pra perder o juízo?” perguntou com um sorriso de bom dia. ela é um dos seres que ele mais admirava no mundo porque conseguia acordar com bom humor e pronta para fazer piadas.

“é, me segurando pra não te estripar.” disse entre dentes, mostrando um sorriso um tanto quanto sinistro e demonstrando que não sabia a hora de fazer piadas pesadas como aquela. ela fechou o rosto e ele foi emendando “desculpa, a verdade é que estou morrendo de dor de cabeça.”

ela levantou da cama, pôs-se atrás dele, abraçou seu tronco por trás e lhe deu um beijo no pescoço. disse baixinho:

“eu tenho remédio para dor de cabeça no banheiro, se quiser eu vou buscar pra você.”

ele balançou a cabeça de leve, olhou pra ela no fundo de seus olhos verdes e disse que não precisava, que não queria nenhum remédio, a dor passaria por ela própria, era só questão de tempo. depois disso, levantou-se, procurou a roupa pelo quarto e encontrou a cueca e a calça debaixo da cama, sua camisa estava perto do banheiro, sacudiu a camisa no ar e a vestiu. sem olhar pra ela, procurou as chaves do carro, que estavam em cima da mesa, ao lado de sua carteira. abriu a carteira, tirou uma nota de cinqüenta, colocou-a embaixo de um jarrinho de mesa.

“olha, acho melhor ir embora agora. a gente se vê depois? deixei aqui o que te devia.”

saiu do quarto deixando-a só. ela só ouviu a porta da sala sendo fechada. acendeu um cigarro e, entre a fumaça exalada, lágrimas escorriam dos seus olhos.

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4 respostas para amanhecer.

  1. Lah disse:

    puuuuts pv!
    que fodástico!
    a descrição tá incriiivel!
    muito muito bom!

  2. Tony disse:

    “tá pra perder o juízo?” – foi foda.

    duvido que ele tenha voltado.

    FH.

  3. Marden disse:

    Descrição muito bacana, man.

    E o desfecho muito bom.

  4. nelsonnetto disse:

    porra!
    muito bom!
    descrições muito boas, machadianas até.
    e o final é muito legal!
    texto foda, man.

    FH

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