fábio.

“eu não sei o que você pensa sobre as coisas que têm acontecido com nós dois, mas a verdade é que eu nunca pensei que elas fossem chegar a esse ponto. o que foi que aconteceu pra que parassemos aqui?”

a mulher alta e magra, dos cabelos negros e pele bronzeada, vestindo calça jeans e camisa branca, se dirigia ao carro, onde havia um homem que um dia foi moreno, com um pouco de sobrepeso, sentado no banco do carona. não obteve resposta, mas pareceu não se incomodar. deu alguns passos na direção oposta ao automóvel, olhou para trás e deu um sorriso.

“espero que você saiba que teve todas as chances de evitar tudo isso, mas jogou todas elas fora, querido.”

dentro do carro o homem não se moveu. não podia, suas mãos estavam amarradas, sua cabeça sangrava e o líquido viscoso escorria por sua nuca e descia pelas costas. estava inconsciente havia horas, ela achava que ele poderia jamais acordar da pancada, pelo menos não antes que tudo se concretizasse e seu corpo estivesse queimado e no fundo de um dos rios que cortavam a região.

o carro estava enxarcado de gasolina, o tanque cheio, uma pequena trilha de gasolina foi feita por ela, para poder acender o fogo de uma distância segura, a mesma em que se encontrava agora. riscou um palito de fósforo desses que se ganha de brindes de motéis – motel esse que ela visitou com ele pouco antes de estarem aqui onde estão -, acendeu um cigarro e apagou o palito com uma baforada leve. ainda não estava pronta para assistir ao fim do homem que tanto amou. além do mais, havia a sádica esperança que ele acordasse e se visse amarrado, incapacitado, preso num carro no meio do nada e molhado de gasolina. a verdade é que ela queria ouvir os gritos de dor que ele soltaria enquanto tinha sua pele, seus pêlos, seus órgãos sendo devorados pelas chamas. ela queria que ele sentisse tudo aquilo porque assim se sentiria menos mal por tudo o que já sentiu, assim, acreditava, estariam quites.

enquanto fumava seu cigarro – roubado do porta luvas do carro dele, que ela tinha acabado de molhar com três galões de gasolina – pensou em todo o tempo que os dois passaram juntos e em cada um dos orgasmos que não atingiu, em todas as vezes em que ele montava sobre seu corpo escultural e descia depois de dois minutos, ofegante, cansado, orgásmico, e, egoísta, virava-se pro lado e dormia sem se preocupar com ela por um só segundo. lembrou de cada vez que ele a fez sentir burra por causa dos filmes que ela não assistiu e dos livros que nunca leu e dos quadros e artistas plásticos que ela não conhecia – porque nunca se interessou de verdade por artes plásticas -, por cada um dos pedaços dele mesmo que ele apresentava a ela conforme os dias iam passando. esse quebra cabeça que ele a fazia construir só despertava ódio em seu coração e a cada pedaço que ele liberava para ela, como um presente irritante, a deixava com pensamentos sádicos, imaginando meios para fazê-lo sofrer física e psicologicamente. foi entre uma tragada e outra do cigarro mentolado – ele sempre gostava dessas coisas com sabores artificiais, ela detestava, mas precisava de um tempo para admirar a visão dele amarrado, abandonado no meio do nada, frágil e pronto para receber um fim.

soltou a fumaça quente que vinha de seus pulmões e achou que viu movimentos dentro do carro. olhou atentamente para ele, ainda de longe, confirmou que ele começava a acordar. “graças a deus”, pensou apagando o cigarro na árvore e soltando a baga apagada bem longe do caminho de gasolina que preparou. aproximou-se do homem. ele gritava o nome dela.

“rebeca!”

ela se regojizava com aquilo. ele berrava o nome dela como se fosse a salvação da vida dele, como se tivesse alguma maneira dela voltar atrás e salvá-lo. ela se pôs à janela e sorriu. ele olhou para ela, entre os olhos escorria um filete de suor misturado com gasolina. ela tinha certeza que ele já tinha engolido alguma quantidade do líquido, tinha certeza que ele já havia realizado o que se passava naquele exato momento.

“me tire daqui, rebeca!”

ela riu.

“isso daqui não tem graça, rebeca!”

“claro que tem, fábio. claro que tem. é que você não está vendo tudo isso do meu ponto de vista.” ela deu uma gargalhada de prazer. “engraçado, sabia que hoje você está me dando mais prazer do que em todo o nosso tempo juntos?”

a voz dele começava a soar irritada, raivosa. “olha, rebeca, eu não sei o que você acha que está fazendo, que tipo de brincadeira é essa…”

ela o interrompeu com um grito agudo. sabia que ninguém estaria ali para escutá-la, por isso o fez. ele se calou imediatamente.

“isso não é brincadeira nenhuma” ela começou a explicar rapida e exasperadamente “você realmente acha que eu brincaria com uma coisa séria dessas, fábio? agora pare de gritar, ninguém vai te ouvir. pare de agir como uma criança e aceite o fato que você é um homem, fábio. por menos que você tenha crescido, por mais que o teu pau tenha continuado do tamanho que era aos oito, nove anos, não me importa nada disso, você cresceu e tem que aceitar os fatos da vida: você vai morrer hoje por tudo o que você me fez passar, por todos esses tempos em que você agia como se eu fosse a coisa mais importante para você, quando na verdade tudo o que você queria era me jogar de lado e deitar na cama com a primeira que se dispusesse. agora é a hora de pagar por todas as vezes que você deitou do meu lado e disse que me amava com teu hálito quente e fedido. agora é a hora, fábio, de colher o que plantou, como os maiores clichês do mundo.”

“rebeca, você está louca! você está sendo completamente irracional. pense um pouco sobre o que está fazendo! me amarrar aqui no carro, jogar gasolina em cima de mim e depois o quê? jogar um fósforo em cima de mim e me ver morrer? e tudo isso para quê? não faz nenhum sentido, nada disso. e você sabe!”

rebeca foi se afastando do carro. ela não queria mais ouvir os papos furados que ele tinha, a fala mansa, numa tentativa constante de tentar fazê-la ser racional, como se ela já não fosse racional o suficiente. hoje ela deixaria a emoção dominá-la por completo.

“adeus, fábio. obrigada por hoje.”

ele  gritava, xingava, dizia que ela seria presa, que passaria o resto da vida na prisão, mas ela não ligava. ouviu quando ele começou a se debater dentro do carro, chegou a bater a cabeça no vidro entreaberto do carro, tentou, com a boca, destravar a porta, todas as coisas que fazia, no entanto, eram inúteis. a única coisa que viria agora seria o fogo. rebeca se postou ao lado da árvore onde estava antes, riscou cinco dos fósforos do motel e os soltou na trilha de gasolina que se acendeu iluminando seu rosto e aquecendo-a.

começou a ouvir os gritos e viu a explosão. estava feito e não havia como voltar atrás. agora seu amor sabia um pouco da dor que ela sentiu.

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2 respostas para fábio.

  1. nelsonnetto disse:

    tenso, né?
    não fui com a da rebeca.

    FH

  2. Marden disse:

    Tenso.
    não fui com a da rebeca. (2)

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