sonhos, devaneios e morte.

uma vez deus falou comigo nos meus sonhos. é sério, não faça essa cara. não, eu não estou maluco. sei que ele falou comigo no meu sonho. sim, eu sei que eu não acredito nele. sim, eu sei, mas o fato de não acreditar nele não anula completamente o fato de ele ter falado comigo no meu sonho. sonhos não precisam ser reais, precisam? a verdade é que deus falou comigo no meu sonho. eu perguntei a ele o que seria de mim, se eu iria pro inferno e ele disse que não, mas eu também não iria para o paraíso. eu não faço muita questão disso, você sabe, então não me preocupei. perguntei sobre minha mãe e ele disse que ela estaria lá no céu. fiquei feliz por ela. acho que seria melhor pra nós dois e pro paraíso não estarmos no mesmo lugar depois da vida. depois desse sonho eu acordei me sentindo um pouco estranho, um pouco traidor de mim mesmo por sonhar com algo como deus falando diretamente comigo. entende o que quero dizer? o pior de tudo é que acordei pensando nisso e isso nunca saiu da minha mente. esse sonho tem mais de cinco anos, já devo estar no inferno agora e minha mãe, se continua no paraíso, certamente é por coisas que ela fez antes desse período. a verdade é que eu me senti tocado por esse sonho maluco. faz tanto tempo, depois dele sonhei com tantas coisas que não me lembro. eu queria que todas as noites eu dormisse e não fosse capaz de lembrar de nenhum dos meus sonhos porque, afinal, quase nunca eles são coisas boas de se recordar. teve outro sonho que tive, faz uns dois anos, em que minha tia não tinha morrido de verdade, ela tinha entrado num estado narcoléptico e depois desses anos todos haviamos descoberto isso e exumado ela, que ainda estava viva. então tentamos todos readaptá-la à vida. lembro de nesse sonho ela me levar pra comprar roupas numa loja em que ela me comprou um presente de natal quando eu tinha sete anos. foi algo muito doloroso porque acordar foi a pior coisa que já fiz depois desse sonho. se eu pudesse eu estaria vivendo nesse sonho ao invés de estar aqui, nessa suposta realidade. esse sonho que tive foi pior que aquele outro de uns sete anos atrás, quando sonhei que tinha um playstation 2, estava jogando feliz e acordei e vi meu playstation velho na penumbra da noite e me senti triste. hoje em dia tenho um playstation 3. queria poder ter minha tia de volta. esses dias eu fui abalado pela morte do meu padrinho, eu percebi que eu realmente nunca mais poderia conversar com ele. então, fui relembrando de muitas das conversas que tivemos ao longo do nosso tempo juntos. ele me conhecia desde que eu tinha oito, nove anos. senti um aperto no peito e uma falta de ar ao pensamento de que nunca mais poderia ligar para ele no dia dezoito de agosto e desejá-lo um feliz aniversário e dizer o quanto o admiro e falar sobre como ele é uma pessoa querida para mim até que ele se emocione e caia em lágrimas do outro lado da linha. nunca mais vou poder dar um abraço nele, apertar sua mão, conversar sobre política, sobre livros, sobre arte e viagens. aprender sobre a vida, o universo e tudo mais. não, ele não morreu há pouco tempo. a verdade é que daqui a três meses fará um ano da morte dele. essa foi a morte mais rápida que consegui assimilar. depois de nove anos foi que consegui assimiliar a morte do meu avô. esse ano eu comecei a escrever um texto que seria dedicado a ele, mas o texto não seguiu. o sentimento é muito maior do que minhas palavras possam descrever. sim, é verdade, ano passado perdi meu outro avô, mas essa morte me foi mais sentida porque minha mãe sentiu do que eu mesmo. nunca fomos muito chegados, creio que nem nos conhecemos, na realidade. mas eu o respeitava, respeitava porque pra aguentar a família, só mesmo com muito álcool e paciência. eu o entendia. olha, esse assunto, é melhor mudar, não é mesmo? estou com fome, sabia? já está um pouco tarde, ou cedo demais, e eu deveria deixar você dormir e ir pra cama, deveriamos fechar os olhos e eu te peço as mais sinceras desculpas por não te deixar pregar os olhos, mas esse desabafo é mais que necessário para mim. preciso me manter bem, preciso falar sobre essas coisas porque se eu ficar parado, se eu começar a pensar, a cabeça fica vazia e mente vazia é a oficina do diabo. as coisas que vêm quando estou só, sem fazer nada, somente a pensar na vida, não são das melhores, entende? preciso desopilar, preciso pensar em qual será o proximo assunto a ser abordado nesse desabafo, em como hoje eu peguei um ônibus e ele fez um caminho diferente, mas tudo bem, eu nunca pego esse ônibus. e como eu sei que foi diferente? o cobrador me explicou que seria, mas ele só seria diferente a partir da parada onde eu desci, então a verdade é que ele não fez nada de diferente até que eu descesse dele. eu fui ver livros hoje, livros sempre me fazem sentir um misto de bem e mal. me fazem sentir bem porque quero todos eles e mal porque sei que jamais serei capaz de tê-los todos e muito menos de lê-los todos. mas isso não me impede de tentar, não é mesmo? sabia que um dos meus planos já foi ter uma livraria? e que um dia queria ser um bibliófilo de verdade? queria que, quando fosse mais velho, as pessoas falassem da minha biblioteca particular com admiração e respeito e veneração pelos livros porque é isso que deveriamos todos ter. sabe, acho que você nunca vai entender isso, mas uma coisa em que acredito, talvez a única coisa em que acredito, é que a gente só tem palavras. parece besteira, parece mentira, parece idiota, mas não é. há muita verdade nisso que estou falando. eu sou tudo isso que eu disse, eu tenho somente isso que disse, assim como você só é o que fala e só tem o que fala. todo o resto são adereços, tudo o mais é fantasia.

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2 respostas para sonhos, devaneios e morte.

  1. Marden disse:

    Muito bacana, man.

    O começo me lembrou muito o Graça, mas depois foi tomando outro rumo.

    Heh

  2. nelsonnetto disse:

    gostei muito!
    gosto muito do jeito que você sobrepoe os assuntos e muda eles de forma tão natural. um texto grande que não tem parágrafos e mesmo assim foi de uma fluidez show!

    FH

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