bunda.

“encontrei a bunda perfeita.”

“ahaha e de quem é essa bunda?”

“isso realmente é importante?”

“não?”

“ora, cara, o mais importante é a bunda perfeita, não sua dona. mas tudo bem, ela tem vinte e um anos, um metro e sessenta e três, cerca de cinquenta e quatro quilos, extremamente bem distribuídos por seu corpo branco e cheio de sinais. tem uma cintura fina, uma barriga batida, magra, e os quartos largos, meu amigo. largos e carnudos, como uma boa bunda deve ser. e devo dizer, em questão de mamas, ela não é mal algum, não deixará esfomeado nem a mim nem a seus descendentes. mas isso realmente não é importante. o que importa é sua bunda linda.”

“e de onde ela é, essa bunda sem nome?”

“ela é da vida, do trabalho, do ônibus, da pracinha, do super mercado. sei lá, cara! você está fazendo muitas perguntas sem cabimento. já já vai me perguntar o nome da bunda.”

“e essa bunda tem nome?”

“é claro que tem, irmão. toda bunda tem um nome…”

“e qual o nome dessa bunda?”

“raphaela. com pê agá, de acordo com ela.”

“sei… eu conheço?”

“sei lá. você conhece alguma raphaela com pê agá?”

“não que eu saiba.”

“então, até onde você sabe, você não conhece.”

“então você interagiu com essa bunda, conte-me dessa interação.”

“é claro que interagi. você acha mesmo que eu veria a bunda mais linda do mundo e não interagiria?”

“vai saber, cara? sabe-se lá a que distância ela estava de você e tudo mais…”

“ela estava perto, cara. perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro dos seus cabelos e achasse bom. melhor que aqueles cabelos que só cheiram a creme ruim. ela tinha um cheiro bom. algo que me lembrava o mar e flores. e, por um breve momento, eu achei que estava em outro lugar que não uma sala cheia de gente. fechei os olhos um pouco e, quando os abri, depois de pensar que estava num campo ouvindo as ondas quebrarem na areia ali perto, aquela bunda estava parada na minha frente. sério, linda, grande, dentro de um jeans que enaltecia toda sua beleza e grandeza. e eu senti vontade de, literalmente, comer aquela obra prima. dar uma mordida em uma de suas nádegas para arrancar um pedaço. precisei de muita força de vontade para não fazer isso. depois imaginei várias coisas que faria com aquela mulher se a tivesse na mesma cama que a minha. há quem diga que eu só falo as coisas, que talvez eu não fizesse nenhuma delas, talvez você seja uma dessas pessoas, cara, mas acredite, com a bunda da raphaela eu faria coisas que eu nunca me imaginei fazendo com bunda alguma! então ela virou e sorriu, acho que ela não me notou encarando sua bunda. eu sorri
de volta, ela perguntou se eu era de tal lugar e eu disse que era e ela disse que já tinha me visto antes e eu disse que infelizmente não podia dizer o mesmo e sorri mais uma vez. ela riu. disse que estava indo almoçar agora e perguntou se eu queria ir. eu não estava com fome, mas disse que sim, que queria ir. foi aí que ela me disse seu nome e seguiu na minha frente – admito que deixei que ela fosse um pouco à frente para que eu acompanhasse seus movimentos com o olhar. então almoçamos, conversamos amenidades, fingi o mesmo interesse que sempre tento fingir. aquela coisa de sempre, procedimento padrão para as mulheres que não conseguem ser mais do que… bem… uma bunda, por mais que seja A bunda.”
“ahahahha”
“é sério, cara. olhe para mim. eu falo com todo o meu coração. a bunda que vi não é apenas uma bunda. até porque, como diz um amigo meu há muito tempo sumido, bunda tenho eu, bunda tem você. o que raphaela tem é um monumento rabal.”
“porra, cara. essa raphaela deve ser um absurdo de mulher, então.”
“ela é algo que saiu de sonhos, meu velho. se eu pudesse daria um beijo nos pais dela só por terem feito e alimentado esse ser. as coisas que falo podem parecer sem sentido, podem soar como loucura, mas é que teus olhos não foram abençoados pela visão daquela bunda.”
“certo, certo. e você só viu essa bunda uma vez?”

“não. eu continuei encontrando com ela no mesmo lugar que a encontrei pela primeira vez. temos sorrido um para o outro e, qualquer dia desses vou chamá-la para qualquer programa que me faça chegar a palpar suas nádegas lindas. ahaha e você, cara, como está?”
“ah, cara, estou bem. faz uns seis meses que estou trabalhando num hospital e eles estão me pagando direitinho. eu queria abrir um consultório, mas ainda não creio que esteja pronto para isso, sabe? creio que faltará clientela e, no momento, tenho algo mais importante para fazer.”
“é, cara, e o que é?”
“estou pensando em pedir a beth pra mudar pra minha casa, termos uma vida de casados e tal. talvez até com alianças e essas coisas. ela não curte essa tradição toda, mas acho que ter testemunhas e certidão de casamento é um ritual que eu queria ter, sabe?”
“ahahah, nossa, cara, você está falando em casar! isso é foda! parabéns! dá cá um abraço!”
“ahaha, obrigado, cara. não acho que estou me precipitando, você acha? eu e ela estamos juntos já faz uns bons quatro anos, passamos por muita coisa juntos – e algumas à distância. acho que estamos prontos para, finalmente, morarmos juntos, começarmos a nossa própria família.acho que estou na idade para filhos, antes que eu fique velho demais e perca a energia para cuidar deles, sabe?”

“acho que sei, mas eu ainda não sinto as necessidades de me atrelar a uma pessoa só. talvez eu pense em me atracar a raphaela por vinte e quatro horas seguidas, entrando e saindo de cada um de seus buracos, mas… não consigo imaginar mais que isso. por exemplo, não consigo me imaginar mais de cinco meses ao lado dessa mulher. e quando vejo você com a beth, cara, eu sinto medo de nunca conseguir achar alguém como você encontrou, sabe? se sentir completo com a outra pessoa, ou, se não completo, menos vazio. parece que eu só consigo pessoas que me fazem pensar no quão vazio eu sou e em como isso parece nunca mudar, sabe? isso me assusta muito. eu… queria uma cerveja, ou uma dose de cachaça.”
“eu entendo você, cara. antes da beth eu via amigos com suas mulheres e pensava a mesma coisa que você. e olha, parece que o que vou dizer é só mais um clichê, mas… essa mulher que você quer, ela está aí, cara, ela vai chegar pra você, quando você menos esperar. você vai estar numa fila de banco, andando em algum lugar, ou, quem sabe, não é essa bunda que você está falando aí? o que você sabe sobre ela? sabe seu nome, sabe que a bunda dela é linda e algumas besteiras sobre seus gostos, que pelo que você me fez entender são ruins, mas… talvez ela seja capaz de te surpreender. talvez tudo o que falte seja estímulo. estimule-a, cara. compartilhe coisas com ela e deixe que elas compartilhem com você. devo dizer que muitas coisas que a beth me mostrou não me agradavam a princípio, mas hoje… hoje eu talvez não consiga imaginar minha vida sem elas. tente você também. e… vamos tomar essa cachaça, ou cerveja, ou o que quer que seja. tem um lugar aqui perto que é bem calmo e tem o melhor filé com fritas que eu já comi.”

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5 respostas para bunda.

  1. Marden disse:

    Texto bacana, man.

    O começo foi bem divertido. Lembrou bastante o colegio, não sei por quê…

    Depois perde um pouco do pique, mas nada que realmente estrague a diversão.

  2. Tony disse:

    toda bunda tem um nome.

    foda isso.

    eu gosto de bunda. mais do que de peito.

    texto true demais.

  3. isabelle disse:

    (_I_) <= Bunda
    Ficou legal, mas devia ter dado continuidade a história da bunda, se bem que ficaria ainda mais cheiro do ralo.

  4. nelsonnetto disse:

    caaaaaaara!
    sensacional!
    lembrou o cheiro do ralo sim, mas bateu uma nostalgia do caralho também.

    “parece que eu só consigo pessoas que me fazem pensar no quão vazio eu sou e em como isso parece nunca mudar, sabe? isso me assusta muito. eu… queria uma cerveja, ou uma dose de cachaça.”

    achei foda essa quebra de racioncínio.
    gostei também de quando o cara quer beijar os pais da bunda por terem alimentado ela!
    isso foi muito foda!
    e o final achei massa também!

    e – não sei porque – você sabe batizar bundas.

    FH

  5. Lud disse:

    eu concordo com a Isabelle, tinha que ter mais da história da bunda… mas tá muito bom. bem escrito, de uma forma que você não se cansa e acaba se divertindo ao ler. toda bunda tem um nome, né? 🙂

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