a queda.

eu acreditava que ela tinha algum tipo de super poder. porque as coisas que eu sentia quando estava com ela não estavam no livro. sério. é engraçado de pensar nisso, sabia? mas hoje, talvez eu entenda que posso ter exagerado um pouco todas elas, pelo calor do momento, pela empolgação, a novidade. você, sabe… às vezes podemos nos emocionar com coisas que normalmente não o fariam e, quando pensamos num motivo para sentirmos aquilo, quase nunca encontramos algo racional para justificar. quando estava com ela era mais ou menos assim, sabe? eu não sabia o que sentia, mas era simplesmente bom, e eu jamais pensei que ela fosse me fazer algum tipo de mal. com ela eu me sentia protegido, seguro. era como se eu tivesse sempre alguém pra me proteger, como se nada pudesse me atingir porque, afinal de contas, eu estava com ela e nada entraria no meu caminho e todas as coisas do mundo dariam certo.

lembro bem de dias felizes com ela. nós dois no meu quarto/sala, sozinhos, estirados no chão, as roupas espalhadas, enquanto o meu som tocava bem alto uma daquelas baladas punks que eu tanto curtia. lou reed cantou várias das músicas que eu dediquei tanto a ela. para nós dois não havia vida lá fora. sério, sentia como se só existisse a gente no mundo, e eu simplesmente não me importava com mais nada, porque sentia que tinha tudo: minha cerveja na geladeira, uma garrafa de vinho ao meu lado, ela comigo e a sensação boa de segurança e despreocupação. foi numa noite de sexta que deitamos, foi na manhã de segunda que levatei e fui trabalhar, um dos poucos momentos em que nos separavamos, afinal, era preciso um pouco de trabalho para conseguir bancá-la, satisfazê-la e fazê-la continuar comigo para sempre – quando estamos apaixonados só pensamos no para sempre, não existe nenhuma outra medida de tempo para um coração satisfeito.

o trabalho era algo que eu queria evitar com todas as minhas forças. naquela época eu não sentia prazer nenhum em fazer o que fazia. mas se eu parar para pensar em todas as pessoas que realmente sentem prazer em seus trabalhos, posso dizer que eles são muito mais as exceções do que eu. então, tudo o que eu fazia era pelo dinheiro. as pessoas passavam por mim e eu simplesmente fazia de tudo para me livrar delas o mais rápido possível e nunca mais vê-las na minha frente. alguns chamam isso de eficiência, mas o atendimento expresso quase nunca tem a qualidade de um mais demorado. naquela época eu só queria cumprir minha meta e sair cedo. por dois meses ganhei o prêmio de empregado do mês por ter a maior produção em menos tempo. cumpria minha quota diária rapidamente e enrolava um pouco para poder ir para casa e tê-la em meus braços mais uma vez.

outro fato que me vem à mente quando penso nela é na noite em que nós dois fomos três pela primeira vez – a primeira de muitas, no entanto, essa foi a mais marcante. eu, ela e raíssa, os três na cama, os três fora da cama, todos dentro de todos, todos se usando sem nenhum sinal de posse, incrível desprendimento. uma verdadeira loucura e, por muitos momentos, perdemos noção de nossos corpos e viramos o todo e o todo era um só. raíssa e ela tinham um gosto doce e uma provou da outra, foi lindo. por um tempo nós três mantivemos uma boa relação e raíssa aparecia nos fins de semana e todos nós viravamos uma coisa só mais uma vez. depois dela vieram fabiana – amiga de raíssa, que participou da nossa primeira, e infelizmente única, reunião a quatro -, alessandra, adriana, marina, marta, sabine, zuleica, thamires e muitas outras que não consigo lembrar do nome. era por coisas assim que eu a amava tanto, ela sempre esteve segura de que, por mais que houvessem outras, meu coração era inteiramente seu, assim como todo o meu ser. chego a pensar até que acreditava que sem ela eu não seria capaz de viver, e penso isso porque creio ter dito isso a ela uma noite. mas não tenho essa lembrança. há muitas coisas de nosso tempo junto das quais não me recordo. espantoso é ter todas essas lembranças que tenho.

não lembro exatamente como foi que aconteceu, quem foi que tentou me dizer que ela não estava me fazendo bem. lembro do que senti quando me disseram – acho que foi minha irmã sabrina quem me alertou – era raiva, vontade de esganar esse ser que não queria me ver feliz com ela. e o pior de tudo, minha própria irmã, que deveria querer minha felicidade tanto quanto eu queria a dela! me senti traído, lembro bem disso, porque essa foi a primeira noite que passei na prisão. tentativa de homicídio. havia uma faca na minha cozinha, uma dessas facas de serrar pão, mas uma faca, ainda assim. eu saltei sobre minha irmã e tentei enfiar e faca em seu coração – eu sabia bem onde ficava o lugar mais fácil de alcançar o músculo e não poupei energias para isso. ela gritou e se debateu, enquanto eu gritava que ela era uma vadia e que nunca seria metade do que ela era para mim, que nunca faria um homem tão feliz quanto ela conseguia me fazer, então o vizinho arrombou minha porta e entrou, me imobilizando e chamando a polícia. minha irmã não o impediu, depois de duas noites na delegacia, ela retirou a queixa e eu saí. voltei para meu apartamento e lá encontrei minha mãe e meu pai, que viajaram só para sentarem na minha cama suja e me olharem com olhares reprovadores. disseram que eu iria com eles, que eu não pagaria mais o aluguel, que voltaria a morar na casa deles, que trabalharia na cidade de onde vim. disseram muitas coisas e, em mim, crescia raiva e vergonha. raiva deles e vergonha dela. recusei e recusei, neguei-me relutantemente a voltar para a casa deles, mas estavam irredutíveis. disseram que falaram com meu senhorio, que ele concordava e que já arranjara um novo inquilino para o quitinete. eles haviam planejado tudo para me afastar dela, mas faltava minha vontade, que eles pareciam ignorar. fui arrastado de volta à nossa cidade, onde arranjaram um trabalho num lugar qualquer e seguiram a vida, me espionando. me separaram dela sem dó ou piedade.

por muitas vezes tentei voltar pra ela. encontrava com ela às escondidas, bolava planos absurdos só para tê-la comigo por pouco tempo. fiz essas coisas até o dia em que fui parar no hospital depois de um acidente. foi então que vi que talvez fosse hora de acabarmos. eu já não produzia nada no trabalho, já não tinha mais o dinheiro para sustentá-la, e as visitas que lhe fiz acabaram com o pouco que tinha. havia me tornado uma pilha de nervos, minha calma acabara e tudo me fazia explodir. em um mês perdera quase dez quilos, não sentia mais fome, tudo o que pensava era nela e em como queria estar com ela e em como não conseguia. tentei roubar dinheiro dos meus pais, mas eles estavam um passo à minha frente e conseguiram evitar. foi então que me senti no fundo do poço, afundado em merda até o pescoço. lembro perfeitamente do dia em que me olhei no espelho e não me reconheci. foi o dia em que resolvi que era preciso desistir dela, que agora ela seria de outro – ou outra, ela se sentiu muito bem com raíssa, fabiana, zuleica e as outras. que eu tivera meu tempo com ela e que agora devia seguir em frente, como as pessoas fazem em todos os outros relacionamentos. havia acabado. e daquela vez eu tinha decidido.

faz muito tempo que não a vejo. às vezes acho que havia coisas boas em estar com ela, coisas que hoje não tenho, mas… penso estar enganado. me enganava com ela, todos os dias, pensando que ela estava me salvando porque era seu dever, porque ela tinha super poderes, porque era heroína, mas não… tudo o que ela fez foi me levar ao céu, fazendo crer que eu aprendera a voar, e me largar. a queda machucou bastante e às vezes acho até que ela ainda não acabou.

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4 respostas para a queda.

  1. Lud disse:

    “não existe nenhuma outra medida de tempo para um coração satisfeito”.

    você conseguiu fazer o ‘pra sempre’ ter sentido.

    e cara, eu achei esse um dos teus melhores textos. as imagens, a realidade crua. é como jogar as palavras sem medi-las. muito, muito bom.

    🙂

  2. Isabelle disse:

    Deu vontade de ouvir Velvet Underground

  3. Mina Vieira disse:

    Às vezes eu nos odeio por não sermos quase nada versáteis. Praticamente todos os nossos textos são sobre a mesma coisa e a história mantém-se ao redor de apenas dois personagens – um casal -, tendo às vezes a aparição de alguns coadjuvantes.

    Mas são os melhores textos, os mais sinceros, os que despertam mais empatia. Então, man, desencana dessa coisa de achar que você não evolui nunca. Porque, apesar da relativa constância nos temas, eu acho que você tá melhorando pra cacete.

    ;*

  4. Lah disse:

    poooxa, pv!
    como disse a mina aí em cima, vc está melhorando sempre!
    eu acho incrivel como voce consegue escrever tanto sem se desviar da historia, acho incrivel como vc faz tudo fazer sentido no texto!
    bem, vc me perguntou sobre o que o texto fala… acho dificil responder, acho até que diminui o que o texto é quando a gente limita, categoriza.
    penso que, como uma constante nos seus textos, fala sobre amor e as formas de lidar com ele.
    é claro que muitos outros temas são abordados, mas, como eu já disse, não sou mito fã de delimitações de temas!
    enfim, gostei bastante!
    beijoo, pv!
    =**

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