o problema.

“eu conheço o mercado”  ele me disse com uma voz repreensora e arrogante, do jeito que se diz quando se sabe que suas palavras estão sendo proferidas apenas para magoar “e sei que nenhum editor que se prese vai querer publicar as coisas que você escreve. e até que você sabe escrever bem, mas o que acontece é que seu assunto não é dos mais interessantes. na verdade, você parece só escrever sobre o maior clichê do mundo: o amor entre um homem e uma mulher. todo mundo que já tentou escrever tentou fazer exatamente isso, entende? e é aí que você falha, porque você não se diferencia de ninguém ao fazer o que faz. é só mais uma pessoa falando sobre duas pessoas – e muito provavelmente uma delas é você e os fatos devem ter acontecido, o que faz com que sua ficção não seja realmente uma ficção – e isso não é socialmente importante e não enriquece ninguém, nem mesmo você.”

esse era um amigo que conheci antes da faculdade. ele fez um dos cursos da área de humanas, enquanto eu segui meu sonho besta de querer ser alguém na vida. não, meu plano não deu certo, a faculdade não fez de mim alguém e agora, entre as horas initerruptas de trabalho e alguns momentos para fechar os olhos e dormir, tento escrever o que gosto de chamar de contos. é bondade chamar as pequenas cenas que escrevo de contos, eu sei, mas o primeiro passo é se aceitar, não é mesmo? não posso menosprezar as horas que passo na frente da folha em branco – ou do computador ou de onde quer que me venha a vontade de escrever – a pensar e a suar até conseguir formar uma frase que me pareça plausível, completamente sensata e completamente agradável para mim. tudo começa com uma frase, mas às vezes, antes da frase, existe a vontade de dizer algo, mesmo sem fazer a menor ideia de que algo é.então, um dia eu mostrei a esse colega, que trabalha no ramo de publicações, alguns dos meus contos favoritos e essa foi sua resposta depois de dois dias com meus manuscritos.

“eu sei que você queria que eu te dissesse que o que eu li foi a melhor coisa que esteve em minhas mãos em anos, mas isso seria uma mentira absurda. ontem mesmo recebi um manuscrito com contos de uma moça que tem tanto potencial, e isso porque ela não fala de um homem e uma mulher sentados numa mesa de bar, dando as mãos, isso porque ela não fala de um relacionamento entre um homem e uma mulher que não deu certo porque o cara era excêntrico ao ponto de explodir por causa de um livro que a garota não leu. ela tem potencial porque ela fala além das coisas humanas, além do que podemos entender, mas ainda assim ela consegue nos tocar profundamente em nossa… como dizem tanto por aí, alma. e é isso que te falta nos textos, falta um dedo para cutucar nossas almas, algo que nos instigue a ir adiante e nos faça pensar sobre ele por horas e horas. você poderia tentar escrever um desses romanceszinhos de banca de revista, se o que você quer é ser publicado. eles publicam qualquer merda, mas se você quiser um sucesso de crítica – não de vendas, veja bem, porque venda e crítica é bem diferente, especialmente aqui onde vivemos, onde o povo não lê e tudo o que consome de livros está na seção ‘espiritual e auto ajuda’ das livrarias -, se quiser ser um sucesso de crítica, eu recomendo você a começar a realmente escrever e ser relevante. uma boa coisa a se fazer é ter uma meta – é um tanto quanto amador isso o que vou dizer, mas, ainda assim, vale a pena a tentativa, já que você quer tanto ser um escritor assim. você pode começar escolhendo um tipo de literatura que quer seguir, um autor, ou até mesmo mais, que você admira, e pegar as características principais de sua prosa e incorporá-las. a princípio, até mesmo copiá-las. e dentro disso você vai se tornando cada vez mais livre, cada vez mais flexível em cima dessa forma, você pode escrever sobre vários temas utilizando a forma até que você criou sua escrita única e característica. me diga alguns autores.”

“philip roth, kurt vonnegut, douglas adams, neil gaiman. e eu sei que características de cada um deles eu gostaria de ter, e talvez saiba exatamente onde falho em cada uma dessas. queria ter a capacidade de fazer o leitor encarar a realidade dura como ela é como faz o roth, seca, bonita, real. queria ter a leveza e a capacidade de falar coisas absurdas como o vonnegut, a inventividade do adams e a capacidade de criar histórias fantásticas que ficam na cabeça dos leitores como o gaiman faz. e é exatamente em cada uma dessas coisas que queria tanto que tenho tanta dificuldade. quando escrevo sobre um homem e uma mulher, não escrevo apenas sobre um pênis e uma vagina, mas é uma tentativa de falar sobre todas as relações humanas. escrevo do ponto de vista do homem porque eu sou um e é assim que consigo pensar melhor, nem sempre consigo abordar, no entanto, com a sensibilidade dos mestres que citei, nem sempre consigo ter a leveza nas palavras para guiar minha história, não para o humor puro, mas para uma crítica, como fez adams, como fez vonnegut, como fez e faz roth e gaiman.”

“não sei quem são nenhum desses que você falou, será que não seria melhor você escolher uns autores de mais consistência e mais sucesso?”

sorrio pensando que fosse brincadeira. como alguém do meio editorial e literário como ele que, embora não fosse editor de uma grande revista sobre livros, era editor poderia ignorar esses escritores? percebi que não era brincadeira quando vi que seu olhar, até então arrogante, trocou seu semblante, expressando certa confusão. improvisei uma desculpa, disse que estava ficando quase na hora do meu plantão, que o trânsito estava cada vez pior para me locomover longas distâncias.

“te vejo outro dia, então, cara” estendi minha mão e apertei a sua sorrindo “vou melhorar meus contos, minhas histórias, vou seguir seu conselho, talvez escolher umou outro novos autores e aí te envio outros contos.”

ele largou minha mão de seu aperto mole, nem um pouco firme, sorriu e me disse o nome de alguns autores de sua preferência. eu não escutei.

talvez o problema não fosse eu sozinho, mas ainda assim era eu.

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3 respostas para o problema.

  1. Marden disse:

    Heh.
    Isso é o que dá dar ouvidos ao pessoal de humanas.

  2. Lud disse:

    Não é o pessoal de humanas, meu caro! Esse tal amigo ae tá com o mesmo pensamento mercadológico de quem nos diz pra escolher a faculdade pensando na remuneração futura…
    Ai, os tristes tempos modernos.

  3. John disse:

    Eu acho horrível as pessoas quebrarem os sonhos das outras por não terem bom gosto e pior ainda, por se acharem especiais.
    Acho que me acho muito dono de mim e dos meus pensamentos pra ouvir essas opiniões!

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