as frutas e o tempo.

as frutas estão cheias de moscas, o calor faz com que gotas de suor brotem em sua testa como se fosse a tampa de uma chaleira, os céus estão azuis lá fora, mas ele está ali dentro com suas palavra, pronto pra tentar dizer qualquer coisa que faça o mínimo de sentido para ele e, talvez, para alguém mais que possa ler o que ele escreve. o som diz que ele nunca está lá, o que é bem verdade. às vezes ele sinto que não está em lugar algum, que nunca estará, jamais avançará rumo a qualquer que seja o canto que precise ir para melhorar o que quer que tenha que ficar melhor. dizem que é a vida que deve mudar sempre, sempre indo em direção ao futuro, sempre almejando a uma constante mudança para o bem, porém ele não crê que alcançará o ponto desejado. ele acredita que esse, agora, é o ápice da sua vida, que tudo de bom que pode lhe acontecer está acontecendo e que daqui para frente tudo é uma descida desenfreada até os nove círculos que dante bem descreveu.

as moscas foram embora, um vento frio gela a alma agora, os pelos do seu corpo estão eriçados, a espinha gela, as costas doem, a música que toca já não diz as mesmas coisas que há cinco minutos, já não diz a absolutamente nada de cinco segundos atrás. em alguns momentos ele não faz a menor idéia do que esperar de nada desse mundo. boa parte do tempo ele não sabe nem se manter bem o suficiente para querer sorrir.as frutas se foram há dias, mas a impressão que ele tem é que ainda pode sentir seus odores, saborear sua textura roçando em sua língua e sentindo o sumo doce escorrendo por sua garganta.

as moscas nunca voltaram, assim como o suor em sua testa, mas a agonia do calor, o fogo que queima a alma, continua aqui e parece nunca ir embora. o som está mudo, a vida lá fora é tudo o que ele é capaz de ouvir: carros acelerando, freando, portas batendo, garfos caindo, chaves entrando em trincos, abrindo portas de vidro que batem violentamente ao sabor do vento, alarmes sendo disparados, ele ouve tudo enquanto queria ouvir apenas a voz dela lhe dizendo que tudo está bem agora, sentir seu toque quente em seu rosto, dizendo suavemente que agora tudo daria certo. quer se colocar em seus braços como se fosse uma criança pronta para ser ninada, pedindo à sua mãe um pouco de atenção, um pouco de carinho, um beijo em sua ferida, talvez. nenhum filho quer ouvir de sua mãe: levante e não chore! todo filho quer ser acalentado, quer voltar a ser aquilo que um dia foi: o grande protegido. por pelo menos cinco minutos na vida adulta, um homem quer voltar a ser um menino.

o copo está seco, como a garganta dele, como os rios que deixaram de correr pelo interior do país, como os olhos das crianças famintas, desnutridas. o copo está seco, mas ele podo facilmente enchê-lo, mas acha que tudo o que lhe falta nesse momento é vontade: vontade de seguir a diante, seja lá onde adiante for, vontade de ser forte, de ser firme, de ser impecável, de ser infalível, de ser bom, de ser tudo o que se espera, sente que o que lhe falta é a vocação para tudo isso. falta-lhe vocação pra ser gente. no momento, tem poucas vontades, nas atuais circunstâncias quer ser somente dela e quer somente tê-la em seus braços, em sua cama, na dela, em qualquer um dos colchões que só servem para conter seus corpos nus enquanto se entregam aos rituais maravilhosos da cópula humana. é por isso que o copo está seco, porque a vontade que ele sente não é da água que escorre das torneiras do seu palácio humano, mas sua sede é de tê-la, seu único desejo, única vontade.

o vento entra em seus cômodos, agita cortinas, bagunça papéis e leva todos os cheiros para longe, acaba com todas as lembranças dos perfumes que ela já deixou, seus humores que escorreram de seu corpo até a cama, molhando os lençóis e deixando-os enxarcados, seus lábios nos dele, suas pernas nuas, prendendo-o firme dentro dela enquanto ele a olha fundo nos olhos verdes como esmeraldas, verdes como ele jamais crê que verá outros iguais, olhos que o encontram e acham como nenhum outro par conseguiria fazer. e a única vontade que sente é a de só querer olhá-la por toda a eternidade, sabendo que ela jamais iria se cansar disso, pensando que esses talvez fossem os melhores momentos do mundo. queria que ela e ele só tivessem uma obrigação nessa vida: ser um do outro, mas a vida não é tão fácil assim, existe gente demais no mundo e todas estão prontas para dizer: “ei, isso não é certo! eu não vou deixar que alguém viva uma vida tão boa enquanto eu não puder viver a minha assim também!”. a vontade que tem é de levá-la consigo para longe, pra o lugar que só ele conhece, o lugar que ainda nem existe e que só inventou para poder ter um lugar em que eu se sentiria em paz, sem ninguém. mas lá, lá ela estaria, porque ela é sua alegria, sua paz, sua inspiração, sua vontade de sorrir e de vive. e é por coisas assim que ela estará em todos os outros lugares que ele inventar para si – e agora para ela também.

não sei quanto tempo faz desde que as moscas estiveram ali, desde que o sol passava pela janela, aquecia o recinto, e o fazia esquentar. ele também não faz idéia disso, não tem noção de há quanto tempo está sem tê-la. sente-se como se ali já fosse o lugar que não existe, como se estivesse na mitológica sombra da cidade prateada, o lugar que ele acha que ela tantas vezes desejou que ele fosse parar e nunca pudesse sair. “faz tanto tempo desde que tive pensamentos bons em minha cabeça,”, pensa ele, “desde que eu achei que podia mudar o mundo com minhas ações, desde que achei que tudo que existe talvez chegasse a ser bom, um dia. faz tanto tempo que eu já nem me lembro do sabor dessas coisas. que eu já nem lembro quem eu sou, ou quem é ela.”ele olha para a folha em suas mãos e não enxerga, seus olhos estão cansados, cheios d’água, tira os óculos, aperta os olhos com os dedos, sente as lágrimas escorrerem entre suas bochechas. não sabe por que está chorando, talvez porque há tanto tempo tenha desejado escrever, talvez porque sinta fome, sede dela e há tanto tempo não consegue lhe dizer, talvez porque o som não lhe cante mais nenhuma canção, talvez porque sente em seu peito uma dor, mas talvez, porque depois desse tempo todo sentado, a folha continue em branco.

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2 respostas para as frutas e o tempo.

  1. Lud disse:

    não sei por quê, mas parece que toda tristeza traz um teor a mais de beleza aos textos… poesias ou prosas… e eu consegui sentir a dor dele. a tristeza. o marasmo. até o mormaço, e a vontade de ser menino outra vez…

    “e é por coisas assim que ela estará em todos os outros lugares que ele inventar para si – e agora para ela também”.

    “por pelo menos cinco minutos na vida adulta, um homem quer voltar a ser um menino”.

    “mas acha que tudo o que lhe falta nesse momento é vontade: vontade de seguir a diante, seja lá onde adiante for, vontade de ser forte, de ser firme, de ser impecável, de ser infalível, de ser bom, de ser tudo o que se espera, sente que o que lhe falta é a vocação para tudo isso. falta-lhe vocação pra ser gente”.

    três dos melhores momentos.

    lindo texto, acho que dos que mais me atingiram.

  2. voronka disse:

    Muito bom. Confesso q tive certa dificuldade em alguns momentos, mas no decorrer da leitura, depois de captar a ideia, percebo sua tamanha sensibilidade para este tipo de prosa.
    Difícil de escolher, mas talvez o melhor trecho:
    “(…)o lugar que ainda nem existe e que só inventou para poder ter um lugar em que eu se sentiria em paz, sem ninguém. mas lá, lá ela estaria, porque ela é sua alegria, sua paz, sua inspiração, sua vontade de sorrir e de vive. e é por coisas assim que ela estará em todos os outros lugares que ele inventar para si – e agora para ela também.(…)”
    vou ler de novo,
    flw o/ f&h.

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