discurso.

quando começou, não sabia bem o que ia dizer.

“ainda não sei, mas sei que é preciso. sei que há muito tempo é preciso esclarecer algumas coisas que vêm acontecendo.” ele olha ao redor, os olhos negros perscrutam o vazio, a luz entra em sua retina e embaça tudo o que enxerga, mas ele não liga. “não sei o que você acha que vem acontecendo, mas não é nada disso que você está pensando.” ele pára, passa a mão no rosto, sorri “mas é claro que você vai dizer isso, não é mesmo? não é o que você está pensando, como se soubesse no que estou pensando, como se fizesse a mínima idéia das coisas que se passam na minha cabeça, como se sua cabecinha minúscula fosse capaz de entender minha complexa mente, ou a psique de qualquer outra pessoa nesse mundo que não você! e às vezes acho que nem mesmo de você.” achava que estava indo bem, por enquanto, mas sabia qu elogo se perderia “não, nem mesmo de mim. eu não sou senhor de mim. ninguém é senhor de ninguém e todos somos senhores de nós mesmos, mesmo sem ser. todos somos escravos de cada uma das pessoas do mundo, cada uma das seis bilhões, quase sete. cada júizo de valor, cada crença imbecil, cada pensamento pecaminoso, cada um dos seres que pisa nesse planeta está pensando exatamente que cada um de nós é de uma forma, alguns acreditam se encaixar melhor em um certo grupo, outros se encaixam melhor em outros. e o que isso nos diz? isso nos diz que no mundo, se existem 6 bilhões de pessoas, existem 6 bilhões de pontos de vista para cada um desses seres. são seis bilhões vezes seis bilhoes, você faz alguma idéia de quanto isso é? isso é mais que o número de estrelas estimadas no universo! nem todo homem e nem cada mulher são uma estrela, alguns devem dividir estrelas entre si.”

não fazia a menor idéia do que estava falando, não sabia nem a quem dizia tudo aquilo. seus olhos não identificavam um corpo à sua frente, seu ouvido ouvia a voz, mas não sabia dizer se era apenas um eco de sua voz, se era apenas sua imaginação, se era ele mesmo assumindo diferentes tons. ele não se importa com isso, pode ser somente ele falando sozinho entre tantas pessoas, pode ser que ele não tenha mais vinte e tantos anos, pode ser que não seja mais um recém formado, pode ser que já não esteja mais em seu primeiro emprego. é provável que ele esteja velho, que tenha agora mais de quarenta anos, que agora só tenha mais vinte ou trinta anos à sua frente”acho incrível como todos podem ter uma idéia errada um do outro, como pode haver tanta diferença entre duas pessoas que só querem ter coisas semelhantes, que querem construir uma vida juntos. sabe o que eu acho disso? eu acho que talvez as pessoas estejam tentando cada vez com mais vontade se afastar uma das outras e essa suposta tolerância que dizem ocorrer, especialmente nos últimos anos, ela é só uma balela, uma mentira que todo mundo conta porque não aceitam que ninguém se importa realmente com ninguém, que a vontade de estar com uma pessoa, de tê-la em seus braços, essa vontade é cada vez mais superficial. é facilmente saciável. ninguém deseja mais alguém por toda a vida. ninguém tem tempo pra alguém por toda a vida, hoje em dia o homem espera viver até os 80, 90, 100 anos, espera viver todo esse tempo bem. toda a vida é tempo demais para se estar com uma pessoa só, esses homens pensam. eles acham também que não vale a pena se dedicar a uma única paixão, acham que não valem a pena realizar pequenos sacrifícios. talvez o mundo tenha crescido ao ponto de não existirem mais mártires, mas às vezes eles são necessários. não falo de uma joana d’arc, ou esquizofrênicos do tipo, falo de mártires ideológicos, que provaram suas idéias e não dependem apenas do subjetivo para cada uma de suas coisas.” alisou sua barba com as mãos, quando começou a falar, jurava que não tinha tantos pêlos em seu rosto, podia crer que não era tão velho, que não tinha o peso do tempo em suas costas, que era apenas um sonhador, não se assemelhava a um profeta, a um dos esquizofrênicos. “o homem hoje precisa saber fechar os olhos pra poder seguir em frente. estamos vivendo uma nova idade das trevas, mas as sombras que se abatem sobre nós não são as mesmas de séculos atrás, hoje fechamos os olhos uns para os outros, fechamos os olhos para o que é mais importante em nós mesmos, o que somos, não o que temos. hoje, achamos que ter alguém para nos ajudar é ser atrapalhado por esse alguém.” os dedos de unhas sujas agora estavam em sua boca, ele mordia, roendo as unhas, e cospia pedaços de queratina no chão próximo a si, arrancava alguns pelos de sua barba enquanto observava com atenção como eles eram, colocava-os entre os dentes, sentia seu fio com a língua, então, mais uma vez, cospia o pêlo pra longe e continuava a falar, sem olhar pra ninguém em particular, mas olhando para todos, como se dissesse tudo a cada um dos que passavam por ele sem que se apercebessem das coisas que fala ou até mesmo de sua existência ali. “eu posso dizer a vocês todos que eu não faço idéia do que estou falando, mas a verdade é que eu sei muito bem. uma vez estive no meio de todos e vi o que era preciso para viver a vida como se realmente precisa: é preciso amar, é preciso viver, sorrir, chorar, comer e beber. eu posso dizer a todos vocês que há muitos anos eu não enxergava, mas agora eu vejo claramente tudo o que é necessário para se ter uma vida harmônica com os outros e consigo mesmo. vocês me dizem que a resposta está em um livro, está em vários, mas a verdade é que a resposta de todas as perguntas está somente no que a gente quer acreditar! há quem diga que é quarenta e dois e que esse é o número de caminhos a serem caminhados na vida do homem, há quem diga que a verdade está em um homem que, como eu, dizia que tudo o que precisamos é de amor – o irônico sendo as pessoas que dizem isso, que idolatram o homem, não seguem sua palavra e terminam sendo filhos egoístas de uma filosofia distorcida de uma seita judaica de milhares de anos. há aqueles que digam que a verdade está na guerra e que a paz só será conquistada no pós mortem, no eterno banquete. eu não acredito em nada disso, particularmente – talvez no judeu que diz que todos devem se amar, mas das coisas em que ele acreditava, essa é a única que faz sentido. eu só acho que todos nós precisamos dar vazão aos sentimentos. todos nós, antes de falar, antes de agir, precisamos sentir, pensar sobre o que sentimos e perceber que não é isso que é preciso para seguirmos adiante. tudo o que é preciso… somos nós mesmos.”

fechou os olhos, estava cansado de repetir aquelas palavras, estava cansado de ser ignorado. sua barba branca estava cheia de sujeira, seu cheiro era insuportável para qualquer um – até ele mesmo parecia se incomodar, às vezes -, seus olhos leitosos, um dia negros como carvão, já não diferenciavam rostos humanos de animais, já não enxergavam as cores, seus ouvidos não mais escutavam as ondas do mar que quebravam na areia. o sol queimava sua pele e o suor brotando de sua pele bronzeada era a única coisa que sentia. fechou os olhos porque não tinha mais forças para mantê-los abertos.

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2 respostas para discurso.

  1. Lud disse:

    Nossa… Que denso, e triste. Gostei da forma como ele expôs as próprias verdades. Mas fiquei com certa sensação de tempo perdido, não sei…
    Concordei com ele e achei algumas das frases que ele disse muito bonitas. “tudo o que precisamos somos nós mesmos”.

  2. Marden disse:

    Ficou bacana, man.
    Ta meio confuso, mas de certo modo você usou essa confusão no texto, com o narrador mal sabendo quem ele é.

    No geral ta um bom texto,man.

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