dirigindo.

está escuro, os faróis iluminam seu caminho, mas tudo o que consegue pensar é na escuridão. não se importa mais em permanecer na claridade, não há nada que o atraia mais na luz, que só serve para fazê-lo ver todas as imperfeições que existem em tudo o que mais amava até agora. tem à sua frente a escuridão primordial, aquilo que deu origem a tudo, e tem a luz, que arruinou toda e qualquer possibilidade da criação. enxerga o caminho que seu carro faz e só consegue pensar em tudo aquilo que já lhe aconteceu na vida. do nascimento até agora e não consegue chegar a uma conclusão positiva. não consegue enxergar nada. ele admite que não precisa de um motivo para viver, vive muito bem só por viver, mas existem coisas demais nessa vida que o fazem pensar que talvez, apenas talvez, a melhor solução para a vida seja a Única. um dia havia saído dos testículos de seu pai, foi então um campeão, o primeiro a conquistar o grande objetivo: a fecundação do óvulo, a procriação da espécie. mas ele se pergunta hoje: de que importa isso? o que eu trouxe a eles além de dívidas, preocupações, fatores de risco para doenças cardiovasculares, as doenças em si, a destruição do corpo de sua genitora, o divórcio, as tristezas. que alegria foi trazida por ele que seus pais não teriam conseguido de outras maneiras? pensava que toda e qualquer felicidade por ele trazida seria incomparavelmente inferior às tristezas e infelicidades associadas à sua presença na vida de seus genitores: as falhas, as drogas, as revoltas, as palavras cortantes. não havia motivos para continuar. é claro que se acontecesse algo com ele agora, como ele tanto pensava, seus pais chorariam, seu pai voltaria aos antidepressivos, sua mãe passaria algum tempo triste, em casa, deitada em sua cama, entre suas coisas, tentando entender por que aconteceu aquilo justamente com seu filho, mas, com o tempo, a vida voltaria ao seus eixos, suas coisas seriam doadas, vendidas, perdidas e tudo o que restaria seria uma leve melancolia nos olhos de seus genitores e a saudade ocasional.

se alegrava de seus amigos, no entanto, se enganava muito ao achar que possuia mais amigos do que realmente tinha. era dono da a péssima tendência à confiança, e acabava por acreditar demais em pessoas que não mereciam seu tempo, sua amizada, nem mesmo seus bons pensamentos. já havia recebido conselhos antes a esse respeito, sobre como deixava pessoas sem importância entrarem em sua vida como se fossem importantes, mas o conselheiro esqueceu de avisar que essas pessoas estão em maior número do que ele pensava. mas com o tempo foi descobrindo quais delas eram descartáveis e quais não eram e foi afunilando melhor suas amizades. hoje sabia que se fosse embora, se sumisse, se o carro que dirigia tão calmamente saísse do caminho, perdesse o freio na hora de uma curva e caísse num barranco, se ele batesse num poste e fosse arremessado para fora do veículo, se capotasse o carro quatro vezes e tivesse suas vísceras perfuradas pelas ferragens, seus amigos, os amigos de verdade, não esses que até então ele acreditava que fossem amigos e não passavam de menos que colegas, eles iriam ao seu velório, ficariam tristes por um tempo, talvez alguns deles até chorariam, mas a vida seguiria. era isso que ele queria, até, que a vida seguisse, sem ele, claro, porque a verdade é que o universo não precisa dele para nada e ele sabe dessa verdade há um bom tempo. na verdade, era esse um dos fatores que ele achava mais fabulosos em viver: simplesmente não importava quem vivia e quem morria, as coisas continuariam as mesmas dependendo do observador. é provável que, às vezes, depois de uma noite de conversas divertidas, cervejas e risadas, seus amigos iriam rir até só restar o silêncio e então alguém pensaria em como ele participava tão ativamente desses momentos, com mais álcool, com mais alegria, e imaginam que se ele estivesse ali, provavelmente contaria alguma coisa tão engraçada quanto aquelas que falavam e como enriqueceria o coro de risadas com a presença de sua gargalhada grave e alta, mas, assim como veio, o momento passaria, e todos seguiriam adiante, como se deve fazer em todos os aspectos dessa vida.

o amor de sua vida logo arranjaria o amor da vida dela. talvez, por um tempo, ela se perguntasse sobre como estaria agora se ele ainda vivesse com ela, seguiria algum tempo na terra-de-tudo-aquilo-que-poderia-ter-sido-e-não-foi, então, depois de um tempo, curto, provavelmente, encontraria alguém a quem amaria mais, alguém que a amasse como ela achava que merecia ser amada – enquanto dirige, aperta o voltante ao lembrar de todas as vezes em que ela disse nunca ter sentido o amor que ele tanto dizia sentir por ela -, alguém que, diferente dele, seria presente em sua vida – e recordou-se de todas as vezes em que ela falava do quão ausente ele era em sua vida e sentiu sua mão apertando ainda mais forte o volante.

sabia que nunca fora um exemplo de nada na vida, nem de amigo, nem de filho ou de namorado, havia vivido sua vida como muita gente faz, sem nenhuma distinção dos outros, sendo mais um, como todos os outros. sentiu uma vontade enorme de esmurrar a buzina e sair pela madrugada acordando todos, mas inspirou e expirou algumas vezes até se sentir melhor.o caminho continuava se abrindo à sua frente, a luz dos faróis do carro continuavam cortando a escuridão, acabando com toda a possibilidade de algo maior, de algo inexplicável, da esperança de um fim logo ali, abrupto.

mas tudo bem, ele não precisava de um fim agora, se contentava com o planejamento, acreditava que um dia talvez chegasse a hora de pro em prática todo e qualquer plano, ou não. talvez viesse o momento em que tudo aquilo não passariam de pensamentos inúteis que pululavam em sua cabeça, sonhos malucos, como sonhos de ser rei, sonhos de ser deus, sonhos de ser qualquer coisa mais. no momento só devia se preocupar com a atenção que dava à estrada, aos movimentos muito bruscos, ao peso que colocava nos pedais – o acelerador tocava o chão do carro – e ao velocímetro. deveria tomar cuidado para não fazer nenhuma referência a músicas do roberto carlos nesse momento, não deveria se distrair, logo passaria por um cruzamento onde deveria diminuir a velocidade, logo faria uma curva.estacionou, fechou a porta do carro e deixou todo e qualquer pensamento dos que tivera ali. quem sabe eles voltariam depois, hoje só queria dormir em paz.

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Uma resposta para dirigindo.

  1. Marden disse:

    Bacana, man.
    Gostei da escuridão trazendo a tona o que há de mais negro na vida.

    Ps: Por alguma razão me lembrou Reviewmirror.

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