maçã.

“você é como maçã, quanto mais como, mais vontade de comer eu sinto.” estava deitado, a cabeça sobre o ventre branco e globoso dela, os corpos suados escondiam-se em parte nos lençóis bagunçados sobre a cama.
ela riu e ele a encarou. sentia-se bem por tê-la feito expor seus belos dentes. acredita ser uma das maiores recompensas que ela poderia lhe dar. seu sorriso é o presente que ele adora receber. acha tão natural, tão espontâneo; além de o fazer ter vontades que acreditava nunca ser capaz de sentir. ao vê-la contraindo os músculos responsáveis pelo riso, o zigomático maior tracionando sua boca, num ângulo lindo e simples, como, acredita ele, somente o dela consegue ser, poderia admitir que, pela duração do sorriso dela, o mundo é um lugar bom, justo e belo.
ela se lembra do começo da noite, quando tudo estava calmo, quando ele não estava ali, quando seu corpo repousava tranquilamente na cama ainda arrumada, com o lençol apenas levemente amassado pelo seu peso; pensa no livro que estava lendo – aquele mesmo livro de dois meses atrás – e que deixou ao lado da cama com o falho intuito de, toda noite, ler um pouco antes de dormir; pensa na feira que precisa fazer, mas que está sem dinheiro, e nas arrumações que a casa precisa, as faxinas, as lavagens de pratos sujos, as roupas para tirar da máquina de lavar, para passar, para pendurar no guarda roupas; pensa no tempo que precisa para todas essas coisas. pensa em tudo isso enquanto olha para ele, tudo o que vem à sua mente é: como ele consegue fazê-la perder seu tempo? como ele consegue fazer aquilo? como é que ele faz para tirar dela todos os pensamentos, todas as vontades, restando apenas aquela submissão, aquela quase falta de amor próprio, aquela devoção àquele homem que ela juraria querer tudo, menos amá-lo?
ele acredita estar amando. amando de uma forma tão intensa como nunca pensou que pudesse fazer. tivera esse tipo de pensamentos com outras, como é natural a um homem da sua idade, mas é que agora, ao pensar em tudo o que viera antes dela, percebe que uma névoa pairava ao seu redor, turvando sua visão do mundo. agora acredita que pode ver tudo claramente – mal sabe ele que o amor é a constante turvação. focamos nele e tudo ao redor é fosco, sem brilho, turvo, apagado, meras formas que, por mais tentadoras e sensuais que pareçam, não passam de formas que não prometem nada.
ele tem a ilusão de ser amado. é provável que carregue consigo esse pensamento porque seu objeto de amor, ela, deitada ao seu lado na cama, não fala nada que negue esse pensamento. não se pode saber muito sobre ela, é o que ele acha, por ela ser tão calada, tão fechada, tão introspectiva. por muito tempo, ele chegou a pensar que pessoas como ela não eram capazes de amar nada e ninguém além de si mesmos e seus infinitos dilemas que nunca levavam a lugar nenhum. por muito tempo acreditou que a falta de resolução para os conflitos internos os faziam seres egoístas, incapazes de amar. é uma idéia que ainda não descartou, mas na qual não gasta mais tanto tempo de sua vida.
ela o beija e tira a cabeça dele, que pesa bastante, do seu colo e se levanta. nua, procura sua calcinha no chão do quarto e a veste, agaixa-se e pega a camisa dele que está no chão, joga ao seu redor, se vestindo, fecha alguns botões, o suficiente para cobrir-lhe os seios fartos, e sua barriga, e fica apenas com suas pernas brancas nuas, andando para lá e para cá por um tempo, até sentar-se mais uma vez ao lado dele, que continua deitado na cama, agora com um livro em suas mãos, o mesmo que ao atendê-lo no interfone e abrir a porta foi largado lá, no chão, ao lado da cama, trocado pela noite de sexo. ele não diz nada, entretem-se com a leitura. ela também não fala. sente-se condenada a não saber o que acontece consigo mesma.
ela sai do quarto e ele larga os olhos do livro e acompanha seu movimento, aguça bem os ouvidos e consegue escutá-la na cozinha, mechendo em alguns pratos, abrindo a torneira, lavando algum copo, talvez? algum prato? ouve o som de panelas se chocando. será que ela vai cozinhar? se sente impelido a largar o livro, vestir sua cueca, sua calça e ir até ela, encontrá-la à beira do fogão, cozinhando para eles uma refeição pós sexo. consegue se imaginar com ela, os dois sentados à mesa, saboreando seus pratos, macarrão com salsicha e molho de tomate, algo simples, fácil e gostoso; consegue vê-la do outro lado da mesa e sentir os dedos de seus pés frios tocando o pés pequenos e quentes que ela tem. ele consegue imaginar tudo isso e acha tudo tão bom. ele fecha o livro, veste a cueca, a calça e sai do quarto em silêncio, pronto para vê-la na cozinha como ele imaginou. ela está parada, o braço direito segurando a porta da geladeira, que está aberta, enquanto apoia seu corpo com o braço esquerdo contra a porta do congelador. ela encara o conteúdo da geladeira e, quando ele chega à cozinha, ela desvia o olhar para ele, parecendo confusa. ela sorri.
“estou vendo o que tem pra comer.” ela diz.
“está bem.” ele responde.
ela se sente incomodada por tê-lo ali parado na porta da sua cozinha encarando-a como se ela fosse sempre passível à análise. era isso, ela pensou, era isso! ele sempre a olhava como se estivesse tentando conhecê-la mais do que ela mesma. ela poderia jurar que ele tenta a ler como se fosse um dos livros que ele sempre carrega. sente-se mal,  confusa, na verdade, não sabe bem o que fazer. pega um recipiente da geladeira, abre e encontra verduras com maionese que preparou há dois dias, o cheira e não acha que está estragado. levanta o recipiente para mostrar a ele.
“uma maionesezinha?” ela diz sorrindo, tentando ser agradável.
“não, obrigado.” ele responde da porta, sem se mover. os braços cruzados, as pernas abertas, o torso nu. ela o acha bonito à sua maneira, mas sempre se vê pensando em como foi que eles começaram tudo aquilo.
ele a acha linda e se sente um homem de sorte por estar ali, assistindo àquele momento em que ela escolhe a comida que quer forrar seu estômago.
“tem também um arroz aqui na geladeira, e a maionese tem peito de frango desfiado. dá pra nós dois, você quer?” ela insiste na comida.
ele se aproxima das costas dela, passa seus braços por sua cintura, sente seu calor, sua maciez, coloca o queixo no ombro esquerdo dela, sente o cheiro do seu cabelo, do seu suor do sexo. ele aproxima seu corpo todo do dela e beija seu pescoço, morde o lóbulo de sua orelha direita, ela geme baixinho e ele sente seu pau endurecer contra ela.
“você tem maçã aí?”

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2 respostas para maçã.

  1. Marden disse:

    Muito bom, man!

    Ficaram foda os pensamentos de cada um sobre o outro.

    E a frase final fechou com chave de ouro.

  2. Lud disse:

    muitobom, muitobom! nem comento a última frase, mas os trechos que descrevem como cada um se sente a respeito do outro, sobretudo os dela, ficaram fodas. “como é que ele faz para tirar dela todos os pensamentos, todas as vontades, restando apenas aquela submissão, aquela quase falta de amor próprio, aquela devoção àquele homem que ela juraria querer tudo, menos amá-lo?”

    adorei!

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