um rio.

pensava em fluxo de pensamento. os fones de ouvido tocavam apenas mais uma canção de amor. à esquerda a rua onde os carros corriam e faziam seus barulhos, as buzinas, os motores, as pessoas. pé ante pé ante pé ante pé. não gostava do recurso utilizado tanto pelos modernistas. uma moça bonita passa num carro prateado e vai embora deixando apenas a lembrança de uma moça bonita e a tristeza de não mais vê-la, a infelicidade de não poder despi-la por completo revelando seus segredos escondidos pelos panos. pé ante pé ante pé ante pé. não achou as obras primas do movimento modernista nada tão interessante, mas faltava uma. um ônibus cheio passa na rua e ele sente o chão da calçada, sob seus pés, tremer. chegou na ponte. pé ante pé ante pé ante pé. à esquerda o rio, a rua à direita, a ponte que faz seu caminho é de concreto e sólida como tudo ao seu redor: os prédios, as casas, as pessoas, o rio. o rio corre por baixo de onde passa e ele acha que consegue sentir a água, o frescor, mas, na verdade, tudo o que sente é o cheiro ruim que sobe, indicando que ali, naquela lama, a vida quase não há, por mais que tentem fazer os milagres. pé ante pé ante pé ante pé. tinha lido joyce, o pai, o criador, o louco, lera wolf e, mesmo não sendo fã, tinha que dar o braço a torcer que aqueles dois sabiam bem o que faziam e, claro, lera lispector, da qual não tinha uma boa opinião. pé ante pé ante pé ante pé. a rua naquela área era extremamente movimentada, sob a ponte passavam pescadores nos barcos pequenos de pesca, na ponte, em outro ponto, um homem vestia uma camisa preta desbotada, ele tem cerca de 60 anos, mas bem pode ter 40 e a vida tê-lo destruído como faz com tantos; esse homem joga no rio uma rede. na camisa, a estampa de uma banda de black metal. pensa que aquele senhor não faz idéia do que veste, pensa em como ele conseguiu a camisa, quem a doou. então imagina que não, que ela poderia ser dele, e chega a ver o senhor ao lado do som de sua casa, ouvindo enquanto a voz gutural canta versos em apologia ao anjo caído. as mãos do homem lançam a rece, que ele vê caindo, observa o pescador trabalhando com suas mãos. pé ante pé ante pé ante pé. os carros passam ignorando sua existência ou a do pescador. segue adiante. pé ante pé ante pé ante pé. pensa em como demorou lendo os livros, como o tempo passa, como fazem anos desde que tomou em suas mãos uma dessas obras modernistas, como nunca leu o famoso mrs. dalloway, ou como nunca leu o retrato do artista quando jovem – e ri por dentro quando pensa na vez em que, mesmo sem nunca ter nenhum conhecimento real sobre o conteúdo desse livro, pensou em fazer um paralelo entre seu nome e seu escritor favorito, que serviria muito bem de base de estudo para um trabalho de conclusão de curso de letras: nathan zuckerman: o retrato do artista quando jovem, analisando não apenas o primeiro trabalho do roth como zuckerman, mas os quatro primeiros, aqueles de quando roth já não era tão jovem assim e decidiu contar uma história que não era sua, apesar de ser tão parecida. então lembrou-se do filme que tem a senhora dalloway, sua escritora suicida e uma de suas leitoras. então ficou curioso. os fones de ouvido agora falam sobre um piloto automático sem controle. pé ante pé ante pé ante pé. então pensou em como estava calor, o suor lhe brotava nas têmporas e escorria por seu rosto. pensava no que levava as pessoas a saírem de suas casas, pensava no que o fez sair do conforto do lar, pegar um ônibus, um metrô, outro metrô, mais um ônibus, cruzar uma ponte a pé, ver os pescadores, o rio sob seus pés, correndo como o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, como diz o raduan nassar, o tempo que pára ao redor das pessoas, que não existe em certos momentos, que voa em outros, o tempo que faz com que o agora não seja mais nada no momento em que se vai, o tempo que arrasta atrás de si nossa vida e nos aproxima tanto da maior certeza da vida, o tempo que traz a vida como o rio que traz o sustento do homem que sua pelo pão, que sua por nada, que sua pé ante pé ante pé ante pé com uma sandália na calçada que já teve tantos pés, no caminho que já levou a tantos lugares e que agora ele toma para ir aonde quer ir. pé ante pé ante pé ante pé atravessa a rua depois de ver os carros passarem, depois de esperar as pessoas indo atrás de vidros, de ferragens, indo com os motores iguais, indo seguindo os padrões, seguindo a três, quatro mil rotações por minuto, enquanto ele segue pé ante pé ante pé ante pé. talvez não seja necessário seguir adiante, ele pensa, talvez tudo o que eu precise seja voltar e ficar em casa, parado, talvez o melhor não seja continuar até lá, onde vou ver os livros do mundo inteiro, os livros que eu quero e nunca terei, os livros que não quero e nunca lerei, onde terei todos os meus sonhos detonados pela minha capacidade financeira e pelo tempo que nunca terei para ler tudo o que sonhei. pé ante pé ante pé ante pé. ele pensa em tudo isso enquanto a porta à sua frente se abre sozinha; pensa em tudo isso enquanto seus fones cantam para ele, bem no ouvido, que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos; pensa em tudo isso enquanto um casal sai porta afora, braços dados, sorrisos no rosto, uma alegria que somente casais conseguem ter e que ele inveja todas as vezes que está sozinho, porque sempre que está sozinho não se lembra do calor de um corpo ao seu lado, da mão entrelaçada à sua, não pensa nos beijos dados, mas se recorda bem de cada beijo negado e de cada vez que procurou pela mão e não a encontrou, das muitas vezes em que o corpo ao lado não estava mais ao lado, sumido no meio da noite, recolhido em um canto distante, se apertando para não estar ali com ele, evitando-o completamente. pé ante pé ante pé ante pé. o vento frio que vem de dentro sopra seu rosto e traz alívio, suas mãos passam pelo rosto enxugando os focos de suor, os livros ao redor estão organizados de forma com que o que vê agora são os lançamentos, as coisas mais novas do mundo das folhas de papel impressas. as pessoas folheiam e folheiam, ele consegue ouvir o toque dos dedos passeando pelas milhares de letras negras, sentindo sua textura, seu conteúdo; consegue sentir os olhos se movendo e absorvendo cada uma das palavras, sorvendo o conhecimento, os estilos, dos piores aos melhores, dos clássicos do século IV antes de cristo ao mais moderno e terrível best seller. as pessoas ao redor procuram o que ele procura: algo que as faça sentir. mas nem todas sentem com as mesmas coisas que ele busca, assim como o contrário é verdadeiro. pé ante pé ante pé ante pé decide dar uma olhada na estante de sempre, onde sabe que ele estará, onde o encontrará e o folheará, e se sentirá bem por saber que existe uma obra, um escritor, uma pessoa, que ele se identifique tanto. pessoas passam às suas costas, a música canta que seu orgulho não vale nada! nada! o livro que segura em suas mãos diz

“Ora, sou muito vulnerável à beleza feminina, como você sabe. Todo mundo se torna indefeso diante de alguma coisa, e no meu caso é isso. Diante de uma mulher bonita, não enxergo mais nada. Logo na primeira aula descubro quase imediatamente qual daquelas garotas é a minha. Mark Twain tem uma história em que ele foge de um touro e sobe numa árvore, e o touro olha para ele e pensa: “O senhor é a minha refeição”. Pois bem, leia-se “a senhorita” em vez de “o senhor”, e é isso que eu penso quando vejo as garotas na sala de aula.”

e ele pensa nas garotas da sua vida, naquelas que passaram, naquelas que virão, naquela que está tão perto dele que é quase dentro, quase uma parte dele, e, ao mesmo tempo, parece tão, mas tão longe, tão distante. um homem se aproxima dele, pega um livro na estante e sai para checar o preço numa das máquinas da loja. pensa em seu rosto corado e em seus dentes brancos e em seu nariz pequeno e lembra das várias vezes em que a viu. lembra, então de uma vez que a viu entrar na sala, vinda do quarto, com seu andar casual, desleixada, o cabelo solto nas costas, ainda úmido do banho, usando um vestido cuja estampa eram pequenas flores vermelhas. pensou nas sensações que ela causava. pessoas riam perto dele, três pessoas, como pôde ver através das prateleiras. pensou em como ele pensou da primeira vez que a viu que ela seria a refeição dele. pensou em como tantas vezes jantou com ela fora de casa, as comidas não saudáveis, em quantas vezes a recebeu em casa para dividir de sua comida. uma funcionária da loja pede licença a ele para poder guardar um volume. sente pela última vez a textura da página aberta, fecha o livro e o guarda. pé ante pé ante pé ante pé vai até a área de música, para agradar uma das mulheres de sua vida. pensa em como agradá-la, em como fazer com que ela se sinta bem, em como demonstrar, sem precisar se expor demais, que ele a ama o suficiente para se importar com seu bem estar. o fone de ouvido diz que é humano e precisa ser amado, como todo mundo. pé ante pé ante pé ante pé chega a sessão de música brasileira, olha também os italianos, os americanos, as novidades do mundo fonográfico, procura clássicos no meio de grupos que nunca ouviu falar, encontra as cantoras que choraram por homens e fizeram os homens chorar por elas, encontrou berço do rock, viu também ali seu crescimento e desenvolvimento, viu seus primeiros passos, suas quedas, seus triunfos. pé ante pé ante pé ante pé chegou ao disco escolhido. um dos cantores favoritos dela, uma colecionadora, uma antiquada, uma semianalógica no mundo digital. pé ante pé ante pé ante pé foi ao caixa. o lugar estava cheio, mas a fila não era grande, apenas uma pessoa estava na sua frente. ao seu lado, uma coluna de livros em promoção. deu uma olhada rápida e viu alguns títulos clássicos, madame bovary, moby dick, mrs. dalloway. foi então que encarou bem esse livro e pensou que estava na hora, talvez, finalmente, de ler aquela obra tão comentada. colocou-a debaixo do braço. a pessoa à sua frente era uma senhora de cerca de cinquenta anos, era magra e tinha o cabelo castanho e volumoso, carregava uma bolsa de fibra sob o braço e pagava com cartão de crédito os dois livros que estavam no balcão do caixa. a atendente devia ter uns vinte e três anos, provavelmente uma estudante universitária. imagina qual curso ela faz, o que ela gosta, se ela já gastou seu salário no lugar onde trabalha ou se ela não caga onde ela come, como diz a expressão. imagina ela recém saída do banho, no quarto do computador, os cabelos ainda molhados, usando uma roupa de ficar em casa, um shorts velho, leve, uma camiseta branca sem mangas; uma música suave vem das caixas de som do seu computador que está ligado, ela diz para chegar um pouco mais perto e ouvir o que tem a dizer. ela está sentada de costas para o computador. em suas mãos um livro cujas folhas têm as pontas dobradas e as páginas rabiscadas. seus óculos de aro grosso estão na ponta do nariz, e ela tem um lápis na mão direita. de tempos em tempos grifa algumas frases, circula alguma palavra, marca um parágrafo. ele a imagina concentrada em sua leitura, rabiscando, anotando, marcando, todas as coisas que ele nunca teve coragem de fazer com seus livros. é sua vez no caixa. ele olha para a moça nos olhos, ela o encara de volta e pergunta qual a forma de pagamento. ele responde que à vista, dinheiro. os olhos castanhos dela o fazem pensar em como são raros os olhos verdes que ele tanto gosta de encarar. paga. pé ante pé ante pé ante pé vai embora. na sacola mrs. dalloway iria comprar as flores ela mesma.

(o trecho em itálico é da obra Animal Agonizante, do escritor americano Philip Roth e foi retirado daqui )

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2 respostas para um rio.

  1. Lud disse:

    Incrível como nossos pensamentos fluem, de acordo com o que sentimos, vemos, precisamos. Foda esse texto. Gosto da forma como você reúne aspectos normais da vida e os distribui.

    “viu também ali seu crescimento e desenvolvimento, viu seus primeiros passos, suas quedas, seus triunfos”.

    foda. incrível como a música conta nossa história.

  2. nelson disse:

    muito bom texto!

    ele é todo rio. a fluição dos pensamentos em torrentes de informação percebidas e associadas a lembranças e outros pensamentos. o andar, a música no fone de ouvido.
    genial!
    muito foda!
    sou fã desse seu cotidiano.

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